Mikey não deveria estar ali. Não tinha o direito.
Mas, ainda assim, estava.
O quarto de hospital era silencioso e excessivamente limpo, um luxo discreto envolto em brancura. As paredes, em tom de creme, refletiam a luz suave que vinha de uma luminária presa à cabeceira. Havia uma janela larga coberta por cortinas translúcidas, que deixavam passar um brilho frio de luar artificial — o hospital ficava no centro da cidade, cercado por néon e arranha-céus. O ar cheirava a desinfetante e lavanda, uma tentativa falha de mascarar o cheiro metálico de medicamentos. Ao lado da cama, um arranjo de flores murchas se misturava a alguns cartões deixados por antigos visitantes.
Era o melhor quarto que a Bonten poderia pagar sem levantar suspeitas desnecessárias — confortável, moderno, silencioso. Perfeito para esconder um homem à beira da morte.
Draken estava imóvel sob os lençóis, o peito subindo e descendo em ritmo constante graças às máquinas. A cabeça dele estava envolta em faixas brancas, cobrindo parcialmente o rosto. Um monitor exibia linhas verdes e números em sequência, o som do bip constante preenchendo o vazio.
Kokonui havia sido o responsável por “mover os pauzinhos” e conseguir a autorização especial. Sem ele, Mikey jamais teria entrado.
Ken Ryoguji estava em coma desde a noite em que Sanzu o torturou — tudo para arrancar informações sobre Mikey, quando este desapareceu do mapa. E agora, parado diante do corpo do ex melhor amigo, o Sano se sentia pequeno. Um traço de humanidade esquecido dentro de si ainda pulsava, fraco, mas vivo.
Ele se aproximou da cama, as mãos nos bolsos do casaco escuro, o olhar fixo no rosto sereno de Draken.
— Você sempre foi teimoso pra caramba… — murmurou, a voz baixa e rouca. — Poderia ter mentido para ele. Acha que eu não sei que você só aguentou tudo isso por minha causa?
O silêncio respondeu.
Mikey riu, um som curto e sem alegria.
— Ainda assim, eu nunca mereci a sua amizade. De um jeito ou de outro, a culpa é minha por você acabar nesse estado.
Ele passou a mão pelos cabelos negros, desviando o olhar.
— Eu… senti sua falta, Ken-chin. Nunca houve sequer um dia em que eu não me lembrasse de você.
Por um instante, sua voz vacilou. Ele tragou o ar, engolindo o nó que ameaçava subir à garganta.
— Sinto saudade de quando a gente só queria andar de moto e proteger o que era nosso.
Um riso fraco escapou, trêmulo.
— Emma iria nos matar se visse a gente agora.
Ele tirou do bolso um pequeno urso de pelúcia gasto, de cor amarelada, um dos antigos brinquedos de Emma. O colocou sobre a mesinha ao lado da cama, junto a uma carta dobrada cuidadosamente. Aquelas seriam suas últimas palavras para o amigo, se ele acordasse para lê-las um dia.
Ajeitou a máscara preta sobre o rosto e se inclinou levemente sobre o corpo imóvel.
— Cuida dela, onde quer que esteja… — sussurrou. — E me perdoa por não ter cuidado de você.
Virou-se, respirando fundo, preparando-se para sair. Mas, antes que alcançasse a porta, o som do trinco o fez congelar. A porta se abriu devagar. Um homem entrou, vestindo um moletom simples, o cabelo escuro e encaracolado um pouco desalinhado.
O tempo pareceu congelar por um segundo.
Takemichi estacou, surpreso ao ver um estranho mascarado parado no quarto. Ele carregava flores frescas nas mãos, provavelmente ele era o fiel responsável por trocá-las quando possível.
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Egoístas
FanfictionSanzu Haruchiyo não era alguém normal, ou pelo menos era o que as pessoas que o conheciam diziam sobre ele. Violento, impulsivo e vice-presidente da gangue mais poderosa do Japão, Sanzu era um monstro do submundo de Tóquio guiado pela coleira por Ma...
