Capítulo 62

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A boate parecia ter perdido todo o charme luxuoso que carregava nas noites comuns. As luzes de neon piscavam de forma irregular, como se até a energia elétrica tivesse sido contaminada pelo caos da Bonten. No escritório, o ar era pesado, abafado pelo cheiro de álcool, fumaça e suor - e agora, o ácido amargo do vômito.

A primeira coisa que Sanzu fez ao entrar foi se curvar sobre a lata de lixo de metal e expelir tudo o que havia em seu estômago. O som ecoou áspero, enojando os outros, mas ninguém ousou interromper. Seu corpo tremia, as mãos agarrando as bordas da lata, enquanto a respiração vinha em soluços trêmulos.

— Merda… — Kokonui murmurou, passando a mão no rosto. — Ele vai nos matar junto com ele desse jeito…

O Haruchiyo ergueu o rosto. Seus olhos estavam vermelhos e marejados, a boca suja de bile. Ele chorava sem pudor, o choro de um homem que havia perdido tudo o que um dia lhe foi valioso, como um garotinho desamparado.

— O Mikey… — soluçou, batendo a cabeça contra a parede atrás de si. — Ele morreu… morreu em meio às chamas… eu… eu devia estar com ele.

Angel se aproximou, ainda trêmulo das emoções daquela noite, a voz falhando:

— Você precisa tirar isso, agora! — Apontou para os explosivos amarrados ao corpo dele. — Quer explodir a porra da boate junto com a gente?!

— Sanzu! — Kokonui se adiantou, o desespero transformando-se em raiva. — Você enlouqueceu?! Amarrar explosivos no corpo e desafiar todo o submundo?! Você decretou a sentença de morte de todos nós!

— Ele… ele morreu… — Sanzu murmurava, abraçando os próprios joelhos, o corpo encolhido no canto como uma criança perdida. — Talvez… talvez eu devesse morrer também…

Hirose deixou-se cair no sofá, cobrindo o rosto com as mãos.

— Estamos fodidos… completamente fodidos… — sussurrou, a voz abafada. — Isso tudo é um pesadelo.

Sanzu continuava a balbuciar, como se não ouvisse nada além da própria dor:

— Meu Mikey se foi… Mikey… eu… eu não posso viver sem ele, não posso…

Foi então que Kokonui, sem suportar mais, fez o impensável. Avançou até ele e estapeou o rosto de Sanzu com força, o som seco reverberando pelo escritório. Segurou-o pela gola do terno, puxando-o para cima, com os olhos cheios de fúria.

— Olha pra mim, caralho! — Kokonui gritou. — Você não tem o direito de nos arrastar pro buraco só porque não aguenta a própria dor! Você acabou de declarar guerra a todos os filhos da puta do submundo pelo trono de um homem que está morto! Nossas vidas estão nas suas mãos, Sanzu, e você deve a porra da sua lucidez a nós!

O olhar do Haruchiyo estava vidrado, perdido, ainda borrado de lágrimas. Ele se soltou do aperto de Koko com um movimento brusco, mas não teve forças para responder. Sua boca se abria e fechava sem som, quando a porta do escritório se escancarou.

Rindou Haitani entrou ofegante, os cabelos lilases colados na testa de suor.

— Preciso falar com vocês, agora! — Arfou. — Meus homens viram o Mikey deixando a sede de Kyoto. O lugar estava em chamas… e Kakucho e Shiro… estão mortos.

O silêncio foi instantâneo.

— Tem certeza do que está dizendo? — Kokonui perguntou, a voz falhando.

— Absoluta. — Rindou confirmou, olhando em volta confuso. — Mas que diabos… por que estão com essas caras?

Ele então voltou-se para Sanzu, que estava sentado no chão, estático.

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