Gabi Narrando
Segunda-Feira 03:29
09/10/2023
O sono pesado me envolvia, me mantendo naquele estado entre a inconsciência e a realidade. Meu corpo parecia grudado no colchão, e eu sequer percebi quando meu celular começou a vibrar ali no canto da cama. O som abafado das notificações insistentes finalmente conseguiu atravessar a barreira do meu sono, me fazendo mexer de leve antes de abrir os olhos com dificuldade.
Ainda grogue, estiquei a mão, pegando o celular e piscando algumas vezes para tentar focar na tela. Diversas notificações de mensagens. Meu coração já deu um leve aperto antes mesmo de ver quem era. O ar dentro do quarto parecia mais denso, pesado de um jeito que me deixou desconfortável.
Quando meu olhar foi parar no relógio digital do aparelho, senti um arrepio subir pela espinha.
03:29 da manhã.
Franzi o cenho, tentando afastar a névoa do sono da minha mente. Quem caralho ia me chamar a essa hora?
Com a visão ainda meio turva, deslizei o dedo pela tela e vi o nome estampado nas notificações.
Itin
Meu estômago revirou na hora. Uma pontada latejou na minha cabeça.
Eu e Itin não nos falávamos com frequência desde que me mudei pro Rio. Ele era gerente do morro de Paraisópolis, o braço direito de André... e se ele tava me ligando essa hora, era porque alguma merda séria tinha acontecido.
Antes que eu conseguisse abrir as mensagens e entender o que tava rolando, o celular começou a vibrar de novo.
Chamada de Itin.
Meu coração disparou.
Um pressentimento ruim me atingiu como um soco no peito. O tipo de pressentimento que você não ignora, que te arranca do torpor do sono e te joga na realidade de uma vez só.
Sem nem pensar direito, aceitei a chamada e levei o celular ao ouvido.
Eu: Oi? — Minha voz saiu arrastada, ainda tomada pelo resquício do sono, mas firme.
Do outro lado da linha, a voz de Itin veio diferente. Mais baixa que o normal, rouca, carregada de um peso que eu não soube definir na hora.
Itin: Salve, Rippi...
Meu corpo gelou.
Ele nunca me chamava assim.
Meu peito apertou de um jeito estranho, desconfortável. Engoli seco, já sabendo que o que vinha a seguir não era coisa boa.
Eu: Que foi, Itin? Fala logo.
Ele respirou fundo do outro lado da linha.
Itin: Eu não queria ser portador dessa fita, Gabi...
Senti meu estômago embrulhar de vez. Me sentei na cama de uma vez, passando uma mão pelo rosto. Malu, ao meu lado, resmungou alguma coisa, se mexendo no colchão, mas continuou dormindo.
Eu: Fala de uma vez, caralho.
O silêncio que veio depois me deixou em alerta máximo.
Itin: O pior aconteceu.
Minha respiração falhou.
Antes mesmo de ouvir qualquer outra coisa, meu corpo teve a pior reação de todas. Levantei da cama num impulso, quase tropeçando nos lençóis, e fui direto pro banheiro. Joguei o celular na pia e me curvei sobre o vaso, sentindo tudo que tinha no meu estômago revirar e sair de uma vez.
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No Complexo do Alemão
FanfictionDois destinos entrelaçados, um morro, e uma cidade que nunca dorme. Gabriela Rippi, 24 anos, tem uma história marcada por perdas e superações. Moradora de São Paulo, ela acaba de perder a mãe e, com a dor ainda fresca, decide deixar tudo para trás...
