Eu não sei explicar qual é o sentimento de ser deixado. Não, eu não. Eu não sei descrever, apenas sentir. 

É algo familiar.

Para mim e para Thales também. 

Ele saiu andando pela rua após a discussão com Elise como se nada tivesse acontecido, como se estivesse tudo bem. Mas ele olhou para trás, voltou e se despediu de mim. 

- Eu vou ir lá, maninha. - a voz branda e serena. 

Thales usa sua energia máxima para atingir a plenitude. Ele nunca transborda, ele nunca parece sangrar, mesmo que a hemorragia esteja o matando por dentro. Thales, muito embora não pareça, está exausto. 

O ruim de ser uma pessoa assim é que ninguém te pergunta como está, ninguém te oferece um abraço, mas todos estão ali para te julgar. 

Mas eu o abraço. 

- Eu sei. - eu digo. 

- Eu também. - ele devolve e em respirações, leve, profundas, intensas e tranquilas, nos confortamos. Nós dois sabemos o inferno na qual vivemos.

Ninguém nunca entendeu o porque de darmos bem, exemplos de irmãos, dizem. Maura pariu dois capetinhas, dizem também. Mas ninguém nos perguntou a profundidade de nossos rios.

Ninguém perguntou quanto sangue jorrou. 

Ninguém viveu a nossa solidão. 

Ninguém nos viu renascer. Nem lutar. Nem tentar. Apenas, aparentemente, vencer.

- Eu vou lá. Já deu para mim. - ele me solta. Em seus olhos eu vi o caos completo. 

Ele coloca a mão no bolso da calça cargo num tom de marrom claro e pega um cigarro, coloca na boca, acende e volta a andar pela rua a fora. 

- Seu irmão não está legal. - Bianca c
Comenta se sentando na calçada da rua. E em um suspiro, completa; - Eu também não!

- O que houve?

- A vida... ela acontece. 

Me sento ao seu lado e ficamos as duas ali durante um tempo sem trocar uma palavra.  Mas não durou tanto já que um dos funcionários do bar nos pediu para entrar, e se não quiséssemos ficar que fossemos embora após pagar a conta. 

Pelo fato do funcionário ter sido grosso e nós já sensíveis demais, decidimos ir embora. Passamos em uma adega, compramos alguns latões e sentamos na praça feito adolescentes enquanto bebíamos em frente a adega de bebida do bairro. 

- Eu descobri que Gabriel estava de conversinha com outra, então eu saí com um cara que sempre quis. Lindo, gostoso.

- Você sempre consegue quem quer. 

- É verdade. Um sexo muito bom, me levou para jantar no Palacy, acredita? Me senti uma dondoca. - ela ri. - Então, Gabriel descobriu e discutimos. Eu disse que traí, sim. Traí gostoso e se ele quisesse ficar, fica. Se quiser ir, foda-se ele. Mas falei com o coração na mão e desde então as coisas andam estranhas. 

- Tipo?

- Ah sei lá. Estamos distantes, mas sinto que ainda estamos conectados de alguma forma. Não quero deixa-lo. Conversamos mais cedo sobre isso, sabe. Depois transamos, foi bom. Mas sexo não é prova de amor e nem garantia de permanência de ninguém. - ela dá um suspiro triste. Os olhos se enchem de lagrimas. - Eu o amo, mas quero viver. 

- E o que é viver?

- Com certeza não é essa merda toda. Eu não sei. Eu não quero jantares românticos sempre, mas eu quero uma noite das garotas em casa assistindo filmes e comendo sorvete, uma noite das garotas em um bar bebendo todas, tipo agora. Quero que alguém me busque no fim da noite. Quero um dia de risadas altas. Quero ser cuidada, não apenas cuidar. Quero cafuné no cabelo. Quero viajar. Quero... Sinto que perdi algo na minha vida sendo mãe cedo. Mas eu também amo meu filho e quero todos os dias com minha família. 

Me EsperaOnde histórias criam vida. Descubra agora