As férias passaram num piscar de olhos e quando me dei conta já estávamos de volta a U.A pra um novo período letivo, o último até o segundo ano do curso de heróis.
Todo mundo parecia ter aprimorado muito suas técnicas e habilidades nos estágios durante as férias e aquilo me deixou muito feliz. Ver meus amigos se tornando grandes heróis era uma coisa que me deixava orgulhosa de fazer parte daquele momento com eles.
Mas a minha felicidade se esvaiu assim que eu e o professor Aizawa fomos chamados pra ir pra sala do diretor.
Eu podia contar cada batida do meu coração enquanto eu atravessava aquele corredor infinitamente grande.
Aquilo estava me deixando impaciente e nervosa. O diretor Nezu chamar dois professores e uma aluna ao mesmo tempo só podia significar algo ruim.
Eu tinha sido descoberta. Eu tinha sido descoberta. Mil vezes essa frase se repetia na minha mente. Minha respiração pulsando ao ritmo dessas palavras.
E então eu estava na sala do diretor. Eu estava sentada em frente à sua mesa com o professor Aizawa e o Present Mic ao meu lado.
Meu coração já estava na garganta quando enfim o diretor se dirige a nós.
- Desculpe por chama-los assim tão de repente, mas as investigações da Polícia sobre a Liga levaram à conclusão de que vocês três podem ajudar.
- Me desculpa diretor, mas do que exatamente isso se trata?- pergunta Mic e o meu coração para de bater um segundo enquanto eu espero a resposta.
- Como vocês devem saber, recentemente eles conseguiram capturar o vilão conhecido como Kuroguiri- ele prossegue e eu então percebo que eu podia estar exagerando.
- Achei que não estivessem conseguindo extrair nenhuma informação dele - comenta Aizawa, meio desinteressado.
- Até agora - concorda o diretor- As pesquisas levaram à conclusão de que ele não responde por não conseguir faze-lo. Afinal, ele é uma espécie de Nomu aprimorado.
O meu último resquício de esperança desapareceu com aquilo.
Me levanto de repente e cerro os punhos.
- Diretor você não pode estar dizendo que o Kuroguiri é...?- começo a dizer e engulo em seco com dificuldade - Que na verdade a real identidade dele é....?
Ele baixa o olhar e suspira.
- Receio que seu raciocínio esteja certo, senhorita Shirakumo.
Aizawa se levanta também é por uma mão em meu ombro.
- Ainda não entendi o que está insinuando.
Olho dele pro diretor e sinto a vertigem tomar conta de mim e embaçar minha visão. Abro a boca pra falar nem percebendo que estava fazendo isso antes de eu ouvir o som da minha voz.
- Ele está querendo dizer que a verdadeira identidade do Kuroguiri, na forma humana, é Oboro Shirakumo.
Um silêncio pesado caiu sobre nós três. Aquele momento de tensão pareceu perdurar por muito tempo, assolando cada célula do meu corpo.
- Isso não pode ser mesmo verdade - disse Mic, finalmente, batendo na mesa com força- Qual a prova de que é mesmo ele?!
- Imaginei que fosse algo difícil de se acreditar, por isso irei liberar os três para auxiliar os policiais - Ele explica.
Ninguém responde. Eu sentia que uma bola de boliche entupida a minha garganta.
- Vamos- dos o professor Aizawa me guiando para a porta e puxando Mic pelo braço- Vamos entender isso direito.
Quatro paredes brancas. Uma mesa de metal e três cadeiras de frente pra ela. Uma parede de vidro separando a outra extremidade da sala. Do outro lado, um dos vilões mais perigosos do país adormecido e preso por uma camisa de força.
A viagem até a prisao do Tartarus pareceu demorar uma eternidade e aquilo ainda não parecia real.
Nós três fomos instruídos a tentar despertar meu irmão dentro daquela coisa assustadora. Mas tudo o que eu queria agora, era esmurrar aquele vidro.
Eu não conseguia acreditar no quanto eu fui feita de besta. No quanto eu tinha colocado meus amigos em perigo.
E no quanto ele deve ter sofrido pra estar naquele estado agora.
Eu me sentei e fiquei olhando a fumaça tremeluzir e os olhos amarelos se abrirem dentro dela. Era difícil de imaginar que aquela coisa um dia já tinha sido meu irmão.
- Acho que nós nos metemos em um baita mau entendido, hein?- diz Mic se inclinando na cadeira- Nem ferrando esse cara é o Shirakumo.
E aquela coisa respondeu. Aquela voz entrou pelos meus ouvidos e simplesmente não foi absorvida pelo meu cérebro. Eu não conseguia tirar significado algum daquilo.
Meu sistema nervoso se recusava a reconhecer aquela voz como sendo a do meu irmão.
- Onde já se viu ficar atrás de um cara depressivo daquele!- continua Mic, mas então a entonação de sua voz some e ele para pra olhar pra Aizawa do outro lado - Eh, foi mau aí.
Eu não conseguia prestar atenção no que eles estavam dizendo. Tudo o que ambos ao meu lado falavam era a visão que eu tinha do Oboro: um cara alegre, que nunca desiste de nada, que cuida das pessoas. O completo oposto do Nomu à nossa frente.
- Oboro Shirakumo!- de repente nós três dizendo, e eu enfim me levanto e crio coragem pra abandonar o vazio da minha mente e tentar falar com aquela coisa.
Me aproximo e ponho uma mão no vidro.
- Oboro - falo, me esforçando pra segurar as lágrimas- Se você estiver aí mesmo, por favor, me responde !
Silêncio.
- Eu sinto muito! Não devia ter te culpado por isso! Você é a última pessoa no mundo que tem culpa de alguma coisa!
Cerro a outra mão e tento me concentrar na consciência do meu irmão. Naquela energia que eu não tentava chamar fazia muito tempo.
- Oboro- continuo - Eu te amo irmão, mesmo nunca tendo a chance de te dar um abraço ou de te dizer isso. E ainda assim você nunca me abandonou, então, por favor, não me deixe sozinha agora!
Fecho os olhos e encosto a cabeça no vidro frio. Tão frio.
- Estou com você agora. Nós três estamos- engulo em seco e minha voz parece reverberar naquela sala - Por favor, esteja com a gente também.
E então aquela fumaça roxa falha, começa a tremer e a se expandir e se retrair várias vezes, rapidamente. E então, em meio aquele turbilhão roxo, surge a metade do rosto de um garoto de cabelos azuis, mas com os olhos completamente brancos, a expressão congelada em uma careta de horror.
Então o tempo para pra mim. Aquela imagem congela e à minha frente aparece o meu irmão, como eu o via na forma de fantasma, sorrindo pra mim. A mão encostada à minha do outro lado do vidro.
- Você é muito corajosa, Anie- ele diz - E eu é que devo desculpas. Dentro desse corpo eu...- ele aponta com a cabeça pra trás- eu não tenho voz. É como se eu estivesse já programado pra fazer o que eu fiz.
Minha mão treme e minha visão se embaça com as lágrimas. Não consigo abrir a boca pra falar de forma coerente.
- Eu acho que não tenho muito mais tempo mas...- a mão dele atravessa o vidro e entrelaça os dedos nos meus - eu adoraria estar com vocês de novo. E ajudar a concertar a besteira em que eu meti vocês.
Então eu pisco confusa.
- Oboro o que você...?
- Escuta - Ele interrompe e assume uma expressão mais séria- a Liga está planejando um ataque mais cedo do que vocês pensam. Vocês têm que destruir a base da força deles antes que seja tarde.
- Destruir o que exatamente?- pergunto, tentando juntar as peças, mas simplesmente não conseguindo achar sentido naquilo.
- Tem outra fábrica de Nomus, a original no caso - Ele diz- Vão pra lá e salvem o dia. É o que vocês fazem de melhor. Ela fica no h-hospital...
Mas ele não consegue completar a frase. Sua voz falha e ele começa a desaparecer, a fumaça roxa atrás dele se erguendo em um furacão enorme e desgovernado. Seu fantasma começa a ser puxado de volta pro seu corpo. Mesmo naqueles momentos finais, ele ainda conseguia sorrir.
- Salvem o dia, tá bom ?- ele fala, se segurando ao máximo antes de ser engolido pela névoa roxa.
O redemoinho para abruptamente e o som de um microfone soa na sala.
- Ele voltou a dormir. Vocês três já podem sair. Fizeram um ótimo trabalho.
Minhas pernas já não me sustentam mais e eu caio de joelhos no chão, a mão ainda apoiada no vidro, meu coração em disparada.
- Anami - alguém me chama, mas eu não estou interessada em sequer ouvir - Vamos, acabou.
- Não- sussurro balançando a cabeça e me permitindo ser erguida.
Até o último segundo eu continuei olhando para Kuroguiri novamente adormecido do outro lado do vidro, pensando que eu ia vingar o meu irmão por ter sido usado daquele jeito. Pensando no que tinha acontecido porque eu tinha sido descuidada. E que, se aquilo também era culpa minha, eu ia fazer de tudo pra corrigir esse erro.
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Rainha Fantasma
FanficAnami é uma estudante do primeiro ano do curso de heróis da famosa U.A. E enquanto ela tenta se tornar uma grande heroína, ela não percebe a sombra que se agiganta sobre todos. Mau ela sabe que grande parte dessa sombra, foi ela mesma quem construiu.
