Capítulo 58

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O escritório estava silencioso, exceto pelo som rouco da respiração de Mikey. Kokonui não conseguia desviar o olhar, mas cada detalhe que notava o enchia de um horror crescente. O presidente — outrora um furacão de violência — agora parecia um cadáver ambulante. Suas roupas largas, negras como luto, penduravam-se em um corpo que mais se assemelhava a um esboço macabro: ossos salientes sob a pele translúcida, olheiras roxas que sugavam qualquer vestígio de humanidade, lábios rachados de desidratação. Quando Mikey estendeu a mão para desligar o computador, seus dedos tremiam como folhas sob o vento da abstinência. 

"Duas horas de trabalho", pensou Kokonui, "e ele mal consegue ficar sentado." 

Angel, ao seu lado, parecia igualmente perturbado. O ex-detento — que outrora vira o Sano esmagar crânios como cascas de ovos — agora encarava um espectro. Ninguém explicara a ele o que aconteceu nas duas semanas em que Mikey desaparecera, mas os fragmentos eram suficientes, Hirose voltara de um encontro com Sanzu branco como papel, recusando-se a pronunciar o nome do homem. Kokonui sabia mais. Sabia demais.  

Angel recolheu os documentos sob a mesa e saiu, deixando-os a sós. A quietude era opressora. Manjiro puxava o ar com dificuldade, cada inspiração um sacrifício. Kokonui observou as marcas que as roupas não escondiam: hematomas em formas de dedos no pescoço, cortes cicatrizando mal nos pulsos, a maneira como ele mancava ao se levantar — como se algo dentro dele estivesse quebrado além de ossos.  

A lembrança do que ouvira através das paredes naquelas semanas invadiu sua mente - gemidos cortados por gritos abafados, o som de correntes, a voz de Sanzu cantarolando uma música doce enquanto algo “estalava”. Koko fechou os olhos por um segundo, tentando apagar a imagem de Mikey saindo do quarto na manhã anterior com o olhar caído, as roupas ensopadas de suor e com cheiro de vômito, caminhando como se esperasse a cada passo que o chão o engolisse.  

— Como você está? — Kokonui perguntou. Era uma indagação tola, já que ele teve o desprazer de ver o estado de seu chefe sob aquela cama, quando foi exigir que Sanzu o libertasse.

Mikey não olhou para ele. 

— Fui eu que aceitei. 

— Isso não é resposta. — Koko engoliu o ácido que subia pela garganta. — O que ele fez… - suspirou. - Eu mato ele por você. Me peça e eu o farei.

Pela primeira vez em dias, o Sano riu. Um som baixo, sem vida. 

— E depois? Você acha que isso apaga o que eu deixei ele fazer? — Seus olhos estavam opacos. — Eu sempre vou me lembrar… E-Eu precisava.

Kokonui quase cuspiu. Precisava? De ser amarrado, drogado até a inconsciência, de ter seu corpo usado como tela para as fantasias doentias de Sanzu? Ele queria gritar o quanto aquilo era absurdo! Mas ele viu então o que realmente estava por trás daquela submissão: a culpa. Manjiro não estava apenas sofrendo — ele “merecia” sofrer. E o Haruchiyo, o algoz que amava com devoção profana, fora mais que feliz em fornecer o castigo. 

Ran tinha razão. Era impossível e ridículo esperar sensatez daqueles dois. Quando Mikey foi preso e Sanzu tomou a frente da organização, Koko percebeu como pareciam ter evoluído - mais responsáveis, estáveis e com os pés no chão prontos para resolver os problemas.

Eu fui muito burro? Questionou-se ao longo daquelas semanas inteiras, ninguém tinha humor para nada. Ran e Rindou o encaravam todos os dias quando se encontravam, eles não precisavam falar sequer uma palavra para a mensagem ser entendida. Senju agora mal olhava para o irmão que, irritável como um vulcão, não os tranquilizava nem um pouco.

A porta se abriu. O Haruchiyo entrou, e o ar no escritório poderia ter gerado estalactites de gelo no teto. 

Mikey não gritou, não correu. Apenas encolheu-se, quase imperceptivelmente, como um animal que espera o golpe. Sanzu sorriu — um sorriso que não chegava aos olhos, agora duas crateras de escuridão. Ele estava pior também: movimentos espasmódicos, unhas roídas até sangrar, o cheiro de metal e algo químico impregnado em sua pele. 

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