MARATONA 02/03
Bia Narrando
Eu: Ah, eu nem tenho uma história tão impactante assim — Começo meio tímida, mas Bigu me encara daquele jeito dele, como se estivesse vendo através de mim, me fazendo soltar o que realmente queria esconder. — Tá bom, tá bom... — Respiro fundo. — Nasci e cresci em São Paulo, favela mesmo. Vi o corre de perto desde pequena. E tipo... eu era praticamente prima do dono do morro onde morava, então essa parada de baile, tráfico, favela... nada disso me assusta, tá ligado? Nem você sendo um dos donos do morro. Porque isso não define quem você é. Isso não dita teu caráter. — Falo com firmeza, e vejo um sorrisinho surgir no canto da boca dele.
Eu: Minha mãe me criou praticamente sozinha. Meu pai era alcoólatra, viciado em droga pesada... agredia minha mãe, aquelas cenas horríveis, sabe? Ele só parou quando eu já tinha uns nove anos.
O clima pesou. Minha voz vacila por um segundo, mas continuo.
Eu: Um dia, ele chegou transtornado... veio pra cima de mim. Totalmente fora de si. Bêbado, drogado. Só que... os caras do corre não deixaram. Fizeram justiça com as próprias mãos ali mesmo, na minha frente.
Bigu fez uma cara de dó, aquela expressão que eu mais detesto ver.
Bigu: Nossa... sinto muito, loira...
Eu: Não precisa sentir, não — Falo, mais seca do que eu queria soar. — Eu odeio esse olhar de pena, esse papo de que sou frágil. Eu não sou. Essa merda toda que vivi não me define. Ter um pai bosta não me transformou numa coitada. Não me fez fraca, muito menos vítima da vida. — Solto um leve sorriso. — Não tô julgando quem sente isso, longe de mim... mas eu escolhi ser firmeza. Trabalhar pelo certo, conquistar minhas paradas sozinha, ajudar minha mãe em tudo. Estudei, corri atrás, lutei. E consegui, na moral mesmo. Tenho orgulho da mulher que me tornei. Se tudo isso foi o que moldou quem eu sou hoje... então, sem medo nenhum, eu viveria tudo de novo.
Dou um gole na cerveja e olho pro lado, ele ainda ali, prestando atenção em cada palavra que sai da minha boca.
Bigu: Porra... tu é uma mina muito cabeça, admirável mesmo, loira — Ele diz, colocando uma mecha do meu cabelo atrás da orelha com aquele sorriso safado que só ele tem.
Eu: A doida da Gabi eu conheço desde os meus doze anos. Vizinha no morro. A gente estudava na mesma escola, mas quase não se falava. Até que um dia eu tava metida num tumulto e ela apareceu do nada, enfiando o bedelho. — Faço aspas com os dedos — Claro que fiquei puta, né? Pensei "que garota folgada, acha que preciso de alguém pra me defender?" E foi aí que tomei um tapa na cara da vida. Porque a Marrenta olhou na minha cara e disse que não tava ali pra me defender porcaria nenhuma. Que entrou no rolo porque adorava um tumulto mesmo. Disse que era o passatempo favorito dela.
Dou risada com a lembrança e vejo ele me acompanhando na gargalhada.
Eu: Foi ali que eu percebi: "achei minha alma gêmea na encrenca". Viramos melhores amigas no mesmo dia. Quando a mãe dela morreu, ela me chamou pra vir pro Rio com ela... e, mano, é uma vida só. Não pensei duas vezes. Aceitei e vim viver tudo intensamente. E é isso... essa sou eu, João Gabriel. — Digo, com um sorrisinho de canto.
Ele dá risada sem graça quando ouve o nome inteiro.
Bigu: Quem vê essa lata aí de patyzinha, não imagina o corre todo que tem por trás, hein, loira?
Eu: A cara engana, né não? — Falo colocando a mão no queixo e fazendo um biquinho debochado.
A conversa foi fluindo... troca de ideia, uns beijinhos ali e outros aqui, o clima tava gostosinho, a vibe daquele rolê tava perfeita. Nosso peixe chegou, comemos ali mesmo, bebendo uma breja gelada, zoando, trocando mais ideia. E mesmo com tudo aquilo sendo tão simples... foi um dos melhores momentos que vivi em tempos.
A tarde foi passando e o sol se pondo devagar... e posso falar? Foi bonito pra caralho. Tinha uma paz no ar, parecia que o tempo tinha parado só pra gente ali. A companhia dele me deixava leve, sabe? Com ele eu conseguia ser eu mesma, conversar sobre qualquer coisa, desde meu passado até os planos pro futuro. Contei sobre o apê que comprei, sobre o comércio que eu e Gabi queríamos abrir. Ele curtiu, apoiou, contou da infância dele no morro, como conheceu os moleques. Senti que a conexão entre a gente crescia a cada papo.
O sol se despediu no horizonte e, como tudo que é bom dura pouco, começamos a guardar as coisas pra ir embora. No carro, antes mesmo de ligar o motor, ele solta:
Bigu: Tem hora pra estar em casa?
Solto uma gargalhada.
Eu: Tu sabe que eu sou maior de idade, né? Hahaha.
Bigu Não foi isso que eu quis dizer, sua besta — Ele fala, balançando a cabeça com um sorriso no rosto. — Vai que já tem compromisso com a marrentinha...
Me aproximo, falando bem perto da boca dele:
Eu: Meu único compromisso hoje é com você, gatinho...
Bigu: Tudo que eu precisava ouvir — Ele responde no mesmo tom e me rouba um beijo. Intenso, demorado, daquele jeito que a gente perde até o fôlego.
Depois disso ele dá a partida e seguimos pro morro. Mando mensagem pra Gabi avisando que vou dormir fora, ela responde rapidinho, e eu acabo cochilando no caminho de volta.
QUEBRA DE TEMPO
Acordo com um selinho leve e a voz dele, rouca, no meu ouvido:
Bigu: Chegamos, dorminhoca.
Dou um sorrisinho sem graça.
Eu: Foi mal... nem vi que dormi.
Bigu: Não tem que se desculpar, loirinha. — Ele diz calmo. — Vem, vem...
Saímos do carro e vejo que estamos na garagem de uma casa — a dele, imagino. Pego minhas coisas e ele segura minha mão, me guiando pra dentro.
Bigu: Essa é minha casa — Fala, começando a me mostrar os cômodos, deixando minha bolsa no quarto dele.
O lugar era aconchegante, mais do que eu imaginava. Tinha dois revólveres ali, um radinho, mas tava tudo no lugar. Não vou mentir, fiquei até impressionada.
Bigu: Esse é o banheiro. Pode tomar banho primeiro, fica à vontade — Ele fala meio sem jeito, como se não soubesse muito bem como agir com uma mulher dentro da casa dele.
Eu: Tá doido? Você que é o dono. Vai na frente. E relaxa... eu já tô me sentindo em casa — Digo com um sorriso leve.
Ele sorri de canto e, depois de um pouco de insistência, vai primeiro. Quando ele entra, fico na sala... e começo a viajar.
Penso em simplesmente meter o louco e entrar naquele banheiro junto com ele. Mas aí paro. Ele nem me chamou, né? Talvez não seja o momento.
Aí começa o surto interno. Ele me trouxe pra casa dele, passou o dia todo comigo... e agora nada? Será que ele tá afim de mim mesmo? Será que tem alguém? Penso em mil coisas, olho ao redor, mas não vejo sinal de mulher nenhuma por ali. Nem foto, nem bagunça de casal. Será que falei demais? Será que tô forçando?
Enquanto minha cabeça gira, nem percebo o tempo passar. Só noto quando ele sai do banheiro e chama minha atenção.
Ele tá só de bermuda preta. Sem camisa.
E, mano... que visão.
Bigu: Prontinho — Ele diz, me tirando dos pensamentos mais safados que minha mente começou a criar. Sorrio sem graça e sigo pro quarto pra tomar meu banho.
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No Complexo do Alemão
FanfictionDois destinos entrelaçados, um morro, e uma cidade que nunca dorme. Gabriela Rippi, 24 anos, tem uma história marcada por perdas e superações. Moradora de São Paulo, ela acaba de perder a mãe e, com a dor ainda fresca, decide deixar tudo para trás...
