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Pk Narrando

Sexta-feira 21:55
22/12/2023

A noite já tava no meio, mas parecia que o tempo tinha parado desde a porra daquela oração na Dona Rosa. Saí de lá com a mente mais fodida ainda do que entrei. Eu, PK, dono do morro, abrindo o coração na frente de geral, pedindo pro "cara lá de cima" trazer a Marrenta de volta. Só de lembrar me dá raiva. Não dos outros — de mim mesmo. Me senti fraco. E fraco é a única coisa que eu não posso ser.

Subi pro meu canto, pro lugar que ninguém tem coragem de colar sem eu autorizar: o mirante. Hoje em dia é onde guardam parte da mercadoria, galpão improvisado, mas eu nunca deixei de ver como meu refúgio. Sempre que o peso bate, é pra cá que eu venho. A vista do morro todo iluminado, os becos brilhando como se fossem vagalume espalhado pela noite.

Acendi o baseado, sentei na pedra maior, puxei o fôlego e soltei devagar. A fumaça subindo e se perdendo no vento. Era a única coisa que me fazia desacelerar a mente. Mas nem isso tava dando conta mais.

Eu fiquei pensando na cena de mais cedo, minha voz tremendo na frente da minha irmã, dos parceiros, da Bifão. Porra, logo eu, que sempre fui pedra, que sempre fui gelo... falando de coração aberto, implorando por ajuda. Eu nunca me senti tão nu na frente de ninguém. E agora o vazio tava maior.

A cada trago, vinha uma lembrança. A Marrenta rindo, me xingando de folgado, me chamando pelo nome só pra me tirar do sério. E depois, o silêncio dela, imóvel naquela cama de hospital. Era isso que me matava: silêncio. Eu não sei lidar com silêncio. Prefiro mil vezes ela berrando na minha cara do que deitada daquele jeito.

Fechei os olhos, puxei outra vez o beck. O vento passou forte, gelado, e eu senti o arrepio subir pela espinha. Eu travei na hora. Abri os olhos e olhei pro céu.

E foi aí que aconteceu.
Uma estrela riscou no alto, piscou mais forte do que qualquer outra. Só uma piscada, rápida, mas intensa, como se fosse só pra mim.

Travei, respirei fundo, senti meu coração dar um pulo no peito. Na mesma hora, como se alguém tivesse apertado o "play" na minha cabeça, veio a lembrança do meu pai. A voz dele, grossa, firme, como se estivesse do meu lado:

Não esquece quem cê é, moleque. Tu nasceu pra ser homem, não covarde.

Fechei os olhos com força. Era como se ele estivesse ali, me chamando no braço, igual fazia quando eu vacilava. Eu podia jurar que senti a mão pesada dele no meu ombro.

Levanta a cabeça, Pedro. Homem não foge, encara.

Quando abri os olhos de novo, a estrela já tinha sumido. O vento parou. Só sobrou eu, com o coração disparado.

Joguei o beck longe, sem pensar. Levantei da pedra num pulo. Eu sabia que aquilo era um sinal. Podia parecer brisa pra qualquer um, mas pra mim foi claro: meu pai me lembrando do homem que eu tinha que ser.

Desci a pedra rápido, liguei a moto. O ronco do motor quebrou o silêncio do mirante. Acelerei sem pensar muito, o vento batendo no rosto, as luzes dos becos passando borradas. Só sabia que precisava ir até a casa da Marrenta.

Cheguei já era quase dez da noite. A casa tava meio apagada, só uma luz fraca da sala acesa. Estacionei a moto, subi os degraus e bati na porta. Quem abriu foi a Bifão.

Ela arregalou os olhos na mesma hora, surpresa.

Bifão: Caralho, Pedro... até parece assombração aparecendo essa hora. — A voz dela tava firme, mas o olhar entregava o susto.

Eu: Fala aí, Bia. — Soltei, passando a mão no rosto, ainda ofegante da descida. — Tu vai descer no hospital hoje?

Ela cruzou os braços, encostando no portão.

No Complexo do AlemãoOnde histórias criam vida. Descubra agora