No início os dias passavam lentamente, como se o relógio estivesse quebrado, como se o tempo fosse um mero detalhe da existência em um universo infinito que não dava a mínima para ele.
Mikey sofreu muito com a abstinência.
Ele não se reconhecia, teve incidentes de psicose e trancou-se no quarto alugado para não ir atrás de drogas nas ruas. Porém, apesar de sua determinação, em alguns momentos o desespero foi tamanho que ele saltou da janela, quase quebrando uma perna, para conseguir comprar algumas gramas de cocaína com um traficante local. Ainda assim, ele lutou bravamente e os episódios de compulsão foram amenizando.
Dois meses depois, ele já conseguia ficar um dia inteiro sem pensar em se dopar ou tirar a própria vida, em três conseguiu economizar o dinheiro que havia trazido consigo em sua fuga para alugar um pequeno apartamento no subúrbio, e hoje - quatro meses depois - ele era capaz de se sentir uma pessoa de novo.
Mikey não suportava sentir o próprio cheiro, nem se olhar no espelho por muito tempo. Quando dormia os pesadelos lhe faziam companhia, olhar as singelas cicatrizes que Sanzu deixou em sua pele o fazia se arrepiar por inteiro. Ele havia tentado não pensar no Haruchiyo, na forma como o abandonou como um covarde depois de tudo pelo o que tinham passado juntos, mas foi difícil não compará-lo com aqueles com quem dormiu naquelas semanas.
Era bom, mas só isso.
Desde criança ele nunca havia visto nada demais em sexo ou relacionamentos, seus amigos ficavam loucos com revistas pornográficas e namoros na adolescência. Mas Manjiro só queria brincar, sair com Draken e fazer a Toman crescer. Ele só começou a ter pensamentos românticos quando conheceu Takemichi, muito porque o idealizava como alguém que o protegeria do seu lado mais sombrio. Infelizmente, isso não foi possível. Não ter aquele que desejava o fez se tornar extremamente obsessivo e cruel, se torturando mentalmente por anos, por isso fez questão de demonstrar desprezo a Sanzu - que sofria do mesmo mal que ele.
Seu reflexo o encarava sob a pia do banheiro, seu olhar negro como obsidiana fazendo o ambiente gravitar ao seu redor. Seus olhos eram estranhos, não apenas pela cor, mas pela disposição da íris um pouco acima do comum, deixando-o com cara de peixe-morto. Emma havia dito uma vez - um tanto supersticiosa - que Mikey tinha olhos Sanpaku Yin: quando o branco do olho é visível abaixo da íris, indicando uma pessoa mais vulnerável a acidentes. Sendo frequentemente associados a um desequilíbrio espiritual ou psicológico, e a pessoas que estão sujeitas a infortúnios e tragédias.
Bem, ele poderia dizer que sua irmã caçula estava certa. Afinal, sua vida inteira foi uma grande tragédia.
Sanzu também tinha os mesmos olhos…
Ele desviou o rosto do espelho e foi para o boxe, onde enfiou a cabeça debaixo do chuveiro. A água fria o fazia ter a percepção de que estava se limpando de verdade, mesmo que suas costas ardessem e quase formasse uma camada de gelo. O inverno estava próximo, e logo aqueles banhos seriam impossíveis - essa perspectiva o incomodava demais, pois tinha a impressão de que a água quente não o livraria daquele cheiro.
O cheiro… Ele não conseguia se livrar do fedor daquele quarto na boate há meses. Isso já havia lhe gerado gatilhos fortíssimos. Lembrar que havia rastejando de joelhos no chão, das correntes o prendendo, do estupor das drogas e o aroma rançoso de sangue. O Sano não conseguia encarar o fato de que havia dado permissão para que Sanzu fizesse aquilo, em uma prática de CNC - consentimento não consentido.
Onde ele estava com a cabeça?!
Sendo bem honesto, ele não imaginou que fosse se sentir tão mal depois, que se arrependeria de deixar o Haruchiyo se vingar. Ele achou que ficaria bem, apenas com um pouco do orgulho ferido, mas ciente de que ainda tinha o outro preso pelo cabresto como um cavalo bem domado. Todavia, alguma coisa havia se partido em seu coração. No princípio ele achou que, por ter se permitido virar um boneco sem escolhas, ele tinha rompido o elo com o que restava de seu “Eu mais humano”. Que surpresa infeliz, descobrir pouco depois, que havia acabado de assassinar a criança que um dia foi.
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Egoístas
FanfictionSanzu Haruchiyo não era alguém normal, ou pelo menos era o que as pessoas que o conheciam diziam sobre ele. Violento, impulsivo e vice-presidente da gangue mais poderosa do Japão, Sanzu era um monstro do submundo de Tóquio guiado pela coleira por Ma...
