Eu fiquei parada no chão, olhando junto com o Best Jeanist o Bakugo. Era como se o tempo tivesse parado pra mim. Era como se eu não estivesse rodeada por um cenário vindo do inferno. Eu só conseguia olhar pro menino loiro estirado no chão, sem acreditar que aquilo fosse possível.
- Eu vou traze-lo de volta- murmuro e pego sua mão, gelada como a morte. Literalmente. Encaro o herói profissional ao meu lado- Eu consigo fazer isso.
Best Jeanist balança a cabeça. Ele não desvia o olhar pra mim em nenhum momento.
- O coração dele parou de bater. Não tem como...
- Eu já estou morta!- grito e ele olha pra mim- Eu consegui cruzar a fronteira da morte! Eu consigo fazê-lo voltar!
- E eu posso ajuda-la- disse uma voz atrás de nós e eu vejo Edshot.
Ele estava todo arrebentado, emocional e fisicamente, mas o tom de sua voz dizia que ele estava pronto pra fazer algo que não ia ter volta.
- Você sabe que isso não vai ter volta- disse o Best Jeanist a ele- Você tem certeza...
- É por isso que eu estou te deixando no controle- o outro diz e olha pra mim- Eu vou me tornar o coração desse garoto.
Respirei fundo. Se ele conseguisse fazer o coração do Bakugo voltar a bater e eu retesse o seu espírito, talvez...
- Tá legal -disse e ignorei quaisquer palavras que o Best Jeanist me disse em seguida e adentrei o corpo do Bakugo.
Nunca tinha feito aquilo com alguém morto. Então eu não sabia o que esperar em seguida.
Como ele não estava consciente, eu me vi andando pelo que se assemelhava a uma sala escura. Pra todos os lados eu só via uma fumaça densa. Até que tive um vislumbre dos cabelos loiros espetados do Bakugo não muito longe. Ele estava em pé, olhando pra o que parecia uma poça de água.
Me aproximo dele e ele se vira pra me encarar.
- É patético- ele diz- Eu sou tremendamente patético.
Coloco uma mão em seu ombro e percebo que ele está olhando pra uma visão escassa do que se passa ao seu redor no mundo físico. Aquele espelho d'água é a representação dos três minutos de consciência que o corpo tem antes de apagar de vez.
- Não- digo, observando a luta incansável dos heróis contra o Shigaraki. A Mirko já estava praticamente desmembrada. O Best Jeanist sem energia. Tamaki e Nejire desacordados. Luna num estado tão estoico de raiva, que ela parecia estar prestes a desabar a qualquer momento. Praticamente só restava o Mirio na arena, e até ele, o cara mais otimista que eu já conheci, parecia estar perdendo a esperança.
Mas ainda assim...
- Você não é patético- reforço, e o seguro com mais força, me assegurando de que ele não iria simplesmente evaporar- Você teve coragem o suficiente pra bater de frente com o maior vilão de todos. Você é um herói formidável.
Ele balança a cabeça. Da uma risada sarcástica.
- Vem cá, porque você simplesmente não pode me deixar morrer? Porque tem que vir aqui me mostrar que eu falhei?
- Eu não disse nada disso- acrescento- E a morte não indica que você falhou. Todos nós perdemos às vezes.
- Não o herói número um- Bakugo baixa a voz- Agora está mais do que claro que eu não tenho chance nenhuma de eu me tornar esse herói número um.
Aquela frase me irritou de uma vez por todas. Tiro a mão de seu ombro, empulsiono meu braço pra trás e dou um tapa na cara dele, mesmo sabendo que não ia doer de verdade porque nenhum de nós estava vivo de verdade.
Nem mortos.
Ambos estávamos em algum lugar entre os dois.
- Cala essa boca- digo e franzo o cenho- Você não pode achar que vai acabar assim né?
- Que escolha eu tenho?- ele ergue as mãos pra cima, exasperado- Acabou pra mim.
Sorrio de lado e estico a mão. Olho pro espelho d'água e percebo que ele está oscilando entre uma imagem super nítida e uma tela opaca.
- Não se você não quiser- falo.
Bakugo arregala os olhos. Me olha de cima a baixo.
- Anami, você não pode trazer os mortos de volta a vida.
Então eu dou risada porque aquela frase era a irônica essência do meu ser naquele exato momento.
- Na verdade, eu posso. Eu já morri, na verdade. Eu ESTOU morta.
O garoto na minha frente só pisca e me olha boquiaberto. Naquele instante ele pareceu se esquecer que corria risco de vida.
- A Hari Sasaki me matou- explico- E eu simplesmente não me dei ao trabalho de desistir. Porque eu sabia que não podia. Assim como você sabe que não pode.
- E depois?- ele questiona depois de um instante de silêncio- E se não for permanente?
Naquele momento ele recua um passo e coloca a mão no peito, fazendo uma careta que era uma mistura de dor e surpresa.
- É por isso que o Edshot está me ajudando- coloco a minha mão junto a dele- Eu não sei se o estado que eu dei pra mim é permanente, mas nós vamos garantir que pra você seja. Você vai viver.
Nós nunca fomos próximos. Acho que nossa amizade sempre foi esquisita e baseada num único interesse comum: a Luna. Mas quando ele olhou nos meus olhos eu percebi ali uma preocupação genuína.
- O que vai acontecer com você? Quando isso acabar?
Dou de ombros. Não é como se essa pergunta não tivesse me ocorrido antes nos últimos minutos. Na verdade ela vinha tomando conta de 99% dos meus pensamentos.
- Acho que eu só vou descobrir quando o fim realmente chegar.
Finalmente ele sorri de volta daquele jeito debochado familiar.
- Boa sorte pra você, baixinha.
Reviro os olhos e olho pra mim mesma. Ali, naquele limbo, eu me mostrava no meu visual comum de aluna do segundo ano. Os olhos verdes, o cabelo castanho pintado de azul claro aqui e ali e a minha estatura faltante me encaravam de volta. Se eu estivesse no meu modo "deusa" tenho a impressão de que ele não teria tanta coragem pra falar isso.
Mas eu também abusava da minha sorte com ele, então acho que estávamos quites.
- Tá legal, mas isso não é sobre mim, é sobre você- coloco as mãos em seus ombros e aperto com força- Meu trabalho aqui é garantir que seu espírito continue no seu corpo pelo tempo que for necessário.
Ele se inclina de novo, aparentemente sentindo outra pontada.
- Aguente firme- digo mas não sei se pra ele ou pra mim mesma.
Olho de novo pro espelho d'água. E tenho que olhar duas vezes pra me certificar de que tinha visto certo. Sorrio comigo mesma, uma onda de alívio tomando conta de mim.
Bakugo olha na mesma direção que eu e sorri de lado.
- Porque ele demorou tanto- diz, o final da fase meio estrangulada.
Balanço a cabeça. Eu tinha visto o que segurara o Deku, mas não acho que importava mais. Ele estava aqui agora.
Agora ele precisava fazer o que tinha que fazer, e rápido.
Naquele instante, o "lugar" onde estávamos começou a mudar. Mais espelhos começaram a aparecer, mostrando imagens diferentes. Memórias do passado, apagando e aparecendo de novo. O escuro que nos engolia começou a clarear.
Aquilo deveria significar que ele estava recobrando os sentidos aos poucos.
O Shigaraki parecia estar concentrando toda sua atenção no Midorya agora, então nós tínhamos que nos aproveitar disso pra ganhar tempo pra todos se recuperarem.
Eu ao menos esperava que houvesse tempo.
- Anami- me volto pra Bakugo, mesmo que ele ainda olhe pras imagens que se passam no presente- Me promete uma coisa?
Assinto com a cabeça quando ele me olha com o canto do olho.
- Se isso aqui não der certo, eu quero que cuide da Luna e do Deku por mim.
Aquilo me deixou tão surpresa que eu só consegui ficar calada, olhando-o.
- Se eu morrer mesmo, os dois vão ficar tão descontrolados que não vai conseguir vencer o All for One- continua- Então eu quero que você garanta que a gente vença.
- Eu vou- respondo, me concentrando pra manter a energia de seu espírito ao meu lado. Eu já conseguia sentir isso me esgotando aos poucos, mas eu tinha que continuar- E vou garantir que você esteja lá também.
Ele só faz que sim com a cabeça e cerra os punhos.
Foi ali que eu entendi que ele já havia aceitado o seu destino.
E que eu não podia deixar que ele estivesse certo.
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Rainha Fantasma
FanfictionAnami é uma estudante do primeiro ano do curso de heróis da famosa U.A. E enquanto ela tenta se tornar uma grande heroína, ela não percebe a sombra que se agiganta sobre todos. Mau ela sabe que grande parte dessa sombra, foi ela mesma quem construiu.
