Gabi Narrando
Terça-Feira 02:00
10/10/2023
Seguimos em direção ao carro, Malu foi a primeira a entrar, ligando o aquecedor pra espantar o frio cortante da madrugada. O ar quente logo começou a preencher o espaço, trazendo um pouco de conforto depois da brisa gelada da praia.
Bifão se jogou no banco da frente se aconchegando fechando os olhos pesados, enquanto eu e Lara nos acomodávamos atrás.
A viagem de volta foi silenciosa. Mas não era aquele silêncio pesado, incômodo. Era um silêncio de paz. De fim. De despedida.
Malu dirigia sem pressa, como se cada curva fosse familiar, como se já soubesse que a gente precisava daquele tempo sem palavras. Bifão estava encolhida no banco da frente, observando as ruas, mas com um olhar distante, como se nem estivesse ali. Lara, ao meu lado, olhava pela janela, o rosto iluminado pela luz dos postes que passavam rápido demais. Ela parecia perdida nos próprios pensamentos, e eu entendi. Tava todo mundo processando o que seria daqui pra frente.
Olhei pro painel do carro. Já era duas da manhã. Estamos preste a chegar no Complexo, e por algum motivo, eu não tava cansada. Talvez fosse a adrenalina. Talvez fosse o peso saindo das minhas costas. Ou talvez fosse o fato de que, dali pra frente, todo aquele peso, a magoa e o passado que eu carreguei simplesmente não existia mais.
Quando entramos no morro, senti aquela sensação familiar me invadir. O Complexo que de um tempo pra cá era parte de mim, do meu presente, do meu destino. Não importava o que acontecesse, era aqui que minha história continuava.
Malu dirigiu até minha casa e estacionou na garagem. Assim que o motor foi desligado, um silêncio momentâneo tomou conta do carro.
Malu: Chegamos. — Ela se espreguiçou antes de abrir a porta, e eu fiz o mesmo.
Lara desceu junto comigo, o olhar atento ao redor, como se tentasse absorver cada detalhe daquele lugar que agora seria a casa dela. Eu reparei o jeito que ela mordia o lábio, um misto de curiosidade e receio.
Levantei o olhar pra varanda e vi a luz da sala acesa. Provavelmente um dos meninos estava ali nos aguardando.
Me virei pra Lara, que ainda analisava a casa, como se tentasse encaixar aquilo na realidade dela.
Gabi: Agora esse é o seu lar. — Coloquei a mão no ombro dela, apertando de leve, tentando passar segurança. — Amanhã eu te mostro tudo direitinho, mas por hoje, bora entrar e descansar.
Ela desviou o olhar pra mim, e por um momento, vi os olhos dela brilhando. Não de medo. Mas de emoção.
Lara: Obrigada, Gabi... — A voz saiu baixa, carregada de sentimento. — Por nunca ter saído do meu lado... mesmo depois de tudo.
O aperto no meu peito veio na hora. Respirei fundo, mas não teve jeito. Puxei ela pra um abraço apertado, sentindo o corpo dela relaxar contra o meu.
Gabi: A gente é família, né? Sempre vou tá aqui por você. — Falo e ela retribuiu o abraço, ficamos ali por alguns segundos, só sentindo aquela conexão.
Malu e Bifão foram entrando na frente, e eu segui logo atrás com Lara.
Amanhã seria um novo dia. Uma nova vida.
E eu tava pronta.
Assim que empurrei a porta da sala, a primeira coisa que vi foi o Bigu largado no sofá, celular na mão, com uma cara de quem tava prestes a apagar ali mesmo.
No outro sofá, Neto tava numa posição tão esquisita que parecia que o corpo dele tinha desistido de tentar achar conforto. Uma perna jogada por cima do encosto, a outra caída pro lado, braço esticado num ângulo impossível. Olhei aquela cena e soltei um riso baixo.
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No Complexo do Alemão
FanfictieDois destinos entrelaçados, um morro, e uma cidade que nunca dorme. Gabriela Rippi, 24 anos, tem uma história marcada por perdas e superações. Moradora de São Paulo, ela acaba de perder a mãe e, com a dor ainda fresca, decide deixar tudo para trás...
