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— Ainda não acredito que te ouvi, e vim pra cá. — resmungo ofegante, enquanto Rafael e eu caminhamos pela grama da nossa rua. — O que é isso, Rafael?
— Um pouco de liberdade pra você. Ar puro, talvez? — ele brinca, colocando suas mãos por dentro de seus bolsos da calça moletom.
— E desde quando se preocupa? — pergunto seriamente, encarando ele.
— Por que não cala a boca, e aproveita o momento? — ele gargalha fofo, o que me faz arquear uma sobrancelha, que provavelmente ele não viu, já que está tão escuro.
— Tá bom, sequestrador de pirralhinhas! — debocho.
— Você é muito chata, sabia? — ele para e tira as mãos de seus bolsos, exclamando.
— Claro que sabia... — vou até ele devagar, aproximando nossos rostos e fazendo um suspense. — É por isso que você me adora! — puxo ele pelo punho e nós corremos atrapalhadamente pela rua escura, iluminada apenas pelos postes amarelos.
Pensei que ele fosse separar nossas mãos – agora entrelaçadas – e gritar comigo, mas tudo o que fez foi retribuir as gargalhadas, sorrisos e corridas. Em pouco tempo, chegamos na quadra de basquete do condomínio. Ficamos perseguindo um ao outro por um longo tempo. Ouso dizer que por...horas?
Foi o maior período de tempo em que ficamos sem discutir, ou com preocupações. Pelo menos, não da minha parte. Ele estava tão pra baixo, assim como eu, no jantar e agora parece tão leve e feliz. Isso conforta o meu coração. Demais!
Isso é tão errado...mas tão certo.
Intrigas e mais intrigas preenchem os nossos dias, e de repente nos encontramos assim: felizes? Se dando bem, nem que por pouco tempo? Minha família pode estar desmoronando por conta de um segredo que o próprio Rafael está escondendo de mim, e a única coisa que eu quero é ficar de conchinha com ele em seu cobertor de super-heróis.
— Você gosta mesmo da escola? — quebro o silêncio que se inicia quando nos cansamos de correr e sentamos no chão do meio da quadra.
— Sei lá... — ele dá de ombros, após uma gargalhada baixa. — O meu pai gosta.
— Ele também gosta de agredir pessoas. — brinco.
— Ele me deu um carro, Cíntia. — Rafael me encara, com um semblante decepcionado. — Aposta tudo no próprio filho. Me sustenta. O mínimo que eu posso fazer é retribuir do jeito que ele quer.
— Mas é a sua vida! Eu não entendo. — balanço a cabeça, indignada. — Já tem dezoito anos, então por que não aproveita e vai fazer o que gosta?
— Eu não sei do que eu gosto. — ele quase me interrompe. — E mesmo se soubesse, não é tão fácil assim.
— Claro que é! — gargalho. — É só você dizer "Pai, to vazando." e sair pela porta principal, sem dar as caras pra sempre. Eu queria ter dezoito anos e coragem pra fazer algo do tipo... — solto o ar dos pulmões, rapidamente.
— Você tem coragem pra enfrentar sua mãe. Por que já não fugiu de casa? — ele pergunta, curioso.
— Porque... — encaro tímida seus olhos azuis brilhantes, enquanto penso numa resposta adequada. — Eu sou só uma pirralha, ué! Você mesmo disse. — sorrio, disfarçando.
— É uma maluca, isso sim. — ele bufa, voltando a olhar a quadra à nossa volta.
— Seu rosto já tá melhorando, né? — mudo de assunto, com a intenção de tentar fazer ele me contar sobre o motivo da agressão do pai.
— Pois é. — ele abaixa a cabeça, rapidamente. — Olha Cíntia, acho melhor a gente voltar. — ele se levanta com dificuldade.
— Já? — pergunto, com a minha decepção bem notável.
— A gente passou muito tempo aqui, e tá frio pra caralho. — ele me ajuda a levantar e sua mão gelada não me incomoda nem um pouco.
— Tá bom. — reviro os olhos, tornando a caminhar para fora da quadra, ao lado do loiro intrometido.