Bifão Narrando
Sexta-feira 15:37
22/12/2023
Eu já tinha perdido a noção de tempo. Desde que a Gabi entrou naquele coma, parece que o mundo inteiro virou um borrão de dias cinzas, sem começo e sem fim. Era umas três da tarde quando olhei pro relógio, mas parecia madrugada. A casa tava silenciosa demais, pesada demais, como se até as paredes sentissem a ausência dela.
Eu tava no sofá, com as pernas dobradas, mexendo na unha sem nem perceber, e o Bigu sentado de frente, na poltrona. Ele me encarava com aquele olhar de sempre, sério, mas ao mesmo tempo cheio de preocupação.
Bigu: Qual foi minha loira?! Tá com essa cara desde cedo... — Ele soltou, baixo, tragando o cigarro antes de apagar na latinha que usava de cinzeiro. — Vai acabar ficando doente junto, desse jeito.
Eu: E como que eu não fico, J. Gabriel? Me fala. Cada dia, hora e minuto que passa a Gabi nãoda sinal de acordar, parece que um pedaço meu tá indo junto. — Eu suspirei fundo, ajeitando o cabelo pra trás.
Ele se inclinou pra frente, apoiando os braços nos joelhos. O olhar dele pesou em cima de mim, sério, intenso.
Bigu: Eu sei amor... Eu também tô com a cabeça fodida. Mas se tu desmontar, quem segura o bonde? Tu sempre foi a mais firme, a que mete o peito... Não desmorona agora, não.
Fechei os olhos por um segundo. Eu odiava quando ele acertava desse jeito. O Bigu sempre teve essa mania de me ler melhor do que eu mesma.
Eu: Não é fácil, vida... — Minha voz saiu baixa, arrastada. — Eu olho pra cama, vejo ela cheia de fio, respirando naquele ritmo da máquina, e só me vem na cabeça tudo o que a gente já viveu. Os corres, as risadas, as tretas... a Marrenta sempre foi vida, intensidade. E agora... ela parece se apagar cada dia mais.
Ele levantou, veio até mim e segurou minhas mãos. As mãos grandes, firmes, sempre cheias de calo do corre, mas que comigo sempre foram leves e meu refugio.
Bigu: Escuta o que eu vou te falar, Bandida: Se tem uma pessoa que não vai se entregar, é a Marrenta... Ela é marrenta de mais para isso e se tem uma pessoa que já passou por coisa demais, já levantou de queda que mataria qualquer outro, esse alguém é ela. Se ela tá lutando lá, a gente tem que segurar aqui fora.
Eu mordi o lábio, engolindo o choro. Bigu tinha razão, mas não diminuía o aperto no peito.
Foi quando lembrei.
Eu: A Lara insistiu pra todo mundo colar na Dona Rosa hoje. Quer fazer aquela oração que ela sempre faz, mas com geral, quer pedir força... — Falei pegando meu telefone e vendo as horas. — Ela não vai sossegar enquanto não reunir todo mundo.
O Bigu fez que sim, passando as mãos pelo cabelo aflito
Bifão: Então bora. Pelo menos lá a gente se junta, respira outro ar.
...
O caminho até o restaurante da Dona Rosa pareceu mais longo que o normal. Cada beco que a gente passava, cada rosto que olhava, parecia refletir a mesma aflição que eu carregava. O morro inteiro sentia a falta dela.
Pra muita gente ela podia ser só a Marrenta de cara fechada, mas para muitos ali no morro ela era querida, ja ajudou, acolheu e escutou.
Quando cheguei, o coração apertou mais uma vez. Lá dentro já estavam quase todos: Malu, sentada de braços cruzados, com o olhar duro, carregado de raiva engolida; Lara, inquieta como sempre, tentando organizar as cadeiras; Gisele mais quieta, mexendo no celular; Dona Rosa atrás do balcão, com aquele jeito sereno que nunca abandona; e o Neto, largado numa cadeira, com os olhos vermelhos e a expressão de quem não tinha dormido nada.
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No Complexo do Alemão
FanficDois destinos entrelaçados, um morro, e uma cidade que nunca dorme. Gabriela Rippi, 24 anos, tem uma história marcada por perdas e superações. Moradora de São Paulo, ela acaba de perder a mãe e, com a dor ainda fresca, decide deixar tudo para trás...
