Pk Narrando
Sábado 01:07
23/12/2023
O motor do carro roncava baixo, quase engolido pelo som da noite.
A descida do morro nunca pareceu tão longa. O farol cortava a neblina fina, desenhando vultos nas vielas, e a cada curva eu sentia o peito apertar mais.
A respiração travava, o ar pesava, e a única coisa que martelava dentro da minha cabeça era o nome dela.
Gabriela.
Minha Marrenta.
A porra do meu tormento favorito.
O Bigu tinha deixado tudo no esquema — carro limpo, rota segura, sem radar, sem ninguém no caminho.
Mas mesmo assim, eu ia com a mente atenta, como se a qualquer momento a PM fosse brotar e me arrancar dali.
Talvez fosse insegurança, talvez fosse só o peso do que eu ia encarar.
Porque, pela primeira vez, eu não tava indo pra guerra.
Tava indo ver a mulher que me desarmou sem nem precisar de arma.
O vento entrava pela janela, frio e cortante, batendo no rosto.
E, no meio daquele silêncio todo, as lembranças começaram a vir sozinhas, sem pedir licença.
O primeiro flash foi ela, rindo com a boca suja de molho de cachorro-quente lá na pracinha... A Marrenta debochando de mim, me chamando de "folgado", com os dedos todos lambuzados e o olhar mais vivo que eu já vi.
Depois, a lembrança virou — o churrasco no quintal, a voz dela ecoando no meio da bagunça, mandando em todo mundo como se fosse dona da casa.
E eu... fingindo que tava nem ligando pra ela, mas achando aquilo tudo a coisa mais bonita que já existiu no meu território.
Engatei a marcha, o asfalto apareceu, e a cidade começou a se abrir na frente.
As luzes da madrugada piscavam nas janelas, e o coração apertou mais.
Cada esquina eu me lembrava dela.
A risada no radinho, o susto que ela tomou vendo filme de terror com as meninas.
O "pinguinzinha" que virou piada, mas que, no fundo, carregava uma porra de um sentimento que eu nunca quis admitir.
Lembrei dela me zoando, enrolada na minha blusa do Flamengo, toda grandona, toda dela — e eu ali, fingindo que não me importava, quando na real eu já tava fodido há muito tempo.
Suspirei fundo, os dedos apertando o volante.
Naquela hora, eu percebi: não era só culpa.
Era medo de nunca mais ouvir aquela voz rouca me chamando de "Pedro" só pra me provocar.
Medo de ter deixado pra depois o que devia ter falado antes.
Medo de olhar pra ela e ver o corpo, mas também a alma pura e sincera que ela carregava.
O relógio do painel marcava 01h23 quando estacionei na rua lateral do hospital.
A brisa ali era fria, diferente do morro.
O silêncio também.
Aquela porra de silêncio de lugar limpo, branco, asséptico... que parece mais morte do que paz.
Vesti o capuz, respirei fundo, e caminhei devagar pela lateral do muro, como o Bigu tinha me explicado.
Uma entrada de emergência, com o portão enferrujado e só um segurança cochilando numa guarita.
Bifão tinha dito que o enfermeiro do plantão era deles — e que me esperaria na porta do corredor.
E lá estava ele: magro, cansado, com olheiras fundas e um cigarro apagado entre os dedos.
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No Complexo do Alemão
FanfictionDois destinos entrelaçados, um morro, e uma cidade que nunca dorme. Gabriela Rippi, 24 anos, tem uma história marcada por perdas e superações. Moradora de São Paulo, ela acaba de perder a mãe e, com a dor ainda fresca, decide deixar tudo para trás...
