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Gabi Narrando

Sabado 03:35
14/10/2023

Empurrei a porta, o vento frio da madrugada bateu no meu rosto e eu fui indo direto pra entrada do baile. Só queria sumir dali.

Ali já tava mais vazio, só uns vapores na contenção, fumando e rindo de alguma conversa idiota.

Encostei no muro, buscando ar.
Mas o que vinha era só a porra da lembrança repetida do que tinha acabado de rolar.

Pude prestar atenção em uma das conversas dos vapores:

Vapor: Koé viado PK acabou de sair a mil na moto, será que rolou algo?! Neto foi logo atras bolado também...

Fechei os olhos com os flashs ainda na minha cabeça que ja tava  rodando.

A adrenalina ainda alta, mas agora misturada com um aperto escroto que eu não sabia se era culpa, orgulho ferido ou tudo junto.

As palavras da Carol rodavam sem parar...

"Tá se achando só porque tá sendo mais uma marmitinha do PK, né? Mas não esquece, gata... ele só comeu e largou, igual faz com qualquer vagabunda!"

A desgraçada tinha plantado a sementinha na minha cabeça e o pior de tudo é que eu deixei germinar.

Será que era isso mesmo? Será que, no fundo, PK só me queria ali pelo entretenimento? Pela adrenalina? Pela ousadia?

Será que eu era só mais uma?

Balancei a cabeça tentando tirar aquelas neurose dali, respirei fundo, mas não adiantava.
Relembrava tudo, do início da noite até aquele maldito momento em que eu joguei tudo na cara dele.

"Vai me bater de novo, é isso?"

Foi como cuspir gasolina no incêndio.

Eu tava ali, parada, o sangue ainda escorrendo devagar da sobrancelha, minha mão ardendo e o coração desparrado.

A rua parecia mais silenciosa, como se o baile nem estivesse rolando ali atrás. Foi quando ouvi os passos vindo devagar.

Olhei de canto e vi o Th chegando com aquele jeitinho dele, tranquilão, meio largado, uma mão no bolso e a outra segurando um papel que ele esticou pra mim sem dizer nada de cara.

Th: Toma, morena... Limpa esse sangue aí antes que tu comece a assustar os vapores. — Ele sorriu de leve, tentando aliviar o clima.

Mas eu só peguei o papel, limpei devagar o rosto e encostei de novo no muro, de cara fechada.

TH se encostou do meu lado, sem pressa, olhando pro baile lá dentro.

Th: Tu parece um furacão quando tá puta, sabia? Só faltou balear a mina... Garrafa já teve. — Ele riu baixo, mas depois ficou sério. — Mas cê também sabe que não foi só a Carol que fez merda ali hoje, né?

Eu: Vai começar também? Veio me dar sermão igual o PK? — Revirei os olhos.

Th: Não. — Ele me cortou firme, com aquele tom que poucas vezes usava. — Eu vim te falar umas verdades que talvez ninguém tenha coragem de jogar na tua cara.

Me virei pra ele, emburrada, pronta pra retrucar.
Mas ele já emendou:

Th: Tu é sinistra, Marrenta. Mas também é folgada pra caralho. Marrenta demais. E pior... às vezes tu esquece quem é o PK aqui dentro. O cara pode até ser teu rolo, teu contatinho, teu 'sei lá o quê', mas ele ainda é a porra do patrão. E tu não respeita isso.

No Complexo do AlemãoOnde histórias criam vida. Descubra agora