Capítulo 61

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E ficou pior. Os vilões que foram isolados na ilha estavam começando a avançar na retaguarda e o Shigaraki tinha virado um monstrão deformado. Engoli em seco. Aquilo não estava indo nada bem.
E quando eu achei que não poderia, as coisas ficaram piores. Alguma coisa aconteceu com a Shizuka lá embaixo, porque eu a ouvi gritar e um instante depois a cabine em que eu estava começou a despencar.
Consegui assumir a forma de fantasma um segundo antes do vidro se espatifar no chão a cinco metros abaixo de mim.
- Mas o que...?- comecei a indagar, olhando ao redor, tentando procurar algum vilão que pudesse estar fazendo aquilo, quando o tempo parece parar a minha volta e eu vejo uma mulher de cabelos verdes logo abaixo de mim - Hari?
Desci até ela, esperando ve-la me ajudando. Esperando que ela tivesse uma explicação pra aquilo.
E ela tinha. Mas não bem a que eu queria.
Ela segurava minha amiga loira pelo pescoço. Quando viu que eu me aproximava, ela esticou o pescoço pra trás e sorriu de uma forma maníaca.
- Ah, eu sinto tanto mesmo- ela disse e começou a apertar as mãos em torno do pescoço da Shizuka.
Ativei meu campo eletromagnético e consegui fazê-la sair voando pra longe e largar a minha amiga, que ficou suspensa no ar, como se fosse uma estátua.
E foi ai que eu entendi. A Hari tinha parado o tempo. E ela não estava mesmo do nosso lado.
Verifiquei o pulso da minha amiga. Estava estável, mas ela ainda assim não conseguia se mover. Suspirei aliviada e dei um impulso com tudo na direção da outra que se levantava e continuava me encarando de forma maníaca.
- Sua vadia!- exclamo e a arrasto pra fora do telhado, a segurando pela roupa em pleno ar- Você traiu sua família! Seus amigos e seu namorado assim tão fácil, foi?!
Ela deu uma risada descontrolada e fez um gesto com as mãos, como se estivesse rebobinando uma fita. Em um piscar de olhos estávamos de volta ao telhado, eu paralisada onde eu estivera instantes antes.
- Meu deus Anami- ela diz e ergue meu queixo com uma unha afiada- Eu fui traída pelos meus amigos no momento em que deixaram meu pai morrer. E eu não tenho família.
E é aí que eu me dou conta de que eu tinha ficado sólida. Era como se ela tivesse me feito voltar ao meu estado normal também. Isso queria dizer que ela também tinha bloqueado meu contato com todos os espíritos que estavam auxiliando os outros. Aquilo era ruim. Muito ruim.
- E quanto ao Natsu?- resmungo entre dentes, tentando me libertar do transe em que ela me pôs. Sem sucesso.
Ela riu de novo. Eu podia sentir sua unha gravando na minha pele e meu sangue descendo em um risco quente pelo meu pescoço.
- Ele era só um fantoche minha querida. Eu nunca amei aquele idiota de verdade- ela aproxima o rosto do meu ouvido- Minha lealdade e meu coração estão com outro Todoroki, na verdade.
Senti meu coração parar naquele instante. Ela só podia estar falando do Dabi. O que queria dizer que ela estava ajudando a Liga através dele esse tempo todo.
Isso explicava como o Shigaraki tinha se escondido durante todo esse tempo sem ser encontrado. A Hari deveria ter colocado ele em uma fenda temporal.
Minha respiração estava acelerada. Minha visão embaçada. Eu não conseguia raciocinar direito.
-  Eu sinto tanto Anami- ela continua, tirando calmamente uma faca do cinto e a girando nos dedos- Mas essa é a única forma de se manter nesse mundinho medíocre em que nada funciona como deveria. Ficando do lado que tem mais chances de vencer.
Com uma destreza implacável Hari gira o objeto nas mãos e o enfia na base do meu pescoço.
Consigo ve-la fazer aquele gesto de voltar com as mãos e eu caio no chão, lutando pra respirar, mas só tossindo sangue no processo.
Ela se abaixa no meu nível e inclina a cabeça.
- Descanse em paz, Shirakumo.

Eu me senti afundando. Se em meu próprio sangue ou na escuridão confortável da morte eu não sabia.
Tudo o que eu sabia era que aquilo doia. E doia muito. Muito mais pelo fato de eu ter sido traída do que por eu estar morrendo.
E eu tinha certeza daquilo. Eu sentia meu espírito deixando o meu corpo tão rápido quanto o sangue vazava de mim e criava uma poça no chão.
Meus pulmões não puxavam mais ar. Meu coração não batia mais. Tudo que me restava ainda eram os 7 segundos que meu cérebro demoraria pra se desligar. E aquilo estava sendo tão, tão doloroso.
Porque a morte não podia simplesmente me arrastar pra longe dali? Se eu não podia fazer mais nada, de que adiantava estar ali?
Aquilo pareceu demorar uma eternidade, até que eu ouvi uma voz.
A voz do meu irmão.
- Annie, se levante.
Eu queria muito responder, dizer que eu tinha me entregado ao chão de uma vez. Que não havia mais volta.
- Annie. Por favor. Abra os olhos e se levante.
De alguma forma eu conseguia ve-lo ajoelhado ao meu lado, me estendendo a mão.
Então a dor se esvai como se eu não tivesse sido apunhalada. E eu abro os olhos.
Meu irmão está mesmo diante de mim, em carne e osso, sorrindo de um jeito bobo.
- Isso. Agora você só tem que se erguer. Um passo de cada vez.
Sinto minha mão segurar a dele involuntariamente enquanto ele me ergue, meu corpo seguindo o movimento e então eu olho a minha volta.
Ao meu lado estão os milhares de espíritos que eu tinha trazido mais cedo.
E abaixo de mim estava eu. Ou melhor, o meu corpo inútil estatelado no chão como uma boneca de pano.
- Ah- foi tudo que eu consegui dizer diante cautela visão. Eu nem sequer sabia como aquilo era possível.
- Não olhe pra baixo- meu irmão continuou, me guiando pra frente, em direção à Hari que lutava lá embaixo com uma Shizuka confusa. Parecia que ela ter me controlado fez com que minha amiga saísse do transe e tivesse tempo pra pedir ajuda. Então um monstro enorme de uns quatro metros agora ladeava o prédio. Aquilo me assustou por uns instantes, mas eu reconheci pedaços picados da forma da criatura e reconheci o Yugoo. Então aquele era a sua forma verdadeira.
- Eu estou mesmo morta?- sussurro- Porque eu vejo o meu corpo ali inerte, mas eu acho que não me sinto como se estivesse sem energia.
- Nada nessa vida se vai, apenas se transforma- meu irmão sorri de lado e baixa o olhar- Viu? Eu estudei física nesse meio tempo.
Consigo dar uma risada fraca.
- Isso não me ajuda em nada agora.
- Anami, o que ele quer dizer, é que a sua individualidade não permite que o seu espírito morra, só seu corpo fisico- explicou a Midnigth dando uma cotovelada no meu irmão- O que quer dizer que você pode voltar ao estado sólido quando quiser. Você só fez uma inversão de prioridades.
Inversão de prioridades. Tá. Isso queria dizer que agora eu possuía a forma de fantasma como prioritária e que eu poderia voltar ao estado viva. Quanto mais eu fizesse a transição, eu inverteria o quadro. Ou era o que eu esperava.
Respirei fundo e olhei de volta pro monstro que a Hari tentava, em vão, paralisar.
- É claro- disse comigo mesma- Yugoo invoca um monstro adimensional, então ela não pode paralisar ele.
- E nem você, já que bom...- disse Oboro apontando indiscretamente pra baixo.
Semicerro os olhos.
- Valeu mesmo. Me lembra quando for seu aniversário pra deixar você no vácuo de propósito.
Ele fez uma careta indignada. Eu o ignorei e fechei os olhos. Se toda a energia que me restava era plasma, isso queria dizer que eu não tinha mais os limites de voltagem, calor absorvido ou de qualquer outra coisa que impediam meu corpo sólido de se deteriorar.
Comecei a sentir a energia pulsar dentro de mim e por todo meu corpo e quando abri os olhos, era como se eu estivesse enxergando através de um fogaréu.
Olhei pra mim mesma e me vi pegando fogo como se eu fosse uma estrela viva. Sorri comigo mesma. Aquilo era um baita glow up.
Me atirei na direção de Hari. No dia seguinte a minha imagem naquele estado saída nos jornais só resgistrara um facho de luz azul refletindo entre os prédios.
Consegui prega-la no chão. Ela tinha os olhos arregalados de horror e surpresa.
- Eu acho que sou eu quem decide quando eu quero descansar, Hari Sasaki.
Ela abre a boca pra dizer alguma coisa, mas só consegue balbuciar alguma coisa ininteligível.
- Espera ... como...?- pergunta una voz atrás de mim. Com o canto do olho eu consigo ver Yugoo se aproximando se nós. Seu olhar não parava de ir e vir entre mim e o meu corpo flácido mais além- Ghost?
- Queen Ghost- corrijo e me volto pra garota abaixo de mim- E ninguém me manda pro meu reino contra a minha vontade.
Ela cerra os dentes e cerra os punhos, tentando acionar os seus poderes.
- Isso não vai funcionar- resmungou Yugoo se ajoelhado ao meu lado e a encarando com desprezo- Você ainda não entendeu que agora nenhum de nós se aplica a dimensões temporais fixas né?
- O que vão fazer comigo agora?- ela praticamente cospe as palavras na minha cara- Me matar?
- Heróis não matam- digo e inclino a cabeça pra bem perto da dela, sua expressão sombria sendo iluminada pela luz azul que irradiava de mim- E você merece um destino pior que esse.
Yugoo estica o braço e o transforma em uma garra, a apontando direto pro seu pescoço.
- Mas eu não sou um herói e também não estou nem um pouco de bom humor. Então se eu quiser, eu te corto em pedacinhos.
Aquilo pareceu assusta-la. Ela se calou.
- Agora diz, qual o plano de ação do All for One?- questiono e eu consigo sentir meus olhos brilharem mais.
Hari abriu a boca pra falar, mas inclinou a cabeça pra trás e começou a rir descontroladamente.
- Vocês já não tem chance alguma. Não adianta querer vantagem.
Yugoo suspira e balança a cabeça.
- A sua hipocrisia é impressionante- Eu me afasto e ele a ergue a uns cinco metros com a garra enrroscada em sua roupa. Se volta pra mim- É... uau. Você tá... incrível. Desde quando incorporou Deus?
Sorrio.
- Eu devo estar é assustadora não é?
Hari esperneava lá em cima. Meu amigo continuou conversando comigo na maior calma.
- Olha o seu corpo ali- aponta com a cabeça - É assustador. O fato de você não estar morta e assim...- gesticula pra mim Com a mão livre- É um verdadeiro milagre.
Baixo o olhar. Ele não sabia que havia um preço a pagar por aquela minha versão deusa. Mas agora não era hora de preocupar ninguém com aquilo.
- Você cuida dela pra mim?- pergunto apontando a mulher que berrava acima de nós- Eu vou continuar ajudando os outros.
- Claro- ele faz um gesto com a mão- Não se preocupe. Vou tentar tirar alguma coisa dela- faz uma reverência de falsete- Minha rainha.
Rolo os olhos. Ou melhor, o facho de luz dourada que correspondia a eles agora.
- Tá legal.
Me volto para meu exército fantasma que estava esperando novas ordens. Parecia que naquela forma eu podia ver e fazia parte de ambos os mundos.
- Continuem com o plano inicial- digo e me ergo no ar- Só que agora eu vou me juntar a vocês.

Rainha FantasmaOnde histórias criam vida. Descubra agora