Capítulo 61

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Oi gente, desculpem a demora eu estava apresentando meu TCC, mas agora que fui aprovada (ainda bem!) e não estou mais louca de ansiedade, eu pude voltar para continuar essa história.

Aproveitem!

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O carro deslizou pelas avenidas iluminadas como uma fera enjaulada, refletindo as luzes coloridas que sangravam para dentro dos vidros escuros. Sanzu estava afundado no banco de trás, os olhos semicerrados, o rosto imóvel, mas a mente gritava como um hospício em chamas. Festas nunca foram do seu agrado. Pior ainda: festas que exigiam dele uma postura de liderança. Era como vestir uma pele que não lhe pertencia.

O título de presidente da Bonten lhe caía mal - como uma coroa de ferro enferrujado. Quando Mikey estava no comando, Sanzu podia se dar ao luxo de ser inconsequente. Podia rir, provocar, se perder nas vozes da sua cabeça, porque sempre havia alguém para corrigir as ruínas que ele deixava no caminho. Agora não. Agora, sem Mikey, ele era um barco sem bússola no meio de uma tempestade. O leme estava em suas mãos, mas o mar não obedecia.

Ao lado dele, no mesmo banco, Kokonui parecia um homem em processo de falência física. O suor manchava discretamente a gola do terno preto, e seu peito subia e descia como se respirasse por aparelhos invisíveis. As mãos, escondidas sobre as coxas, estavam cerradas demais. Ele não falava, mas a tensão era audível no som seco de sua garganta engolindo saliva.

No carro seguinte vinham Hirose e Angel, igualmente aflitos. Eles não precisavam dizer nada para Sanzu saber - o medo de todos era mais que evidente, quase sólido, preenchendo o espaço entre eles.

O plano parecia simples: Sanzu se apresentaria como o novo líder da Bonten diante das outras organizações do submundo. Simples no papel, mas cada vez que ele pensava nisso, a náusea lhe subia pela garganta como ácido. A ansiedade era um nó apertado demais no estômago.

O Haruchiyo estava apavorado.

Ele sabia o motivo. Mikey não estava ali. Mikey não voltaria. E ainda que Rindou o encontrasse, o próprio Sano não o perdoaria - não depois daquelas semanas, naquele quarto de boate, onde tudo que foi reprimido por anos transbordou. Culpa? Ele sentia. Arrependimento? Nunca. Aquela vingança mesquinha foi o único bálsamo que sua mente quebrada conheceu. O problema é que o Sanzu do futuro teria que carregar as consequências no lugar do Sanzu do passado.

Ele ainda alimentava uma esperança idiota: a de um dia não sentir falta. De esquecer. De perdoar Mikey de verdade. Mas esse dia parecia uma miragem no deserto. Longe, inalcançável.

O prédio para onde os carros se dirigiam, no entanto, não estava longe. Estava cada vez mais próximo. Um monólito de vidro e concreto erguido no coração da zona de entretenimento da cidade, banhado por letreiros luminosos e fachadas eletrônicas. As luzes refletiam nas poças da calçada, criando a ilusão de que o mundo inteiro estava submerso em neon.

Era bonito. Era imponente. E, ao mesmo tempo, carregava uma promessa silenciosa de perigo. Ali dentro, homens que valiam fortunas se reuniam. Gente que poderia decretar a morte de qualquer um com uma única palavra. Mas, paradoxalmente, o clima era tranquilo. Ninguém vinha ali para começar uma guerra. O salão daquele prédio era um campo neutro - uma arena sagrada do submundo, onde alianças eram feitas, traições eram planejadas em silêncio, mas jamais consumadas às claras.

Sanzu respirou fundo. A porta do carro se abriu. A música abafada e as vozes do salão chegaram até ele como um sopro quente. Ele estava prestes a pisar em um palco onde não podia errar.

Mas tudo dentro dele gritava para correr.

O salão era uma caverna dourada de excessos. Lustres de cristal pendiam do teto, espalhando reflexos fragmentados de luz pelo mármore negro do chão. As paredes eram forradas de espelhos e painéis eletrônicos que exibiam imagens abstratas em vermelho e azul, como se o espaço respirasse em cores. O cheiro era uma mistura de uísque caro, charutos cubanos e perfume enjoativo - tudo embalado pelo som abafado de jazz moderno que escapava de uma banda discreta no canto.

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