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Pk Narrando

Sexta-feira 02:38
22/12/2023

A madrugada tinha um silêncio estranho.
Não que fosse realmente silenciosa — na boca, o movimento nunca para. Sempre tem alguém descendo o beco, vendendo, comprando, gritando, rindo.

Mas ali, da laje, parecia outro mundo. Eu via tudo de cima, como se fosse um general olhando as tropas. O barulho chegava abafado, como se o vento cortasse a realidade antes dela me alcançar.

Acendi mais um baseado. A brasa do baseado ilumina meu rosto num reflexo rápido. Trago fundo, sinto a fumaça preencher os pulmões e arder na garganta. Solto devagar, observando a espiral sumir no vento da madrugada. Eu já perdi as contas de quantos beck queimei nesses últimos dias. Perdi a conta de quantas noites não dormi. O corpo pede descanso, mas a mente não cala.

Fazia dias que eu não dormia direito. Na real, fazia dias que eu não vivia direito. Tudo parecia ter perdido o sentido. O morro continuava rodando — a boca vendendo, os vapores no corre, o dinheiro entrando — mas dentro de mim tava tudo travado.

Me fechei de vez.
Dei corte até nos mais próximos. Falei o mínimo, respondi o básico, deixei Bigu, Neto e PP resolverem o que dava. Eu, dono do morro, virei um fantasma andando nos próprios becos.

Era isso que eu precisava mostrar: frieza, controle, firmeza. O PK.
Mas o Pedro... o Pedro tava à beira de mais um surto.

Cada vez que eu fechava os olhos, era o rosto dela que vinha.

Gabriela... Ah minha marrenta!

Apagada numa cama de hospital, ligada em fios e máquinas, sem me responder, sem revidar uma provocação, sem jogar na minha cara uma provocação debochada.

O silêncio dela tava me matando mais que qualquer guerra que ja aconteceu nesse morro.

E eu não falava pra ninguém.
Não mostrava pra ninguém.

Mas o medo tava aqui, colado no meu peito, esmagando. Medo de perder o único vínculo real que eu já tive na porra dessa vida.

Traguei de novo, mais forte. Soltei a fumaça olhando os becos lá embaixo.

Culpa. Era esse o gosto amargo que não saía da boca a dias...

Eu deixei ela.

Briguei, virei as costas, me envolvi com a desgraçada da Layla, achei que era só mais uma mina no meu pé. Não percebi que tava sendo feito de otário. Não percebi que ela tava tramando comigo, vigiando cada passo meu, me manipulando e usando!

E no meio disso... Eu perdi meu filho.
O filho que eu nem sabia que existia.

O filho que eu nunca pude conhecer, nem pude conversar com ele ainda dentro da barriga, a barriga que nem chegou a crescer...

Fechei os olhos e apertei os punhos. A brisa fria da madrugada não dava conta de apagar o fogo que me queimava por dentro. Eu queria gritar, quebrar tudo, meter bala no nada e em tudo. Mas não podia. Eu era o dono do morro. Eu tinha que ser frio, não podia demonstrar fraqueza pra nada e ninguém.

Só que oque mais fode tudo é quando penso nela... Quando penso nela e tudo volta na mente eu não sei ser frio.

Um barulho qualquer na rua me trouxe de volta. Olhei pro beco, mas já não via nada. O baseado queimava lento entre os dedos.

A brisa bate forte, gelada, e eu fecho os olhos por um instante. É aí que a memória me invade. Não como uma lembrança qualquer. Mas como se fosse um filme passando na frente dos meus olhos.

No Complexo do AlemãoOnde histórias criam vida. Descubra agora