Capítulo 65

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Minha consciência pareceu voltar bem devagar. Eu podia ouvir o barulho de uma máquina monitorando batimentos cardíacos. Pessoas andando de um lado pro outro. E então minha própria respiração.
Espera eu estava respirando?
Ha. Legal.
Minhas pálpebras tremiam como que tentando abrir meus olhos, mas o esforço pra isso me pareceu imenso.
Quando eu finalmente os abri minha visão estava completamente embaçada e eu só consegui distinguir o que parecia uma parede de vidro diante de mim antes de voltar a apagar de novo.

Acho que eu devo ter apagado e acordado umas dez vezes antes de abrir os olhos e conseguir enxergar alguma coisa.
E então entrar em desespero.
Eu estava numa maca na vertical, amarrada dos pés à cabeça e dentro de uma redoma de vidro.
Interessante no mínimo.
Tento virar a cabeça pra enxergar mais dos meus arredores e noto um caniculo de oxigênio saindo do meu nariz até uma maquininha que também média minha pulsação.
Ótimo eu tinha pulso pelo menos. Também tinha uma agulha no meu braço e eu sentia um curativo enorme ao redor do meu pescoço.
Mas alguém podia me dizer porque eu estava amarrada?
- Tem alguém aí?- pergunto pro teto branco acima de mim, minha garganta mais seca que um deserto. Olho pra frente e só vejo uma cadeira de plástico e uma porta aberta que parecia levar pro corredor de um hospital.
Me contorço pra soltar pelo menos um braço das amarras e consigo me deitar mais ou menos pro lado direito. E é então que eu vejo o que está do meu lado.
Ha um outro corpo amarrado na maca do meu lado. Mas esse tem cabelos roxos enevoados e uma fisionomia que eu conheço muito bem. Aquele era meu irmão. Oboro Shirakumo em carne e osso do meu lado.
Sinto meus olhos se encheram de lágrimas e de repente tudo que eu quero fazer é arrebentar as amarras e ir abraça-lo, porque eu também vejo ao seu lado um aparelho marcando batimentos cardíacos e isso me da um alívio imenso e uma nova esperança que eu não acreditava ser possível existir.
- Anami!- uma voz embargada diz da porta da sala e eu me endireito pra ver Kazuho a beira das lágrimas- Graças à Deus você acordou! Koichi! Ela acordou!
Ouço mais passos e meu antigo tutor e amigo aparece diante de mim e eu não consigo evitar sorrir.
- Oi gente.
Koichi cola as mãos e a testa no vidro que me separa deles, os olhos marejados.
- Annie, meu Deus, nós achamos que você tinha morrido de verdade dessa vez. Você assustou a gente pra valer- ele respira fundo e me olha de cima a baixo- Como você está?
Meu corpo doía. Falar doía. Virar a cabeça doía. Pensar estava me dando dor de cabeça e respirar fundo demais esmaga a minhas costelas. Acho que podia ser pior.
- Melhor do que eu esperava- respondo e tomo fôlego, pensando por onde começar as perguntas- Porque eu estou presa numa redoma?
- Os médicos disseram que era uma adaptação de um acelerador de partículas - explicou Kazuho- Eles usaram isso pra juntar seu espírito e seu corpo e então tratar seus ferimentos.
Então era assim que eu ainda estava viva. Uau. Acho que agora era oficial o fato que minha individualidade me fazia ser imortal de certa forma.
- Estão usando o mesmo com seu irmão- diz Koichi apontando pra redoma ao meu lado- Mas como você tinha se ferido a menos tempo, foi mais rápido pra você acordar.
- E isso vai dar certo?
Eles se entreolham por um momento e o "Eu não sei" ficou subentendido. Meu irmão estava morto a pelo menos 15 anos e, por mais que seu corpo tivesse sido preservado como Nomu, não havia garantia que ele poderia reviver.
- A quanto tempo eu estou aqui?
Aquela pergunta era clássica, mas eles demoram pra me responder mesmo assim.
- Você está nessa há uns 10 dias querida- diz Kazuho e eu só consigo ficar boquiaberta. Aquele era meu recorde de ficar desacordada e me assustou um pouco que demorou 10 dias pro acelerador me juntar de novo com meu corpo.
- Por favor, me digam que estão todos bem- digo pensando nos meus amigos, nos professores e nos outros heróis que lutaram ao nosso lado. Eu havia perdido o final da luta, mas eu sinceramente esperava que finalmente eu pudesse dizer que estava tudo bem pra variar.
- Todos os alunos e professores estão bem. Os herois lutando idem. Já os vilões...- Koichi deu de ombros- A maioria deles não aguentou.
O resquício da sombra vingativa no meu âmago queria dizer "bem feito", mas eu sabia que aquilo era errado. Um vilão é só uma vítima cuja história não foi contada. Mesmo o pior deles merecia uma absolvição mínima.
- Kuroguiri foi um dos que resistiu- ele continuou- Incrivelmente ele começou a voltar pra aparência de quando era vivo.
Franzo a testa.
- Mas então ele teria que ter...
- 16 anos- completou Kazuho sorrindo tristemente- A mesma idade que você.
Tá legal. Aquilo era ligeiramente demais pra pensar, ainda mais porque os amigos dele antes agora tinham 30 anos e a garota de que ele gostava estava oficialmente morta.
Eles continuaram me contando sobre quem estava vivo e quem estava morto e o que vinha a seguir. A U.A ia ajudar na reconstrução da cidade junto com gente do exterior e iam tentar conter possíveis vilões em Ascenção nesse período de espera. Em cinco dias eu teria que voltar às aulas, mas a escolha lhes deu os detalhes de como ficariam as coisas porque não sabiam quanto tempo eu demoraria pra acordar.
Aparentemente aquela grande comissão de heróis agora estava nas mãos do Hawks e havia um pequeno plano pra incluir a Lady Nagant nela novamente, já que ela estava milagrosamente viva, o que explicava porque o espírito dela foi um dos únicos que eu não consegui contatar na batalha.
Eles também fariam uma cerimônia de formatura meio às pressas para o terceiro ano e que o Tamaki havia me convidado pra uma pequena festa com alguns amigos próximos e família quando as coisas se estabilizassem.
- É isso por hora- terminou Kazuho e se senta na cadeira a minha frente- Agora você tem que descançar Annie. Tenho certeza que agora que está acordada eles vão te tirar daí em breve.
Sorrio pra ela, o único movimento que meu rosto parecia ser capaz de fazer pra ao menos lhe mostrar que eu mau podia esperar por aquilo.

No dia seguinte eles me colocaram em um quarto normal e quiseram me deixar mais um dia em observação só pra garantir, mas eles permitiram visitas ao meu quarto.
A primeira que veio em disparada foi a Luna, ao mesmo tempo parecendo feliz e furiosa.
- Você ainda vai me matar do coração Anami!- Ela disse jogando os braços ao meu redor.
Eu a abraço de volta e dou risada.
- Ainda bem que isso não aconteceu não é?
- Ah sim- disse Shizuka que havia vindo com ela encostada na porta do meu quarto- Seria terrível se acontecesse.
Elas me explicaram o que aconteceu no final da batalha e que não só o All for One fora apagado da existência como o Shigaraki também havia se deteriorando na luta com o Deku. Ah e que aparentemente o One for All não pertencia mais ao Midorya.
- Então ele voltou a não ter nenhuma individualidade?- pergunto.
- É o que parece- diz Luna- Tipo ele diz que sente as chamas do que foi o One for All, mas é como se ele estivesse sumindo- Ela faz uma pausa e desvia o olhar- Eu e o Bakugo meio que também não podemos mais usar nossas habilidades.
- O que?!- arregalo os olhos e praticamente pulo da cama em que estou deitada. Mesmo eu tendo morrido e voltado pro meu corpo tanto a habilidade fantasma quanto a abelha rainha estavam intactas. Aliás parecia que foi por causa da habilidade parasita da abelha rainha que meu corpo conseguiu ser minimamente preservado, o que era meio estranho. Eu tinha sido literalmente só uma colmeia numa poça de sangue por uns momentos.
- O Bakugo perdeu a sensibilidade de um dos braços e eu esgotei tanto minha habilidade que parece que vai levar um semestre inteiro pra todas as penas se regenerarem e eu poder gerar asas de novo- Ela me diz apontando ligeiramente pras próprias costas- Eu meio que sou uma inútil agora.
- Não diga isso- disse Shizuka batendo no braço dela- Ninguém é inútil jamais. Com ou sem individualidade, ela sendo forte ou fraca, qualquer um sempre pode fazer alguma coisa. É por isso que agora vai ficar tudo bem.  Mesmo quem não é herói, vai ficar comovido pelo que aconteceu e espalhar o heroísmo.
E ela tinha razão. Era por isso que tudo ia ficar bem. Que nós íamos ficar bem.
- E você está bem com o que aconteceu?- pergunto a Luna, sabendo muito bem da relação complicada dela tanto com o Shigaraki quanto com o All for One.
- O All for One teve o que merecia- Ela me diz, sua voz distante- Já o Tomura...- Ela suspirou- Acho que ele nunca conseguiu mostrar a mim o que havia debaixo de todo aquele ódio. Talvez se eu o tivesse conhecido melhor eu fosse capaz de chorar a sua morte, mas tudo que eu consigo fazer é desejar que ele tivesse sido uma pessoa melhor- Luna fecha os olhos como que contendo as lágrimas- Talvez nós dois pudéssemos ter tido uma família de verdade.
Meu corpo se moveu praticamente sozinho quando me levantei e a abracei novamente, mas mais forte dessa vez. Ela quase não demonstrava vulnerabilidade e aquilo devia ser muito difícil pra ela.
Shizuka se junta a mim e ficamos assim, as três abraçadas, pensando no que perdemos nessa batalha, mas certamente também no futuro que vinha a nossa frente.
Uma batida na porta quebra o momento e nos afastamos pra ver o Present Mic diante de nós.
- É muito bom ver vocês três juntas de novo- ele diz, mas sua voz soa séria e eu imediatamente sei que tem alguma coisa acontecendo. Ele se vira pra mim- Anami ele... seu irmão... ele acordou.

Eu saí correndo daquele quarto de hospital na frente do Mic até outro quarto no final do corredor onde estavam mantendo meu irmão. Escancarei a porta com tudo e congelei ali.
Sentado na cama central estava o garoto com quem eu passara 15 anos conversando como fantasma, mas agora seus cabelos eram uma aura roxa ao redor da sua cabeça e ele parecia muito mais pálido do que o normal. Ainda assim os olhos azuis como o céu num dia de verão continuavam os mesmos.
Oboro sorri pra mim e antes que ele ou o professor Aizawa que está de pé do lado da maca digam alguma coisa eu me lanço em direção ao meu irmão e o abraço com força. O sinto perder o fôlego, mas retribuir o gesto mesmo assim.
- É muito bom finalmente poder te abraçar- ele me diz e eu ainda não o solto, por medo que ele evaporasse de novo.
- Você começou a sumir e eu achei...- começo a dizer e sinto um nó enorme de emoção na garganta- eu achei que você ia sumir de verdade. Que eu nunca mais iria te ver. Que você tinha morrido de verdade dessa vez.
Eu me afasto e vejo que ele está sorrindo pra mim, aquele desgraçado.
- Digo o mesmo sobre você. Mas parece que não era a nossa hora. Bom, pelo menos não pra mim. Sabe eu meio que já estava morto. Não dá pra morrer duas vezes.
Balanço a cabeça.
- Você tem que parar de fazer piada com isso- me volto pro professor Aizawa- Da sermão nele depois, por favor.
Ele assente e acho que é a primeira vez que eu vejo ele sorrir genuinamente de emoção.
- É claro.
- Mas ai- diz Oboro enquanto eu me senti de frente pra ele na maca- como você voltou?
Dou de ombros.
- Como eu só fui ferida na garganta, parece que meu espírito conseguiu voltar pro meu corpo graças à habilidade da abelha rainha que manteve ele "conservado"?- faço as aspas no ar e suspiro- Eu mesma não entendi direito como isso funcionou, mas sou grata que tenha funcionado.
Meu irmão olha pros dois amigos nos observando da porta e depois se volta pra mim.
- Eu também. Estou feliz que estejamos aqui.

Rainha FantasmaOnde histórias criam vida. Descubra agora