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Gabi narrando – Subconsciente

Eu não sei explicar como vim parar ali, mas de repente eu tava andando num campo aberto.
Sozinha.

O sol já tava se pondo, tingindo o céu de laranja, uma pintura viva. O vento balançava a grama alta, e o som era tão sereno que quase dava vontade de deitar e ficar ali pra sempre.

Cada passo que eu dava parecia leve, como se os pés não tocassem o chão direito.

E na minha cabeça... tudo se misturava.

A imagem da minha mãe na sacada, o abraço quente, as palavras dela ainda ecoando. O André sentado no chevetin, tragando o cigarro e me encarando sério, me jogando aquelas verdades que eu nunca esperei ouvir dele.

Eu pensava em tudo.
Nos conselhos, nas broncas, na saudade.

E, por mais bagunçado que fosse, eu não queria sair daqui.

Aqui era mais fácil.

Aqui, eu podia ver minha mãe, matar um pouco da saudade. Conversar com o André que, de vez em quando, aparecia do nada.

Era duro, mas ainda assim... Suportável. Mais fácil de lidar do que a vida lá fora.

Eu respirei fundo, olhando pro horizonte, sentindo uma paz que eu não lembrava de sentir fazia tempo.

Mas então... tudo começou a tremer.

Devagar, como se fosse câmera lenta.
O chão vibrava, o céu parecia balançar. A grama ondulava com mais força, e meu corpo inteiro foi tomado por uma estranha pressão.

E aí eu ouvi.

Um choro.
Pesado. Desesperado.
Um choro que eu conhecia de longe, porque já chorei junto com ele muitas vezes.

Neto: Marrenta... — A voz dele veio embargada, rasgada pela dor. — Pelo amor de Deus, acorda... não faz isso comigo, não.

Meus olhos se encheram na hora.
Neto.

A voz dele cortava tudo ao redor.

Neto: Eu preciso de você aqui, caralho! — Ele soluçava. — Não faz isso comigo... Você é minha família, você é minha parceira. Eu te amo, porra! Como é que eu vou viver sem você? Me fala... como é que vai ser o mundo sem a minha Marrenta favorita?

Sentei no alto de uma montanha que se abriu diante de mim, com uma vista absurda pro horizonte, como se o mundo inteiro tivesse se colocado debaixo dos meus pés só pra eu ouvir ele. O vento bateu forte no meu rosto, e eu não consegui segurar as lágrimas.

Eu: Caique... Eu tô aqui, eu tô te ouvindo... — Falei baixinho, desesperada. — Eu não quero te deixar, não... mas eu não sei se eu consigo voltar.

Ele não escutava.
Continuava falando, chorando.

Neto: Você lembra, Gabi? — Ele continuou, soluçando. — Lembra aquele dia na boca, que você foi de madrugada dicar comigo no plantão!? Só porque teve insônia e estava entediada! A gente ficou na laje, fumando um atrás do outro, contando histórias do nosso passado? Você ria da minha cara porque eu te contava que meu sonho era ficar rico, que era conquistar o mundo... E você falava que no início da sua adolescência você só queria conquistar um colchão decente e uma garrafa de vodka gelada... — Ele riu entre lágrimas, mas logo voltou a chorar. — É você que sempre me puxa de volta, a realidade. Sempre foi você, caralho!

Meu peito doía como nunca.

As lembranças vieram vivas, eu conseguia sentir o gosto da vodka, ouvir a risada dele ecoando, ver a gente deitado na laje, olhando pro nada e relembrando tudo.

No Complexo do AlemãoOnde histórias criam vida. Descubra agora