Lá embaixo estava um verdadeiro caos.
Eu não fazia a menor ideia de onde me concentrar ou pra onde ir, mas assim que eu vi o brilho forte de chamas azuis eu fui para lá correndo. Ou melhor, voando.
Dabi. A causa da Hari ter quase me matado. E ele estava lutando com o Todoroki. Praticamente se despedaçando e queimando de dentro pra fora.
Eu podia ver isso. Uma aura azulada cobria o irmão mais velho dos Todoroki, e eu podia jurar que conseguia ver o rosto de um garotinho assustado sempre que ele fazia um movimento brusco.
Quando morríamos, nosso espírito tomava a forma com a qual melhor nos sentimos em vida.
Não me surpreendia a de Dabi ser um menino de dez anos.
Era de doer o coração.
Ainda assim, ele quase me matou da última vez então eu não estava exatamente misericordiosa.
Mas o Todoroki estava indo muito bem e eu confiava nele, então eu só decidi lhe dar uma força a mais.
Estiquei as mãos e fisguei o espírito de Dabi, me concentrando em entrar na mente dele.
Conseguia sentir os meus olhos se revirando nas órbitas enquanto a minha consciência de fundia com a sua. Ele pareceu sentir isso também, porque lá embaixo ele começou a ficar lento.
"Pare" transmiti para ele. " Você não tem que fazer isso".
Eu podia sentir ele tentando se desvencilhar do meu controle e ao mesmo tempo tentando se concentrar no irmão. Até que ele não conseguiu fazer as duas coisas ao mesmo tempo e sucumbiu.
- Shoto!- gritei e ele ergueu o olhar enquanto amparava o irmão.
- Ghost?!- ele disse confuso enquanto eu flutuava até ele- Ah... Você...?
- Você foi incrível!- falei e ignorei a evidente pergunta sobre meu estado atual. Apontei com a cabeça pro Dabi- E bem na hora. Ele ainda pode ser salvo.
Meu amigo baixou o olhar.
- Você realmente não quer que ele morra?- pergunta pra mim, baixinho.
- Ele é seu irmão- respondi e consegui sorrir, por mais que na minha atual aparência isso não fosse lá reconfortante- E nós somos heróis. Devemos salvar e proteger, sem olhar a quem- suspiro- Isso inclui ele.
Todoroki abriu um sorriso fraco e eu queria tanto ficar ali mais um pouco quando meu irmão apareceu do meu lado de novo.
- Annie, problemas do outro lado. Precisamos de você.
- "Outro lado" aonde?- questiono.
Oboro morde o lábio e suspira.
- O grupo que está com o All for One.
Isso foi o suficiente pra eu me lançar pro céu de novo e ir com toda a velocidade pra lá.
Assim que eu consegui entrar na arena, atravessando o teto, meu coração quase parou de novo.
Eu vi o Bakugo todo detonado num canto. Eu vi o Mirio e a Nejire se lançando com tudo no Shigaraki, sem lhe causar nenhum dano. Eu vi a Luna o circundado, cortando colunas de bizarros membros em crescimento, feito uma heroina de RPG. E eu vi o Tamaki comendo um monte de coisas aleatórias.
Depois de uma sondada rápida no cenário, entendi o que estava acontecendo.
- Sir- digo e ele aparece ao meu lado- como vai as previsões aqui?
- Sua amiga tem uma resistência inacreditável- é tudo o que ele diz e eu tenho que me contentar com isso, porque ele desaparece outra vez.
- Meu deus- murmuro tentando pensar o que eu poderia fazer àquela altura.
- Pois é- responde Oboro e, olhando ele de braços cruzados do meu lado eu tenho uma ideia.
- Vai achar o Midorya- respondo e cerro os punhos- Ele precisa chegar aqui o mais rápido que puder.
Meu irmão arregala os olhos.
- Espera mas o que exatamente...?
Mas eu o ignoro e vou até o Tamaki.
- Suneater- digo, esticando uma mão pra tira-lo e ele da um pulo ao ouvir minha voz.
E quando se vira pra me ver, ele parece ao mesmo tempo surpreso e assustado.
- Anami?- ele murmura e eu sorrio, mas na minha nova forma deve ter sido assustador.
- Euzinha. Quer uma mão?
Acho que ele só desistiu de perguntar o que tinha acontecido e respirou fundo.
- O Mirio e a Nejire estão distraindo ele. Porque acham que eu vou ser capaz de feri-lo. E acho que sou. Mas nem o Bakugo conseguiu...
- Se alguém consegue, é você- digo olhando de volta pro Shigaraki- Porque aquilo- aponto-esse crescimento se iguala a sua individualidade. Você consegue.
Ele baixa o olhar pras próprias mãos.
- Vai ficar tudo bem- ele diz.
- Sim, tudo bem- concordo e ponho minhas mãos sobre as dele.
Então me ocorreu uma coisa.
O Tamaki era difícil de controlar pelos múltiplos espíritos. Mas agora eu tinha capacidade pra fazer isso.
O Shigaraki agora possuía o All for One, uma individualidade que era composta basicamente de outras individualidades. Das almas de seus antigos portadores.
Se eu conseguisse acessar uma e tira-la de lá...
Me afasto e pisco pra ele.
- Detona o Shigaraki, eu acho que sei como posso te ajudar.
E sem mais nem menos, eu me jogo de encontro a seu corpo físico. Com o Mirio o distraindo acho que ele vê quando eu entro em seu corpo e o possuo.
Então eu atravesso a linha de seu corpo e tudo fica estranhamente claro.
Entrar no corpo de alguém era como afundar em uma piscina. Quanto mais complexa a consciência, mais denso parece o líquido que eu atravesso e mais difícil é se manter ligada ao corpo que eu possuo.
Diferente da maioria dos casos, a consciência do Shigaraki era um branco completo. E eu não me via olhando por seus olhos, eu via a mim mesma andando numa imensidão de vazio. Então eu me viro pra trás e tenho que me esforçar pra não ser expulsa com o choque.
Uma montanha de consciências emaranhadas se contorcia, gritava e tentava se manifestar. Mulheres, homens, crianças e idosos esticavam as mãos pra uma figura central: uma figura amorfa sem rosto. O próprio All for One.
Engoli em seco. Ele podia me ver. Todos podiam. Eu sentia sua pressão sobre mim. Todos queriam assumir o controle. Se libertar.
Dei um passo pra trás, inconscientemente. Minha cabeça parecia doer o que era irônico, porque eu estava dentro da cabeça de alguém. Eu não tinha forma física.
Ainda assim doía. Muito.
Estiquei a mão, tentando alcançar uma daquelas almas perdidas para ter sob o meu controle, para se manifestar, mas eu não estava no controle.
Como se eu me aproximasse de um vórtice, eu fui puxada pro emaranhado de almas e comecei a girar, minha visão não focando em nada, um milhão de corpos se chocando ao meu.
Aquilo era bizarro. A consciência não deveria ser uma coisa física.
Então foi como se o mundo apagasse e se acendesse e eu consegui, de alguma forma, começar a ver o mundo na visão do Shigaraki.
Porque é o que o All for One queria. Porque tudo o que ele faz é a fim de gerar medo e caos na sociedade. Ele faz tudo o que faz com o propósito de fazerem os outros o obedecerem, cederem ao seu poder. Ele convence a todos de que ele é quem controla tudo e por isso devemos desistir.
Eu sentia minha cabeça ser esmagada pelo comando “desista , garota tola”, mas eu não queria ceder. Eu não ia. Assim como eu não queria acreditar no que ele me mostrava.
Tinha que ser uma alucinação, uma visão falsa pra me fazer acreditar que estava tudo acabado. De que não havia mais esperança. De que nossos esforços até então foram em vão.
Eu via o Bakugo caído no chão. Sangue saindo aos borbotões da sua boca. O rosto tão pálido e a expressão tão serena que parecia até mesmo uma pintura da renascença.
-Não...-articulei a palavra, mas percebi que não tinha poder pra manifestá-la em voz alta- não...
Não podia ser verdade. Aquilo não podia ser sério. Ele não está morto. Ele não podia morrer.
A visão se desviou um pouco pro lado e focou em Luna, suspensa há alguns metros no céu, olhando pra baixo taciturna. Sua boca abria e fechava várias vezes, os olhos se enchiam de lágrimas que ela se esforçava pra não derramar. Pequenas penas vermelhas começaram a brotar em sua pele, mas ela nem sequer pareceu notar. Ela só conseguia olhar pra baixo, desacreditada, paralisada. Então a sua já crescente raiva pareceu aumentar mais ainda e o que eram pequenas penas, viraram feixes mais longos e afiados que explodiram pra todos os lados quando ela enfim conseguiu expressar seu sofrimento num grito quase inumano, cheio de dor e sofrimento.
O corpo que eu controlava se retraiu e metade da minha visão foi apagada quando uma das penas acertou o olho de Shigaraki. As demais acertaram diversos pontos nos membros espalhados, espalhando aquele líquido negro que devia ser sangue.
Então eu fui puxada de volta pra vastidão de nada branco e foi como se meus pulmões parassem de puxar ar. Meu coração parasse de bater. Era como morrer. De novo.
Eu tinha que me livrar daquela consciência caótica o quanto antes ou ela ia me matar definitivamente. E eu me recusava a isso, porque eu era a única que podia reverter aquilo.
Eu era a única que podia trazer o Bakugo de volta.
Me impulsionei com força em direção do nada e fui cuspida de volta pra arena de contenção, ironicamente ao lado do garoto loiro sendo amparado pelo Best Jeanist. Foi tão abrupto que por um instante eu só consegui ficar encarando, sem ter certeza de que eu sequer estava viva também.
É aí que eu ouço a Luna gritando novamente. Minha amiga é praticamente um borrão, avançando em alta velocidade pra cima do Shigaraki através das colunas de membros, atirando penas em vermelho, preto, amarelo e azul, afiadas o suficiente pra cortar colunas inteiras ou pelo menos se fincar neles e causar um dano considerável.
-Luna!- gritei, desesperada, porque eu sabia que se ela continuasse, ela iria se matar. Ela já estava cansada e ferida e agora ela estava usando as suas últimas forças num ataque de raiva cego, tentando causar um dano considerável ao Shigaraki sem se importar consigo mesma.
Mas quando ela para, por um único segundo pra me encarar, e meu olhar cruza o dela eu compreendo que ela realmente não se importava. Ela queria mesmo morrer e ela ia fazer isso do jeito dela.
Um nó enorme se forma na minha garganta. Eu não podia deixar ela fazer aquilo consigo mesma. Eu não podia deixar o Bakugo morrer. Eu não podia morrer.
Nós tínhamos que vencer.
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Rainha Fantasma
FanficAnami é uma estudante do primeiro ano do curso de heróis da famosa U.A. E enquanto ela tenta se tornar uma grande heroína, ela não percebe a sombra que se agiganta sobre todos. Mau ela sabe que grande parte dessa sombra, foi ela mesma quem construiu.
