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Gabi Narrando

Domingo  14h30
24/12/2023

A sensação de estar indo embora do hospital era... estranha.

Nem boa, nem ruim.

Só estranha.

Um misto de leveza e peso, como se eu tivesse deixado metade de mim pra trás naquele quarto branco, e a outra metade tivesse sido puxada de volta pra vida sem me perguntar se eu queria voltar.

A Bifão tava assinando a última papelada, meio afobada, meio emocionada, do jeito que ela sempre ficava quando tentava parecer forte demais.

A Lara tamborilava os dedos no balcão, inquieta, com o casaco amarrado na cintura e aquele olhar dela de quem não sabe disfarçar nem se tentar.
As duas tentando parecer normais...
Eu tentando parecer viva.

Bifão: Bora, marrenta — Bifão chamou, com um sorrisinho torto. — Tua liberdade tá assinada.

Eu forcei um sorriso.
Foi o máximo que deu.

O caminho até o carro foi em silêncio, mas as duas colavam em mim como se eu fosse evaporar se elas se afastassem meio metro.
Lara segurou minha mochila, e eu nem discuti.
Ela só queria ajudar.
Eu só queria respirar.

O sol tava forte.
Mas dentro de mim... tudo continuava meio nublado.

Quando entrei no carro e sentei no banco do carona, o cinto pareceu mais pesado do que o normal.

A Bifão ajeitou o banco dela, deu partida e soltou um suspiro exagerado.

Bifão: Tá preparada pra bagunça? — Ela perguntou.

Eu: Que bagunça? — Perguntei, meio perdida.

Lara girou o corpo no banco de trás, animada como sempre.

Lara: O Natal, né, porra! — Ela abriu os braços. — A Dona Rosa vai fazer um festão lá no restaurante. Vai tá TODO MUNDO.

Bifão completou:

Bifão: Neto, Bigu, Malu, Dona Rosa, Larinha a doidinha aí atrás... até o PK vai... — Ela travou no meio da frase e se corrigiu rápido demais. — Quer dizer, tipo... ele vai "dar um jeito", né? Tu sabe.

Eu só assenti, olhando pela janela.

O nome dele sempre me deixava com o coração descompassado.

Desde a ligação de madrugada, ele não tinha parado de mandar mensagem, mas eu...
Eu simplesmente não conseguia responder com a mesma energia.

Não era sobre ele.
Era sobre mim.
Sobre o que eu perdi.
Sobre o que eu não consegui proteger.

Lara: Gabi? — Lara chamou, tocando meu ombro de leve. — Tá quietinha...

Eu: Tô só... cansada. — Forçei outro sorriso.

As duas se olharam pelo retrovisor, mas não insistiram.

Elas achavam que era pelo bebê.
E... bom... não estavam erradas.

A Bifão tentou puxar assunto de novo, tentando clarear o clima.

Bifão: A Dona Rosa falou que vai fazer ceia completa. Peru, farofa, arroz, rabanada... ela tá toda empolgada. Disse que quer a família inteira reunida.

Lara completou, animada:

Lara:  E eu vou decorar tudo! Tu precisa ver as luzinhas, Gabi. Tá tipo... filme de Natal, só que com vibe de favela. Coisa linda!

Eu tentei sorrir, de verdade dessa vez.

Eu: Vai ser bonito. — Murmurei. — Faz tempo que eu não passo Natal com...

No Complexo do AlemãoOnde histórias criam vida. Descubra agora