Kokonui não se deu ao trabalho de se mover. O jarro de cristal passou zunindo, cortando o ar com um assobio traiçoeiro antes de explodir na parede atrás dele. Os estilhaços caíram como chuva em câmera lenta, tilintando no chão de mármore. Ele piscou devagar, um leve sorriso curvando os lábios - irritantemente calmo.
— Você errou — disse, com aquela voz gelada que fazia Inui querer socá-lo até esquecer o próprio nome.
Inui estava vermelho, o peito arfando, os punhos cerrados. As veias no pescoço saltavam como cordas tensionadas.
— Eu mirei bem. — Sua voz saiu rouca, carregada de fúria. — Foi você que teve sorte, desgraçado.
Koko, sentado em uma das poltronas do quarto, cruzou as pernas com a elegância de quem estava em uma reunião de negócios, não num cárcere disfarçado de suíte de luxo.
— Sorte? Eu chamo de reflexos superiores — retrucou, dando de ombros. — E antes que tente outro arremesso, te lembro que esse era o último jarro decente do quarto.
— Eu não quero seus jarros, Koko! — Gritou Inui, a voz quebrando num misto de raiva e desespero. — Eu quero minha vida de volta!
O sorriso sumiu do rosto de Kokonui. Ele se recostou na poltrona, o olhar afiado.
— Sua vida? — Soltou uma risada seca. — Você quer dizer aquela em que andava por aí fingindo que o mundo não é um buraco cheio de rato e pólvora? Aquela em que o Draken ainda respirava sem tubos enfiados no corpo?
— Cala a boca! — Inui avançou um passo, os olhos marejados e ferozes. — Você não tem o direito de falar dele!
Kokonui não se mexeu, sequer piscou.
— Tenho, sim. Porque eu ainda tô aqui, tentando manter esse circo de pé enquanto o Sanzu brinca de deus e a cidade arde.
— Você ajudou ele! — Cuspiu. — Você ficou parado, vendo o Draken ser espancado até o sangue virar uma poça, e não fez nada! O Sanzu quase partiu a cabeça dele ao meio, caralho!
Por um instante, o silêncio pareceu sufocante demais. Koko desviou o olhar, os dedos tamborilando no braço da poltrona. Havia algo em seu semblante - um lampejo de culpa, talvez -, mas passou rápido demais para que Inui tivesse certeza.
— Às vezes, sobreviver é o que dá pra fazer — murmurou Kokonui, quase num sussurro.
— Sobreviver? — Inui riu, uma risada amarga, quase histérica. — Você chama isso de sobreviver? Me prender aqui, feito um cachorro? Me vigiar, me controlar, me deixar apodrecer?
Kokonui levantou o olhar, firme.
— Eu te mantive vivo. É mais do que o Sanzu faria.
— E isso te faz o herói da história, é? — Inui deu outro passo à frente, encarando-o com raiva pura. — Não me venha com esse papo de mártir, Kokonui. Você é tão sujo quanto ele.
— Estou fazendo tudo o que posso para te manter a salvo.
Os dois ficaram ali, imóveis, a atmosfera pesada o bastante pra cortar com uma faca. O som distante da boate - música abafada, risadas e o ronco dos geradores - parecia zombar deles, lembrando que o mundo lá fora seguia girando enquanto eles se matavam lentamente naquele quarto.
Kokonui voltou a falar, devagar:
— Se eu te soltar, Inui, o que vai fazer? Correr pra fora e entregar a cabeça pro primeiro idiota que quiser acabar com a Bonten? Eles vão te torturar por informações e te matar logo depois. Não me diga que é inocente ao ponto de acreditar que pode voltar a ter a vida de antes.
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Egoístas
FanfictionSanzu Haruchiyo não era alguém normal, ou pelo menos era o que as pessoas que o conheciam diziam sobre ele. Violento, impulsivo e vice-presidente da gangue mais poderosa do Japão, Sanzu era um monstro do submundo de Tóquio guiado pela coleira por Ma...
