Na manhã seguinte, quando eu estava descendo pra ir tomar café da manhã, senti uma mão em meu ombro e me virei pra encarar o Deku.
- Você tem um minuto?- ele me perguntou, esfregando os olhos.
- Deku, você deveria estar descansando...- começo mas ele me interrompe.
- Eu estou bem - ele balança a cabeça- E antes eu preciso muito falar com você.
Suspiro e indico pra ele entrar no meu quarto. Sento na beirada da cama e o encaro, curiosa. Ele estava completamente acabado, fisicamente e emocionalmente, assim como eu estivera quando voltei.
- A Luna me contou- ele disse- Eu sinto muito pelo seu irmão.
Baixo o olhar. Então antes de ele ir embora ele já sabia.
- Deku, eu é quem tenho que me desculpar...
- Você não sabia- ele continua - Não sabia sobre o One for All, nem que o espírito do Oboro faria o Kuroguiri se lembrar de tudo o que viu...
Mordo o lábio e maneio a cabeça.
- É... Ele não lembra de exatamente tudo...
Meu amigo de repente se interrompe e franze a testa.
- Como assim?
- Ele só viu o festival de esportes- explico - Também achei que ele poderia ter visto mais, mas na verdade, ele só vagueou por aí no festival. O que significa que ele, no máximo, só viu os registros dos alunos usados pra anuncia-los lá. O próprio Oboro me confirmou isso depois.
Ele arregalou os olhos e se sentou ao meu lado. Então se virou pra mim com um sorriso fraco.
- Então você realmente não tem culpa alguma Anami - ele pôs uma mão em meu ombro- Porque foi que deixou isso te afetar?
- Porque eu não sabia - balanço a cabeça- Eu só descobri a verdade quando eu tive coragem suficiente pra sentar e conversar seriamente com o Oboro enquanto estive fora.
Eu realmente tinha feito isso. Em uma das minhas primeiras noites eu me senti na obrigação de falar com meu irmão de novo, afinal ele era a minha única família de sangue com quem eu podia falar, já que o espírito de meus pais não estava preso por nada no mundo mundano e eu não podia chama-los. Quando soube da notícia ele conseguiu se tornar sólido o suficiente pra me dar um abraço e pra falar que agora o corpo dele estava com a polícia e, por isso, ele não tinha outras informações sobre o Shigaraki ou o All for One. Ele também me disse que eles estavam trabalhando em uma forma de fazer ele recuperar sua consciência como ser humano, mas que ainda isso era incerto. Eu não tinha muita esperança, mas seria realmente incrível se eu pudesse tê-lo fisicamente comigo.
- Ah isso também- ele franziu a testa de novo- Você também aderiu ao vigilantismo, não é?
Dei de ombros.
- Já fazia isso antes. Só que agora eu tenho uma licença- dou um empurrãozinho de leve nele- E eu também estava acompanhada, senhor eu trabalho sozinho.
Ele suspirou e passou a mão no cabelo.
- Já aprendi a lição.
Pisco pra ele e dou uma risada curta.
- É melhor mesmo. Todos nós temos que ficar juntos agora- franzo a testa. Havia uma outra coisa que eu queria discutir com ele mas eu não sabia bem como dizer aquilo.
Analisei se seria uma boa ideia ou não exteriorizar aquela ideia, então conclui que precaução nunca era de mais.
- Midorya, mas eu acho que pode haver outro traidor. Digo, um que está passando mesmo informações ao All for One.
Ele arregalou os olhos e balançou a cabeça meio descrente.
- Eu diria que é impossível antes, mas agora...- ele suspira- É bom ficarmos de olho.
Então uma coleção de quadrinhos minha, apoiada numa mesa ali perto, cai de repente. Ambos nos entreolhamos, surpresos e subitamente preparados pra atacar.
Então eu começo a ver no mundo espiritual e vejo uma energia familiar na sala com a gente.
- Toru?- pergunto relaxando um pouco- Eu não sabia que estava aqui.
- Desculpa entrar e ficar ouvindo- ela respondeu nervosa- Mas eu estava atrás do Midorya pra conversar uma coisa com ele e aí eu ouvi vocês dois falando sobre isso então acho que...
Me aproximo e coloco uma mão em seu ombro. Ela parecia claramente nervosa e, apesar de ninguém conseguir ve-la, eu era uma das pessoas que conseguia fazer isso e traduzir o que ela estava sentindo. Anos com fantasmas resultaram nisso.
- Hagakure, relaxa. Tudo bem você ter ouvido a comversa- sorrio pra ela gentilmente- Respira e continua, tá?
Ela pareceu assentir e então completou:
- É o Aoyama.
- O que tem ele?- perguntou Midorya meio confuso.
- É ele- a menina a minha frente continuou parecendo a beira das lágrimas- Ele é o verdadeiro traidor da U.A.
De repente eu me afasto e me sento de volta. Aquilo não podia estar acontecendo. Não podia ser verdade...
O Aoyama tinha sido o primeiro a descobrir que eu usava o sobrenome do Koichi na inscrição da U.A e guardara aquele segredo pra mim. Ele também tinha sido tão leal com toda a classe que...
Ergo a mão meio sem pensar até o meu criado mudo e pego um lápis que estava ali em cima. Então eu o forço até ele se quebrar. Aí eu me levanto, jogo os pedaços do lápis no lixo, pego um dos bastões apoiados num canto e escancaro a porta, começando a atravessar os corredores até o elevador e de lá rumo aos quartos dos garotos.
- Espera, Anami!- gritou Deku atrás de mim, me segurando pelo ombro enquanto eu esperava o elevador chegar.
Virei a cabeça lentamente pra encara-lo.
- Como eu fui idiota- digo, sentindo a raiva crescer dentro de mim- Era... tão óbvio...
- Como assim?- perguntou Hagakure, o medo estampado na voz.
- Ele nunca almoça com a gente- começo a listar- Prefere fazer as atividades sozinho, mas por algum motivo parece saber tudo sobre todos. Também foi o único que saiu ileso do ataque do acampamento estando tão próximo dos vilões e ele também sumiu na batalha contra a Frente de Libertação Paranormal.
Balanço a cabeça e entro no elevador, apertando várias vezes o botão pra descer.
- Eu tinha levantado alguns suspeitos, incluindo o Aoyama, mas eu descartei a ideia porque achei que fosse insensível para com os meus amigos- aperto o cabo do bastão com força- Mas agora eu não vou ter piedade.
Naquele instante o elevador se abriu e eu dei de cara com Yugoo me encarando assustado.
- Posso saber com o que você não vai ter piedade?- ele pergunta calmamente, segurando o bastão com força. Eu sabia por experiência própria que ele estava se preparando pra tirar a arma de mim.
Maneio a cabeça e o atravesso no estado fantasma, continuando a percorrer o corredor até o elevador que levava à ala dos garotos.
Então um rabo cheio de espinhos se enrolou nos meus braços e em minha cintura. Suspiro irritada.
- Me deixa ir, Yugoo!
- Não- ele diz e quando o vejo se aproximar, também percebo que o Midorya e a Hagakure não estavam mais lá- Você estava com um olhar assassino, e em nove a cada dez vezes que esse olhar aparece no seu rosto, é porque você está cega de raiva e vai fazer algo sem pensar.
Fiquei por um instante apenas o olhando nos olhos. Quando ele pareceu perceber que eu relaxara um pouco, ele me soltou e eu afrouxei o aperto no bastão. Então muito calmamente eu disse:
- O Aoyama estava esse tempo todo do lado do All for One e por isso eu estou indo lá acabar com a raça dele.
Yugoo abriu a boca, chocado e balançou a cabeça.
- Como você pode ter certeza de que é verdade?
- Sei lá- dou de ombros e giro o bastão nas mãos- Vamos descobrir quando eu arrombar a porta do quarto dele.
Ele coloca uma mão em meu ombro e apesar de ser sim gesto casual eu podia sentir a pressão do aperto.
- Annie, você não pode julgar as pessoas assim sem descobrir toda a verdade por trás das suas ações.
- Se o Aoyama estiver mesmo ajudando o All for One ele também é responsável por tudo que ele fez- disse, minha voz aumentando a medida que minha raiva crescia- Incluindo a morte da professora Midnigth, dos meus pais e do meu irmão. Então eu acho que tenho motivos suficientes pra querer cair na porrada.
Eu tinha dito aquela última parte cerrando os dentes com tanta força, que pude sentir eles trincarem. Toda a informação que eu tinha recebido naquela última semana sobre todos os crimes do All for One que me deixaram tão assustada, agora colocavam óleo no fogo da minha raiva, fazendo o que era a chama de um fósforo se transformar num incêndio.
- Eu também tenho motivos pra querer vingança do All for One e seus subordinados, mas você tá exagerando um tiquinho.
Ouvi a voz do Yugoo dizer aquela última parte, mas não vi a boca do meu amigo se mexer. Me dei conta daquilo tarde de mais. Estava tão cega pela raiva que eu ri secamente e respondi:
- Ah, por favor. Eu não tô exagerando...
Então minha visão ficou turva e eu pareço perder o controle do meu corpo. Aquela era a terceira vez que experimentava aquilo e ainda assim não tinha me acostumado.
Então Hitoshi entrou no meu campo de visão, tirando a máscara Persona Records e falando com sua própria voz. Ele parecia me olhar meio preocupado.
- Annie, por favor, me promete que não vai fazer nada sobre isso até termos certeza absoluta - ele me diz e sinto minha cabeça fazer sim involuntariamente. Então ele suspira e me chacoalha de leve pelo ombro me fazendo sair do transe - Por favor.
Abro a boca, mas desisto de falar. Suspiro e me encolho, derrotada.
- Tá legal- encosto o bastão na parede e desloco por ela, até ficar sentada abraçando os joelhos.
- Eu nunca tinha te visto tão brava- diz Hitoshi se sentando a minha frente. Yugoo se sentou ao meu lado, um pouco afastado pra ouvir a conversa mas ainda assim nos dar espaço.
- Eu sou um monstro, não é?- pergunto baixinho, sentindo minha frustração se esvair de repente e de uma vez só.
- Eu sou um monstro - diz Yugoo apontando pra si mesmo- Literalmente. Mas você....- ele balança a cabeça e sorri - Annie, você é a pessoa mais gentil, esforçada e leal que eu conheço. Um pouco descuidada, às vezes, mas sempre tem a melhor das intenções.
Eu me sentia péssima agora. A última vez que eu tivera um surto daqueles, foi no último ano do ensino fundametal. Quando eu ficava frustrada ou chateada com alguma coisa eu geralmente optava por guardar isso pra mim até virar uma avalanche que desmoronava num acesso de raiva ou estupidez que me colocava em problemas. E logo depois que a besteira já estava feita, eu ficava com um nó enorme na garganta e só queria me enterrar em um buraco bem fundo e desaparecer.
Eu me sentia daquele jeito agora, querendo desaparecer. Encostei a cabeça nos joelhos e fechei os olhos.
- Não. Eu sou péssima. Eu sou imprudente, assustadora e...- engulo em seco tentando continuar, mas não conseguindo.
Sinto uma mão em meu rosto, erguendo-o. Toshi estava me encarando, um sorriso gentil no rosto.
- Você não é imprudente nem assustadora - ele inclina a cabeça pra me analisar- Todos nós pensamos ou fazemos besteira às vezes. Só precisamos perceber isso antes que algo de mau aconteça.
- E aconteceria se vocês não me impedissem- digo tendo um flashback horrível da eu de treze anos segurando um garoto pela gola da camiseta. Balanço a cabeça e afasto a lembrança- Eu faço coisas ruins e estúpidas por mim mesma.
- Mas se arrepende- completa Yugoo- Um vilão não se arrepende dos crimes que comete. E um babaca não se arrepende das coisas que diz. Mas você sim, porque você é boa.
- Você é uma heroína- disse Toshi encostando a testa na minha - Mas ainda é humana, e todo mundo erra.
Consigo dar um sorriso fraco e assinto com a cabeça.
- Eu já te disse que você é incrível?- digo e olho de soslaio pro Yugoo- Que vocês dois são?
Ele estava prestes a me responder quando o Present Mic entrou nos dormitórios e se dirigiu a todos os que estavam ali no momento.
- O diretor Nezu está chamando vocês na sala dele. É urgente.
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Rainha Fantasma
FanficAnami é uma estudante do primeiro ano do curso de heróis da famosa U.A. E enquanto ela tenta se tornar uma grande heroína, ela não percebe a sombra que se agiganta sobre todos. Mau ela sabe que grande parte dessa sombra, foi ela mesma quem construiu.
