Bifão Narrando
Quarta-feira 15:38
20/12/2023
Três dias.
Ja fazia três dias desde aquele maldito domingo que virou nosso mundo de ponta-cabeça.
A Gabi ainda não acordou. O quarto dela no CTI é gélido, silencioso, com aquele barulho dos aparelhos ecoando no pequeno espaço. Às vezes eu fico encarando aquele visor com os batimentos, como se aquilo fosse me dar uma resposta que ninguém mais conseguia dar. Como se, a qualquer momento, ela fosse abrir os olhos e me xingar por estar chorando demais.
Montamos um rodízio pra tentar dar o máximo apoio e também dar conta da situação... Eu, Malu, Lara, Dona Rosa e até a Hilary, que deixou os corres dela pra ajudar! Combinávamos sempre de alguém passar a tarde e outra passar a noite pois na CTI, só pode um acompanhante por vez, e os meninos como são foragidos, não podiam nem cogitar em pisar no hospital.
Era arriscado demais, e qualquer vacilo poderia gerar um problema maior do que poderíamos suportar, então por enquanto eles estavam segurando a barra de longe, como dava.
Mas, sinceramente? O clima mudou... E MUITO!
O Neto... meu Deus, o Neto virou outra pessoa. A agitação sumiu. Ele está mais seco, mais na dele, grosso até com quem tentava ajudar. Se afundou de vez nos corres do morro, talvez seja a forma dele de fugir da dor.
Já o Pk!?... Então, ele virou literalmente uma pedra de gelo. O homem que já foi furacão, e do tumulto agora virou um vulto. Frio, calculista, sumido. Quase não fala, não olha nos olhos de ninguém, e às vezes parece que nem respira. O Bigu é quem tá assumindo as pontas lá em baixo na boca, mantendo a organização, tentando segurar a responsa enquanto o melhor amigo se perde em sua própria escuridão!
A Malu... tadinha, ela estava tentando. Cuidava da casa, do irmão e ajudava a gente sempre que necessário, mas é visível. O olhar dela ja não brilha mais. Ela acorda no automático, come por obrigação e ao mesmo tempo que esta aqui, parece ja não está mais, ela sorri pra nós quase por obrigação, mas por dentro... É só medo. Medo de perder a irmã que a vida deu pra ela.
E a Lara? Aquela menina, tão durona, agitada, brincalhona e tão boca suja... Agora tá grudada na Dona Rosa. Até está ajudando no restaurante para tentar ocupar a mente em cada segundo. Agora ela esta bem próxima da Gisele, a mesma que presenciou tudo, e parece estar ajudando a nossa caçula nesse período! Todos os dias, às 16:00, Dona Rosa e Lara fazem uma reza pela Gabi. Isso tem me dado força, sabe?
E eu?
Eu tô tentando... Segurando a barra de todo mundo. Sendo forte por fora e desabando toda vez que entro naquela CTI e vejo a minha melhor amiga ligada em fios. Já chorei de soluçar em silêncio, só segurando a mão dela, implorando pra ela voltar. Mas não posso cair. Eu sou o escudo de cada um deles agora.
Tô tentando montar um esquema com uns plantonistas. Uma troca de favores, um agrado aqui, outro ali e se tudo der certo, essa semana já consigo colocar os meninos pra dentro... Sem alarde, sem bagunça e sem monitoração. O quanto antes eles vão conseguir ver a Gabi de madrugada, escondidos, sem chamar atenção. Mas não é fácil. O risco mesmo assim continua sendo alto.
No meio disso tudo, ainda tem o Espaço Delux. A nossa obra, nosso sonho. Tá na reta final, e a previsão é que fique pronto até fevereiro. Eu passo por lá, acompanho o que posso. Mas nada tem brilho se ela não estiver do lado.
Hoje eu tô aqui na casa do Bigu. Sentei com ele na sala e, pela primeira vez em dias, consegui respirar um pouco.
Eu: Tá foda... — Confessei, baixinho, com os olhos marejando. — Eu finjo pra todo mundo que tô bem, mas... por dentro, tô um caco, amor. Eu fico lembrando dela rindo, falando merda, mexendo nas minhas coisas... E agora ela tá lá, parada, quieta. Parece até que levaram minha metade.
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No Complexo do Alemão
FanfictionDois destinos entrelaçados, um morro, e uma cidade que nunca dorme. Gabriela Rippi, 24 anos, tem uma história marcada por perdas e superações. Moradora de São Paulo, ela acaba de perder a mãe e, com a dor ainda fresca, decide deixar tudo para trás...
