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Neto Narrando

Domingo 16:57
17/12/2023

Desci a ladeira da boca com a mente fervendo. Os dedos tamborilando na lateral da bermuda, o maxilar travado e o coração numa mistura desgraçada de raiva, medo e culpa. Parecia que eu tava vivendo um inferno pessoal de merda. Já passei por muita coisa, mas ver a Marrenta naquela situação ali... puta que pariu.

Assim que pisei no beco da principal, nem olhei pros lados. Só dei o salve pros menor na contenção com um aceno rápido e fui direto pra salinha da boca. Minha e do Bigu. Era nosso quartel-general. Lugar onde a gente decidia tudo, contava grana, armava esquema, resolvia as merdas da quebrada. Só que hoje... nem parecia a mesma sala.

Empurrei a porta com força e entrei com o sangue latejando.

Eu: Caralho... — Murmurei pra mim mesmo.

Andei de um lado pro outro, como um cachorro sem rumo. A cabeça a mil. Cada passo meu era um pensamento torto. Gabi jogada no chão... sangue escorrendo da testa... olho fechado... barriga...

Eu: Filha da puta, Layla... eu juro que se algo grave acontecer com ela eu acabo com sua vida — Pensei alto

Me joguei no sofá, os cotovelos apoiados nos joelhos e os olhos fixos no chão e cada minuto que se passava parecia horas... As mãos tremiam, então no automático puxei o celular do bolso na ansiedade de ter alguma notícia, com o coração já na garganta, desbloqueei e ali tava a notificação.

Bifão: Já tamo na emergência e levaram a Gabi direto. Continua desacordada, Neto... — [15 min atrás]

Travei o maxilar nervoso, o polegar ficou parado por um segundo em cima da tela. O peito doía, como se tivesse um peso amassando meu pulmão.

Escrevi de volta com o dedo trêmulo.

Eu: Me atualiza assim que tiver qualquer notícia. Nem que seja mínima e fala pra ficarem com ela, não saírem de perto por nada. Tô a ponto endoidar aqui, Bifão.

A mensagem mal foi enviada e o celular vibrou de novo com a resposta

Bifão: A única coisa que a médica falou até agora é que ela ainda tá sendo atendida e esta desacordada. Tão fazendo de tudo pra estabilizar.

Fechei os olhos, respirei fundo e só respondi:

Eu: Se essa porra for culpa da Layla, eu juro que boto fogo nesse morro... Fica com ela, por favor. E qualquer coisa... qualquer coisa mesmo, me liga.

Abaixei o celular no colo e me deixei afundar. Foi aí que o peso real caiu sobre mim. Lembrei do ultrassom... da barriguinha dela crescendo... do "mano sementinha" do futuro que ela tava tentando proteger mesmo em meio a esse caos.

Eu: Ela tá grávida, caralho... — Falei alto, quase sem ar.

E então o nó na garganta virou lágrima. Eu chorei, chorei de verdade... Um choro que eu não tinha a tempos... Em silêncio, socando a própria perna e mordendo a boca. De raiva. De medo. De impotência.

Me levantei rápido e fui até a mesa. Abri a terceira gaveta, onde a gente escondia os "remédios" pra mente. Peguei o bagulho, tirei o kunk, desci com calma no sedex e comecei a bolar. Cada virada do papel era tipo uma reza. Minha mente pedindo por trégua, nem que fosse por cinco minutos.

Fechei, lambi, selou... E acendi.

A primeira bola... puxei fundo.
Segunda... mais lenta. O corpo deu aquela relaxada, mas o coração? Continuava um caos.

Fiquei ali fumando e neurando naquela porra todo por longos minutos...

...

Depois de um tempo, a porta da salinha rangeu e se abriu.

No Complexo do AlemãoOnde histórias criam vida. Descubra agora