Gabi Narrando - Subconsciente
Sábado
23/12/2023
Eu ainda estava aqui... Era como estar presa dentro de um eco.
Um eco sem som, sem começo, sem fim.
Eu não via nada, não sentia nada.
Era como se o mundo tivesse se apagado e me deixado sozinha num lugar onde nem o tempo existia.
O ar era denso, pesado, e parecia grudar no meu corpo.
A cabeça girava, o coração... parecia que tinha esquecido o motivo pra bater.
Tudo era esse maldito breu. — só um vazio estranho, sufocante.
E dentro desse nada, a dor me rodiava.
Devagar.
Cortando por dentro.
Eu sentia o peso no peito. Uma dor que eu conhecia, mas fingia não lembrar.
A dor da perda.
Da ausência.
Do que nunca chegou a existir completamente.
A imagem veio sem aviso:
eu, parada num corredor de hospital, o som de um monitor apitando, uma enfermeira falando baixinho, era como se eu estivesse ali sem estar.
Aquela notícia que me destruiu antes mesmo de me tocar.
O filho.
Nosso filho.
O pequeno milagre que o destino arrancou de dentro de mim sem me dar chance de lutar.
O chão parecia desabar debaixo dos meus pés, mesmo ali, naquele vazio.
O peito ardia, o ar sumia.
E pela milésima vez desde que tudo começou, eu estava com medo.
Medo de ficar presa ali pra sempre.
Medo de nunca mais sentir nada.
Eu: É isso, então... — Sussurrei, pra ninguém. — É assim que acaba?
Nenhuma resposta.
Só o vazio.
Fechei os olhos, tentando lembrar do som da vida, do riso da Bifão, da voz do Neto, do cheiro da rua, da música alta ecoando do complexo...
Mas tudo parecia distante demais.
Apagado.
Como se a favela inteira tivesse se calado junto comigo.
A dor aumentou.
E foi aí que o chão começou a tremer novamente igual a um terremoto esquisito.
Primeiro, leve.
Depois, forte.
Muito forte.
O vazio virou caos.
As sombras se retorceram.
E o ar, antes pesado, virou uma ventania que empurrava tudo pra longe, mesmo que ali não tivesse porra nenhuma alem da escuridão.
Olhei em volta, assustada.
O chão rachava, o céu despedaçava, e o som de algo desmoronando me fez correr.
Eu não sabia pra onde, mas o corpo se movia sozinho.
Cada passo era um grito.
Cada respiração, uma súplica.
O chão sob os meus pés virou poeira, e as paredes em volta se desfaziam como papel queimando.
O breu me engolia.
Mas à frente, algo começou a surgir.
Uma porta.
No meio de tudo.
Sozinha, velha, feita de madeira escura, grossa, como se tivesse nascido de um tronco de árvore antiga.
E bem na frente dela, uma única flor.
Amarela.
Viva.
Radiante.
Em volta, tudo seco, morto, murcho.
Mas aquela flor... parecia pulsar.
Parecia respirar.
Como se me chamasse.
Me aproximei devagar.
O vento aumentava, e tudo tremia em volta.
Cada passo era mais difícil.
Era como andar contra uma tempestade.
Quando cheguei perto da porta, ela começou a ranger bem alto.
Um som grave, como se algo dentro dela me chamasse também.
Fiquei parada.
Por um segundo, hesitei.
E se aquilo fosse o fim?
E se, ao atravessar, eu deixasse tudo pra trás?
Mas e se fosse o contrário?
E se ali fosse o começo de novo?
VOCÊ ESTÁ LENDO
No Complexo do Alemão
FanfictionDois destinos entrelaçados, um morro, e uma cidade que nunca dorme. Gabriela Rippi, 24 anos, tem uma história marcada por perdas e superações. Moradora de São Paulo, ela acaba de perder a mãe e, com a dor ainda fresca, decide deixar tudo para trás...
