Capítulo 60

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Notas da autora:

Não sei qual vai ser a reação de vocês a esse capítulo (confesso que estou curiosa kkkkk). Mas saibam: o Mikey sempre foi uma vadia má.

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O cheiro de cigarro velho impregnava o carpete. O relógio digital na parede piscava com falhas intermitentes, como se o tempo hesitasse em prosseguir. Kakucho, com a camisa aberta no peito e os nós dos dedos apertados, se moveu lentamente na poltrona de couro.

Hanma havia saído mais cedo do que ele, para a reunião com os grandões do submundo naquela noite, levando parte do contingente rebelde da Bonten. Kakucho aguardava por Shiro para que partissem, seu ajudante enérgico e pouco eficiente ainda não havia dado as caras. E ele já estava desistindo de esperar.

Ele puxou a corrente de prata em volta do pescoço — presente antigo de Izana, que ele ainda usava por impulso masoquista. Às vezes sentia tanta falta dele que poderia se desintegrar, seco e sem lágrimas. Perder a família quando criança o tornou dependente do garoto problemático que conheceu no orfanato. Apesar de Izana não ser um exemplo bom de pessoa - visto que era egocêntrico, violento, manipulador e possessivo ao extremo -, Kakucho o admirava. O amava.

Mikey nunca havia entendido seu irmão de verdade, ele não foi capaz de ver Izana como algo além de um problema. Tudo bem que Kakucho não deveria culpá-lo por isso, pois Emma foi assassinada, a família Sano foi destruída. E parte disso foi causado por Izana.

Ele estava nostálgico desde que se exilou em Kyoto - após ser expulso de Tóquio como um cachorro rejeitado. Havia momentos em que tinha vontade de visitar Yokohama, relembrar do tempo em que a Tenjiku comandava a cidade, encabeçada por Izana e ele. Mas Kakucho não se atrevia, se arriscasse um passo fora dos limites de Kyoto seria caçado como um animal pela principal divisão da Bonten, sob a gerência de um tal Hirose. Apenas em ocasiões como a desta noite, em que líderes se reuniam em um território neutro de Tóquio, que ele poderia aparecer sem medo. Embora, reencontrar Mikey e Sanzu, o infle de pavor e raiva.

A cabeça tombou para trás. Na penumbra, os traços do rosto de Izana ainda o visitavam. Não importava quantos anos se passassem, ou quantas bocas ele tivesse beijado desde então. Ele ainda o via — nos contornos dos estranhos, nos olhos de garotos perdidos, na frieza de líderes que prometiam revolução.

Principalmente em Mikey.

Ele mordeu a parte interna da bochecha até sangrar. A dor o mantinha desperto. Era melhor do que os sonhos. Sonhos onde Izana sorria como se ainda estivesse vivo. Onde o tocava, onde dizia coisas que nunca teve tempo — ou coragem — de dizer. Se ele estivesse ali jamais teria sido encantado por Manjiro. Quantos rostos ele colou sobre aquele corpo tentando encontrar o mesmo perfume de loucura e perda que Izana deixava? Quantas vezes se iludiu entre gemidos vazios, apenas para acordar e perceber que ainda estava sozinho?

Mikey não era você. Ele só... fingia melhor.

A relação com Manjiro tinha sido outra forma de punição. Um vício em poder, em destruição compartilhada. Mikey era silêncio onde Izana era tempestade. Mas os dois sabiam como usá-lo. Como moldá-lo, como prendê-lo em lealdade, como fazer seu coração doer e ainda assim bater por eles.

Kakucho cerrou os punhos. O que era amar alguém que nunca te pediu isso? Que só sabia quebrar? As marcas do passado estavam por todo lado. Algumas feitas por inimigos. Outras por aliados. As mais profundas, no entanto, tinham a assinatura de Izana — e de Mikey.

A serenidade do exílio o incomodava mais do que os gritos de Manjiro durante as brigas que tiveram. Era um silêncio vivo. Cortante. Como os olhos de Sanzu rindo por trás daquele cabelo rosa desbotado. Como o momento em que o Sano, com toda a sua apatia patológica, escolheu ele.

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