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Gabi Narrando

Segunda-Feira 06:15
09/10/2023

O relógio no painel do aeroporto marcava um horário absurdo quando a gente finalmente conseguiu despachar as malas e pegar os cartões de embarque. Tudo parecia em câmera lenta, mas ao mesmo tempo, o tempo corria contra mim. Meu peito tava pesado, como se tivessem colocado um tijolo em cima do meu coração.

PP tinha nos deixado na porta do aeroporto e foi rápido na despedida. Ele sabia que a gente tava correndo contra o tempo e não quis prolongar nada. Um aperto de mão firme, um "se cuida" dito de um jeito sério e um olhar que dizia mais do que qualquer palavra.

Bifão tava muda. O olhar fixo, os dedos inquietos. Eu conhecia ela bem demais pra saber que, por dentro, tava desmoronando. Mas ela fazia o que sempre fez: segurava no osso, porque ceder nunca foi uma opção pra gente.

Assim que sentamos em nossas poltronas dentro do avião, puxei o celular do bolso e digitei rápido:

Eu: Tamo embarcando agora. Chegamos em 50 minutos.

A resposta veio na mesma hora, como se Itin já tivesse com o celular na mão esperando a minha mensagem.

Itin: Fechou. Placa do carro que vai buscar vocês: XXX-1234.

Respirei fundo, fechei os olhos por um instante. O barulho do aeroporto, as conversas paralelas, o som do motor do avião ligando... tudo se misturava, mas a única coisa que eu conseguia ouvir de verdade era o eco da última conversa que tive com Itin.

A gente tava voltando. Pra São Paulo. Pra encarar de frente uma despedida que nunca deveria acontecer.

...

O avião pousou em Guarulhos com um solavanco e meu coração quase saiu pela boca. Não de medo do voo, mas do que vinha depois. Meu estômago tava embrulhado, como se eu estivesse prestes a entrar numa guerra.

O atraso do voo só me deixava mais agoniada. Peguei o celular, os dedos nervosos deslizando pela tela, enquanto mandava mensagem pro Itin.

Eu: Chegamos. Cadê o carro?

A resposta veio em segundos.

Itin: Tô na homenagem ainda. Mas fica tranquila, ninguém vai deixar o caixão descer sem você chegar.

Meu peito apertou. Porra, aquilo parecia um pesadelo.

Encostei a testa na janela, soltando um suspiro pesado. Bifão do meu lado tava com os olhos fixos no banco da frente, mas eu via que os dedos dela tavam apertados ao redor da calça jeans. Ela tava sentindo tudo do mesmo jeito que eu.

Minha tela acendeu de novo.

Pk.

Arqueei as sobrancelhas. Não esperava isso. Desbloqueei o celular, lendo a mensagem curta.

Pk: Bigu me falou por alto oq rolou. Meus pêsames. Fica bem.

Só isso.

Fiquei encarando aquelas palavras como se fossem um soco no estômago. Seco. Vazio. Um "meus pêsames" automático, como se tivesse sido protocolar, como se fosse só uma obrigação.

Travei o maxilar.

Pk sempre foi assim. Calculista. Frio. Até quando me olhava daquele jeito intenso, até quando falava coisas que faziam meu corpo inteiro arrepiar. No fim, era isso. Ele nunca deixava ninguém ver além do que ele queria mostrar.

Com um suspiro pesado, bloqueei o celular e o joguei de volta no bolso. Eu tinha coisa muito mais importante pra pensar do que um cara que só sabia se esconder atrás da porra de um muro de gelo.

No Complexo do AlemãoOnde histórias criam vida. Descubra agora