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PK Narrando

Sexta-feira 13:20

Neto foi mostrar a casa pra sobrinha da Dona Rosa, deixou a Malu em casa no embalo. Eu? Só dei de ombro e segui com o Bigu pra boca, sem muito papo.

Já na salinha, comecei a desenrolar umas pendência financeira, papelada do tráfico que não pode ficar embolando. No meio dos cálculos, vi que tinha 8 mil pendente no caixa. Bateu o estresse na hora. Peguei os relatórios, revisei de novo... E lembrei: entreguei 4 mil de mercadoria pro Playboy do Leblon e outros 4 mil pra um carinha que anda rodando por Copacabana. A matemática tava fechando — mas o dinheiro não.

Bati o radinho.

Eu: Bigu, cola aqui na salinha. — Falei firme, já ouvindo o estalo dele no radinho, "Tô indo", e em menos de um minuto ele abre a porta, todo retão.

Bigu: Dá a ideia, Pk. Que foi? — Se jogou na cadeira, na frente da minha mesa.

Eu: Tá pendente 8 mil no caixa. — Falei, mostrando os papéis pra ele. — É a parte daqueles dois Playboy do asfalto. Quero que você desenrole isso aí... Separa quatro dos melhores vapores pra fazer essa cobrança. Se até amanhã, meio-dia, o dinheiro não tiver na minha mesa, avisa que EU mesmo vou buscar. E se fosse eles, não escolhiam essa opção.

Bigu soltou uma risadinha sacana, daquele tipo "os cara que lute", se levantou e saiu da sala já no corre.

Fiquei ali mais umas duas, três horas, resolvendo os trampos. Mês que vem tá previsto um carregamento nervoso vindo da Bolívia — coca cristal pura, daquele nível que faz os gringo chorar. O lucro ia subir 65% fácil. Só que a responsa era cabulosa: o morro tava sendo invadido direto pela PM, e até o mês virar a gente ia precisar operar no modo fantasma. Zero erro.

Fechei a salinha, trancando. Fui pra sala do lado — que é mais do Bigu, mas o Neto também vive ali. O clima ali sempre tem aquela vibe meio QG da quebrada.

Eu: Fala, seus pau no cu! Qual o agito de hoje, rapaziada? — Falei me jogando no sofazinho do Bigu, largadão.

Bigu: Ihhh, olha lá! Tá animadinho o vagabundo! — Bigu zoou, tirando onda. — Hoje eu não vou meter marcha em nada não, Pk. Tô agilizando o baile de amanhã, e ele promete lucro bom... Então vou fechar os cálculos e separar mercadoria hoje à noite. — Explicou, concentrado no trampo dele.

Assenti, largado, mexendo no celular.

Neto: Pô, Pk. Hoje tô de plantão aqui na boca. Só largo amanhã. — Neto falou, encostado, sem muita expressão. Cansado, na real.

Eu: Demorô então, rapa. Já que o rolê tá morto, vou passar lá na Carol... desestressar. Fazer aquele reset de piranha, tá ligado!? — Levantei do sofá rindo, e os dois começaram a rir da minha cara.

Bigu: Fala pra ela que eu mandei um beijo! — Bigu falou rindo. Carol era figurinha marcada, rodava geral, sempre aparecia atrás de um patrocínio. Mas era gostosa. A maldita sabia que mexia com a cabeça dos cara.

  Quebra de Tempo 

Sexta-feira 22:00 e uns quebrados

Depois que saí da casa da Carol — que, por sinal, nem fiquei muito tempo —, voltei pra casa no pique de descansar. Tomei um banho e acabei capotando, porque a noite anterior tinha sido pesada: o plantão foi meu.

Acordei lá pras 21:30, meio grogue, fui direto tomar outro banho e joguei no corpo uma bermuda preta. Fiquei sem camisa mesmo, por causa do calor. Quando saí do quarto, vi a Malu jogada no sofá, com cara de tédio. A TV ligada, mas ela mexia no celular sem dar muita moral pro que passava na tela.

Eu: Boa noite, minha princesa! — Falei alto, me aproximando de repente. Vi o susto estampado no rosto dela e não aguentei rir. — Tá devendo, é? Assusta fácil demais, pô!

Malu: Cala a boca, idiota. Achei que nem ia acordar hoje mais... — Respondeu dando de ombro. — Mas e aí, meu príncipe? O que vamos fazer hoje? Tenho que aproveitar esses raros momentos em que meu irmão tá em casa, né?

Eu: Ihh, rapá! Quem vê assim até acha que a novinha é um anjo... — Brinquei, dando um tapinha leve na cabeça dela. Ela tentou revidar com um tapa mais forte, como sempre. — Mas ó, e se a gente ver um filme de terror? Tu escolhe o filme e eu peço a comida. Fechou? — sugeri.

Ela abriu um sorrisão, daquele tipo que eu não via fazia tempo, e já saiu organizando a sala animadona.

Desde sempre é eu e Malu pra tudo. Esses últimos meses foram uma correria danada... movimento, invasão, operação da PM — tudo ao mesmo tempo. Ela não tem ninguém além de mim. E, pra ser sincero, Malu é difícil de fazer amizade. Não é frescura, é sobrevivência mesmo. Toda vez que alguém se aproximou foi por interesse, e no fim ela que sempre se machucava.

Tirando eu e os meninos, a única pessoa que ela confia é a Lú, que trabalha com a gente cuidando da casa. Cozinha, limpa, acolhe... é como uma mãe. Vem sempre de segunda a quinta. No resto da semana, dou folga porque ela merece. A Lú sempre cuidou muito bem da gente.

Meia hora depois, os hambúrgueres chegaram. Fui na porta receber e pagar, e quando voltei, Malu já tinha arrumado tudo e escolhido o filme.

Nos ajeitamos ali, comendo e vendo filme, só curtindo. Aquela ali era a única mulher importante da minha vida. Mesmo me tirando do sério às vezes, é meu motivo de continuar respirando.

Malu morria de medo de filme de terror, e eu rachava de rir com ela se assustando por qualquer coisa. Quando o filme acabou, zoei um pouco, porque eu sabia que se não distraísse a mente dela, nem dormir ia dormir.

Ficamos mais um tempinho jogados no sofá, mexendo no celular e rindo do povo no Instagram. Depois de um tempo, ela capotou ali mesmo, no meu ombro. Peguei no colo com cuidado e levei até o quarto dela, no segundo andar. Coloquei na cama, dei um beijo no topo da cabeça e fechei a porta.

Organizei a sala de leve e subi pro meu quarto.

Tava no tédio, e como sempre, sem sono.

Peguei uma seda na gaveta da minha mesa, um pacotinho de maconha, bolei um baseado e fui pra varanda. Mas antes, acendi um cigarro, deitei na rede e fiquei só... pensando. A cabeça rodando nos mil corres.

Amanhã era dia de baile. Ainda tinha um monte de coisa pra resolver sobre organização, segurança, mercadoria, som...

Levantei da rede, acendi o beck e me debrucei na varanda. Peguei visão da mata que fica no fundo do morro. Ali tem uma trilha escondida, rota de fuga se der algum B.O.

Foi aí que reparei na casa do lado. Depois de anos vazia, agora tem morador. Estranho ter vizinhos. A casa tava escura, só uma meia-luz acesa na varanda dos fundos. E lá estava ela...

A mina de mais cedo.

Toda tatuada, de calcinha e top, com o cigarro na mão. O corpo dela tava todo na minha visão. Ela parecia viajando, alheia ao mundo, com os olhos perdidos em algum pensamento distante.

Meu olhar percorreu aquele corpo sem pressa. Ela realmente era gostosa.

Acho que notou minha presença, porque logo apagou o cigarro, virou o rosto só de canto e entrou, fechando a porta sem sequer olhar pra trás.

Ela parecida diferente da maioria.

Passava um ar de frieza... tipo que não se abala por nada, nem ninguém.

Terminei de fumar meu baseado, entrei, me joguei na cama... e finalmente o sono veio.

No Complexo do AlemãoOnde histórias criam vida. Descubra agora