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Gabi Narrando

Quinta-Feira 20:45

Tranquei a porta do meu apartamento pela última vez. Já era hora de seguir em frente, deixar tudo pra trás, mesmo que uma parte de mim ainda tivesse oscilando entre a liberdade e a dor. Meu coração batia no ritmo da despedida. Carregava no carro minhas malas, com tudo o que restou dessa fase da minha vida — roupas, maquiagem, joias, e todos os detalhes que eu passei anos acumulando. O resto, os móveis, já estavam no Rio, como Dona Rosa havia me avisado. Era engraçado, mas me senti mais tranquila com as coisas já encaminhadas.

Entrei no carro, ligada no último grau. Meu destino? Rio de Janeiro, claro. Só que essa noite não seria no meu novo lar. Como a imobiliária já tinha assumido o apê, teria que me refugiar na casa da Bifão, no Morro de Paraisópolis. Não estava preparada, mas não tinha outra escolha.

Estaciono o carro na entrada do morro, e o primeiro sinal de que eu ia ser "bem recebida" foi aquele olhar atravessado dos meninos que faziam a segurança da divisa.

Vapor 1: Olha quem é, viva sempre aparece... — Ele deu aquele sorriso cínico pro menor do lado, que parecia estar tão perdido quanto ele.

Vapor 2: "O patrão não vai ficar feliz em ver você, acho melhor nem subir.— A voz era grossa, ameaçadora, e não me causava nem um pingo de medo.

Eu: Ah me erra e cala a boca porra — Estava claramente irritada, já não aguentava mais os babacas desse morro.— Libera essa porcaria logo..

O cara me olhou feio, mas não teve outra opção, pegou o rádio e chamou o André.

Vapor 2: Patrão, a ex-patroa tá aqui embaixo, falando que quer subir... — Ele fez uma pausa, e no fundo, pude ouvir a voz do André, tão arrogante quanto sempre.

André: Ela não é porra nenhuma, nem era para botar o pé no meu morro, mas a Lora me pediu para ela passar só essa noite aqui, então pode liberar, e não quero te ver na minha frente Gabriela —  Ele sabia que eu tava escutando, mas não me incomodava. Na real, me fazia mais rir do que qualquer coisa.

Eu: Vai se fuder André — Falei, batendo o pé no acelerador e subindo até a casa da Bifão.

Estaciono o carro na porta de sua casa e desço trancando o mesmo, dou duas batidinhas na porta entrando, pois sabia que estaria aberta. Lá estava a tia Ângela, assistindo televisão como sempre.

Tia Ângela: Boa noite, minha menina. Deve estar com fome. Tem comida no fogão.— Ela me olhou com aquele olhar acolhedor, sempre com uma paz que eu tanto precisava.

Eu: Boa noite, tia. Obrigada, tô morta de fome. — Falei, tentando sorrir. A saudade daquelas conversas com ela apertou. — Onde tá a chata da sua filha? — Perguntei, sorrindo de lado.

Tia Ângela: Tá no quarto, terminando as malas. — Ela parecia um pouco triste, mas não disse mais nada.

Eu: Não fica assim, tia. Ela só vai se mudar. Nunca vai te abandonar.— Fui subindo pro quarto de Bifão, e dei uma gritada — Chegueiii, louca! — Me joguei na cama, causando um susto na Bifão.

Bifão: Ai, que susto, sua vaca! — Ela colocou a mão no peito, fingindo que ia ter um infarto. —  Quase me mata! — Eu ri, e ela se jogou do meu lado na cama. —  Acabei — Ela olhou praquelas malas todas, e eu já sabia que ia ser uma noite longa. — Vamos comer e deitar, porque amanhã a gente tem que dirigir 6 horas até o Rio, se não for mais por causa do trânsito — Concordei sem dizer nada e fomos pra cozinha.

A janta passou rápida, e depois de conversas e risadas, fomos para o quarto. Tomei um banho e dei boa noite pra tia Ângela antes de deitar com a Bia. Fechei os olhos rapidamente, já sentindo o cansaço da semana pesando.

No Complexo do AlemãoOnde histórias criam vida. Descubra agora