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Gabi narrando – Subconsciente

Não sei explicar direito onde eu tô.

É como se eu tivesse no meio de um nada... Um lugar sem cor, sem cheiro, sem forma. Um completo vazio do caralho.

Só que ao mesmo tempo eu sinto. Sinto o vento passando forte, bagunçando meu cabelo como se fosse real, como se tivesse no alto de uma montanha, olhando a vista de cima. É estranho, porque não tem ninguém aqui... Só eu, esse breu, e esse barulho de silêncio que chega a ensurdecer.

De vez em quando, parece que eu mesma falo comigo. Tipo duas versões minhas. Uma que tenta me manter em pé, e outra que só quer deitar e desistir.

Eu:  Que porra de lugar é esse, Gabriela? — Eu escuto a mim mesma, debochada, mas com medo.

— Sei lá... parece o fundo do poço. — Eu mesma respondo, com nervosismo no tom.

O ar aqui é denso, pesado. Não sei se eu tô sonhando, se morri, se tô dormindo, se tô só... Presa.

Cada passo que tento dar ecoa, como se eu pisasse em água, mas não molha. Só afunda.

E dentro de mim... Porra, dentro de mim eu tô vazia. Tipo uma casca de ovo quebrada, sabe? Como se minha alma tivesse se esvaziado e o corpo ficasse só oco, seco. Eu tento falar alto, tento gritar pra ver se alguém me escuta, mas a voz não sai, mesmo que eu a escute. Só tem essa escuridão e esse vento forte que parece rir da minha cara.

No meio desse caos, eu começo a ver uns flashes, como se fosse feixes de luz que refletiam em fragmentos de cacos de vidros, que passavam bem diante dos meus olhos.

Primeiro achei que era coisa da minha cabeça, mas não... É nítido. Tipo um trailer de filme passando rápido, cheio de corte, cheio de pedaço solto.

Até que, lá na frente, aparece uma cena diferente se formando e tomando conta do espaço inteiro.

Uma árvore enorme. Linda. Daquelas que a gente só vê em filme, com as folhas verdonas, mexendo devagar no vento. Atrás dela, um horizonte aberto, um céu tão azul que até acalma.

Eu nunca tinha sentido tanta paz olhando uma coisa tão simples.

E ali, pendurado num dos galhos, eu vejo um balanço. Daqueles improvisados, com pneu velho e corda grossa.
No balanço... Tem uma criança.

Um garotinho de peles claras e loirinho, cabelo bagunçado pelo vento, chutando as perninhas devagar enquanto balança, tão pequeno, mas ja determinado, parecia ter uns 3 anos.

O som de sua risada ecoa pelo espaço todo, como se viesse de dentro de mim. Uma risada doce, leve, que não combina com essa porra desse vazio onde eu tô sentindo e estou vivendo.

Sem perceber, um sorrisinho nasce nos meus lábios. Pequeno, tímido... Mas nasce.

Eu fico o olhando, hipnotizada.
A cada balanço dele, meu coração parece bater um pouco mais forte. Como se eu tivesse sentido algo que eu nem sabia que podia sentir. Como se tivesse uma ligação... Inexplicável.

Mas aí... Num piscar de olhos, um maldito e lentos piscar de olhos... Tudo muda.

De repente, o garotinho some.
Puff.
Desaparece.

O balanço continua balançando sozinho, rangendo, indo e voltando, indo e voltando... Mas vazio.

E é nesse fragmento de segundo que a porra da minha ficha cai...

Meu peito implode.

Um grito preso tenta rasgar minha garganta, mas não sai. Eu quero correr até o balanço, quero agarrar aquela corda, quero trazer ele de volta... mas minhas pernas não obedecem.

No Complexo do AlemãoOnde histórias criam vida. Descubra agora