Capítulo 49

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Acordei com o bip bip bip de uma máquina de monitoramento de frequência cardíaca. Minha visão clareou minutos depois pra eu me ver em um quarto de hospital.
Eu esperava ver os meus pais ali, mas no lugar deles estavam o Koichi e a Kazuho olhando preocupados pra tela do celular.
- ... os membros da Frente de Libertação Paranormal ainda não foram todos apreendidos e as autoridades continuam investigando seu paradeiro...- pude ouvir do vídeo que estava sendo reproduzido -... As escolas de heróis estão tomando providências pra acolher a população evacuada de Gunga, mas ainda não temos...
- O que aconteceu?- perguntei com a voz rouca.
Os meus dois amigos se viraram surpresos pra mim e Kazuho se levantou e veio me abraçar.
- Você acordou! Annie, está se sentindo bem?- ela perguntou segurando minhas mãos.
Consigo fazer que sim com a cabeça.
- Por quanto tempo eu fiquei desacordada?
- Três dias- disse Koichi. Ele tinha guardado o celular e agora me olhava preocupado- Mas muita coisa aconteceu nesse meio tempo.
Então ele me explicou que alguns dos vilões tinham sido apreendidos ou mortos em batalha, mas que o Shigaraki e os membros principais da Liga tinham fugido e estavam desaparecidos. A U.A também estava chamando os alunos, pais e cidadãos, assim como outras escolas, a procurarem abrigo dentro de seus campus, uma vez que os heróis passaram a ser mau vistos pela população e organizações de crime organizado, vândalos e terroristas passaram a aumentar e a fazer ataques frequentes por todo o país.
- Então, meus amigos estão todos na U.A?- pergunto aliviada - Assim como meus pais?
Kaz e Koichi trocam um olhar antes de me responder. Só pelas suas expressões eu pude saber que tinha alguma coisa muito ruim que eles não estavam me contando.
- Annie, seus pais foram um dos primeiros a aceitar o convite da escola pra se refugiar lá- explicou Kaz com uma voz gentil - A escola virou uma verdadeira fortaleza, mas as cidades ao redor ainda estão suscetíveis a ataques de vilões...
Engoli em seco e mordi o lábio, já sabendo o que ela iria dizer mas sem conseguir acreditar.
- Um ataque terrorista pegou a minha de trem que eles tomavam no caminho da escola - continuou Koichi- Não houve sobreviventes ao acidente.
Foi como se uma estava tivesse sido enfiada no meu peito. Eu sentia a minha boca abrir enquanto eu apertava com força os lençóis e me curvava pra frente, mas não me ouvi gritar. Também comecei a sentir as lágrimas escorregam por meu rosto, mas não sabia bem quando tinha começado a chorar.
Ambos me abraçaram em algum momento até que o ar se esvaiu dos meus pulmões e meus olhos começaram a arder. Eu tinha perdido a energia pra chorar, mas não conseguia abrir os olhos ou parar de me culpar por aquilo. Se eu estivesse com eles eu poderia ter...
- Não é sua culpa- disse Koichi encostando a cabeça na minha- Você fez tudo que pode na batalha em Jacu. Eles estavam orgulhosos de você.
- Assim como nós estamos- completou Kazuho beijando o topo da minha testa- Eu sinto tanto querida.
- Quem mais?- perguntei, superando o no enorme em minha garganta por um mísero segundo- Quem mais morreu?
- Annie você não precisa se preocupar com isso...- começou Koichi mas eu o interrompi.
- Eu preciso - continuo, minha voz menos que um sussurro - Eu sou uma heroína, é meu trabalho proteger as pessoas. E honrar aqueles que eu não pude proteger.
Então eles me contaram que quase uma centena de outras pessoas haviam falecido durante a batalha, incluindo alguns heróis profissionais, entre eles a professora Midnigth.
Naquele momento eu já tinha chorado tanto, que aquela notícia só fez o meu estômago embrulhar e aumentar o nó em minha garganta.
- A gente foi chamado pra te levar pra U.A quando acordasse- continuou Koichi - Segundo a escola, nós éramos os responsáveis mais próximos escritos na sua matrícula fora seus pais.
Balançei a cabeça.
- Não- respondo e consigo fazer minha voz se tornar mais enfática- Eu não vou voltar pra U.A.
- Annie, o que ...?- começou a perguntar Kazuho, mas eu a interrompi.
- A sociedade perdeu a crença nos heróis não é?- continuo - Mas como vigilante, a vizinhança confia em nós e sabe que não somos heróis.
Koichi me dá um sorriso fraco.
- Você está sugerindo que a gente volte a trabalhar assim?
Kazuho deu um tapa nele. Suas bochechas começaram a ficar vermelhas e dava pra ver que ela estava furiosa.
- A gente não pode simplesmente nos por em risco assim! Digo, vai ser melhor se a gente só se refugiar na U.A...
- E deixar todas as outras pessoas que não confiam nem nas escolas de heróis serem roubadas, sequestradas, feridas ou até mortas pela falta de profissionais por aí?- digo e balanço a cabeça- Eu não quero isso. Eu quero ajudar as pessoas. Em compensação àqueles que não pude salvar.
Eles se entreolham de novo. Então Koichi põe uma mão em meu ombro.
- Você tem certeza absoluta?
Concodo com a cabeça enfaticamente e ele pisca pra mim, sorrindo de lado.
- Então vamos fazer isso.
- Mas se qualquer coisa perigosa acontecer, nós todos vamos pra U.A- disse Kaz cruzando os braços.
- Sim senhora- respondemos eu e Koichi em uníssono.

Quando os médicos me deram auta, Koichi e Kazuho me levaram até a casa deles já que eu mesma não tinha coragem de voltar pra minha.
Eles me ajudaram a arrumar um quarto improvisado pra mim e eu acabei ficando em silêncio, apenas remoendo tudo o que tinha acontecido enquanto eu arrumava minhas coisas e depois no jantar. Eu não estava muito no clima pra conversar.
Eu estava ajudando a tirar a mesa quando a porta do apartamento se abriu e dois caras mascarados entraram carregando várias sacolas. O mais alto deles tirou a máscara e começou a falar com o Koichi.
- A gente trouxe o necessário pra ficar um mês aqui- disse Soga e eu me senti um pouco mais segura de ver que era ele- Vocês são loucos mesmo de não aceitarem um abrigo na U.A.
- Bom, você concordou em ficar conosco então ...- Kaz deu de ombros e começou a guardar o que ele trouxera: alimentos não perecíveis, materiais de primeiros socorros, coisas do tipo.
- É, ele disse que queria ajudar também- ele apontou pra outra pessoa que entrara com ele- Se ele não viesse fazer isso com vocês, faria sozinho. E eu confio mais que ele não vá se meter em encrenca com vocês.
O outro garoto tirou a máscara e eu pude analisa-lo melhor. Era um adolescente mais ou menos da minha idade, com cabelos cor magenta e olhos azuis. Ele tinha as mesmas feições do Soga então supus que fossem parentes.
- Eu sou o Yugoo- ele diz quando percebe que eu estava encarando- Sou irmão mais novo do Soga.
Assenti meio envergonhada e desviei o olhar.
- Não sabia que você tinha um irmão - murmurou Koichi pro amigo e este último franziu a testa.
- Tem muita coisa que você não sabe sobre mim e eu prefiro que continue assim- Soga disse.
Disse pra mim mesma que era falta de educação, mas eu não consegui não desviar o olhar e encarar Yugoo de novo, me perguntando qual seria a individualidade dele e porque ele tinha insistido em vir pra cá também.
- Você é caladona né?- ele perguntou erguendo uma sobrancelha e se apoiando na pia da cozinha ao meu lado. Então ele se inclinou pra frente e sorriu de lado- Mas não para de me olhar.
- Porque quer ficar tanto aqui?- perguntei, por fim - Você não parece o tipo de cara que gosta de uma festa do pijama.
Ele deu de ombros.
- Não. Mas eu me irrito muito fácil com babacas fazendo o que querem por aí. Então eu vou entrar pro grupinho vigilante de vocês.
- Então você é um valentão de valentões?- balanço a cabeça e rio secamente - Que motivação hein.
Ele rola os olhos.
- E qual a sua motivação?
Olho de esguelha pra ele enquanto guardava o último prato no armário.
- Eu poderia dizer "ajudar as pessoas", mas agora tá mais pra "vingança"- respondo e ele da risada quando disse aquilo.
- Gostei de você- ele desencosta da pia e põe as mãos nos bolsos - Acho que isso não vai ser tão entediante quanto eu pensei.

Rainha FantasmaOnde histórias criam vida. Descubra agora