Gabi Narrando
Domingo 09:07
17/12/2023
Acordei devagar, ainda meio grogue do sono, com os olhos pesados e o corpo preguiçoso. Me estiquei toda, sentindo aquele travesseiro afundar de leve, mas teve uma coisa que me fez travar por dois segundos
Tinha alguém ali do meu lado e nada era Lara, franzi a testa... Era uma presença diferente maior, mais magricela e com certeza com bafo de energético e cigarro.
Virei o rosto devagar... e lá estava ele.
Caique Neto de Oliveira... Vulgo Neto, meu priminho.
Deitado de lado, braço debaixo da cabeça, o celular largado em cima da barriga e um sorriso largo, de quem já tava acordado há horas.
Neto: Bom dia, sementinha do tio... dormiu bem? Conta as novidades pro seu tio aqui... Tá animado pra hoje? Vai ser o terror dos becos, eu tô te falando... — Ele falava baixo, quase sussurrando, com a cara colada na minha barriga.
Soltei uma risada leve.
Eu: Bom dia pra você também, né, palhaço?
Ele só levantou uma mão, sem nem me olhar, e retrucou:
Neto: Shhh... Não atrapalha o momento do nosso diálogo matinal, por favor.
Eu: Ahhh tá bom então... vou ficar quieta aqui, de enfeite. — Revirei os olhos, rindo ainda mais.
Neto: Isso! Isso mesmo, faz igual planta de canto de sala. Tá lindo assim. Agora voltando... sementinha, olha só, cê vai crescer e vai ser um moleque firmeza viu? E sem ficar respondendo sua mãe, que ela é braba! Vai dar ruim, e se der você liga o tio que assim tu vai ter cobertura total!
Eu: Agora que você terminou de ser uma péssima influência pro meu filho , posso ser notada? — Brinquei, cruzando os braços e fingindo drama.
Ele se levantou com o cotovelo apoiado, encarando meu rosto com aquele olhar de malandro que só ele tem.
Neto: Ah, nem vem com seus drama logo cedo... — Ele deu uma risada. — Mas falando sério... eu tava só esperando cê acordar, tenho uma parada tensa pra te contar, Marrenta.
Eu: Fala logo então. — Na hora, eu já endireitei a postura na cama. Senti o ar pesar.
Neto pegou o celular e abriu o Facebook, ja logo entrando no perfil do tal pai da Layla.
Neto: Vasculhei umas paradas essa madrugada, no plantão... sobre a Layla e seu passado. Lembra do pai dela né?
Assenti, com o peito apertando um pouco.
Neto: Então... fiquei com ele na cabeça e de onde eu conhecia ele, martelando. Aí lembrei. Lembrei de onde eu conhecia esse desgraçado.
Eu: Vai, Neto... fala logo. — Pedi, com a voz mais firme.
Ele respirou fundo, deslizou o dedo na galeria e me mostrou uma foto mais antiga. O mesmo homem, um pouco mais novo, farda azul escura da PM, pose séria e uma insígnia dourada no peito.
Neto: Esse cara... era 1º tenente da Polícia Militar do Rio, Luiz Henrique Nascimento.. Conhecido na Zona Norte como Tenente Nascimento.
Eu: Como assim era? — Meus olhos se arregalaram.
Neto: Escuta. — Ele falou, sério. — Em 2019, esse cara comandou uma das maiores operações de busca, apreensão e prisão aqui no Complexo. Entraram com caveirão, helicóptero, B.O.P.E. e até cão farejador. Queriam pegar o Carlão, o dono do morro. Foi uma operação violenta, sem pena de ninguém. E quem comandou tudo? Esse aí.
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No Complexo do Alemão
FanfictionDois destinos entrelaçados, um morro, e uma cidade que nunca dorme. Gabriela Rippi, 24 anos, tem uma história marcada por perdas e superações. Moradora de São Paulo, ela acaba de perder a mãe e, com a dor ainda fresca, decide deixar tudo para trás...
