A semana havia sido longa, arrastando-se como um rio de águas pesadas e turvas. Sanzu fugia de Mikey como o diabo foge da cruz, evitando cada esquina, cada olhar, cada palavra que pudesse levá-los de volta àquela intimidade que agora parecia tão distante. Ele se escondia nas sombras da boate, nos corredores vazios, nos cantos escuros onde a luz não alcançava. Era uma dança cansativa, mas necessária. Ele não estava pronto para enfrentar Manjiro, não quando o rancor latejava em seu peito como uma ferida aberta.
O Sano, por sua vez, não tinha tempo para correr atrás de Sanzu como gostaria. A Bonten exigia sua atenção total. Ele e Kokonui se desdobravam em mil, tentando recolocar a gangue como o pilar central do submundo de Tóquio. Sem as alianças internacionais, teria sido impossível. O apoio de Anthony Pelltov havia sido crucial, e o carregamento de armas que chegara ao porto dois dias atrás era uma prova disso. Sanzu fora buscá-lo pessoalmente, como sempre fazia quando se tratava de algo importante, por causa da pressão dos dias anteriores ele acabou se acostumando a estar à frente das operações. Ele era eficiente, meticuloso, mas distante. Mikey notara a frieza em seus olhos, a maneira como ele evitava qualquer contato, qualquer palavra desnecessária. Era como se o Haruchiyo estivesse se tornando um fantasma, alguém que Mikey podia ver, mas nunca mais tocar.
Enquanto isso, Senju tentava retomar sua vida normal. Sanzu insistira que ela voltasse à faculdade de Medicina e arrumasse um emprego. Ele sabia que ela temia deixá-lo depois de tudo o que aconteceu, mas também sabia que ela não podia parar sua vida por causa dele. A garota relutou, é claro, mas no final acabou cedendo. Agora, ela dividia seu tempo entre os estudos, o novo trabalho e as visitas rápidas à boate, onde sempre chegava com um sorriso cansado e um abraço apertado para o irmão. Sanzu a recebia com uma mistura de alívio e culpa. Ele não queria ser um fardo para ela, mas também não sabia mais como viver sem sua presença.
Naquela noite, ele estava no telhado da boate, como sempre. Era um pouco desconfortável, mas ele não se importava. Era melhor do que o calor sufocante das memórias que insistiam em assombrá-lo. Ele olhava para a cidade lá embaixo, as luzes brilhando como estrelas caídas, e se perguntava se algum dia conseguiria se livrar do peso que carregava. Mikey estava em todos os cantos de sua mente, em cada respiração, em cada batida do seu coração. Era insuportável.
Manjiro, por sua vez, estava em seu escritório, cercado por papéis e planilhas. Kokonui havia acabado de sair, depois de horas discutindo estratégias e números. O líder da Bonten estava exausto, mas não conseguia descansar. Sua cabeça estava dividida entre o futuro da gangue e o presente que ele não conseguia consertar. Ele sabia que Sanzu estava sofrendo, mas não sabia como alcançá-lo. Cada tentativa era rebatida com um muro de silêncio, e Mikey não tinha mais energia para escalá-lo.
Foi então que Angel apareceu na porta, carregando uma pilha de documentos que parecia desafiar as leis da física. Ele entrou sem bater, rapidamente acostumado com o semblante enfezado de seu novo chefe, e colocou os papéis na mesa com um sorriso descontraído.
— Precisamos assinar isso antes de amanhã, — ele disse, apontando para a pilha. — E eu já organizei tudo por prioridade. Você só precisa dar uma olhada.
Mikey olhou para ele, um misto de admiração e desconfiança em seus olhos. Angel, ou Arthur Kent, como descobrira Kokonui, era um enigma. Um ex-presidiário e atual fugitivo da polícia, ele se provara incrivelmente eficiente. Manjiro agora entendia como ele sempre conseguiu o que queria dentro da prisão, fosse por sexo ou coerção. Koko investigou seu passado a fundo antes de permitir que ele os ajudasse. Arthur era um americano que chegara ao Japão na infância, se envolvendo com as pessoas erradas na adolescência e acabando preso por tráfico de entorpecentes. Ele não era violento, mas era tão bom no que fazia que apenas uma penitenciária de segurança máxima conseguiu segurá-lo por mais de três anos.
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Egoístas
Fiksi PenggemarSanzu Haruchiyo não era alguém normal, ou pelo menos era o que as pessoas que o conheciam diziam sobre ele. Violento, impulsivo e vice-presidente da gangue mais poderosa do Japão, Sanzu era um monstro do submundo de Tóquio guiado pela coleira por Ma...
