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Pk Narrando

Sexta-Feira 11:35
13/10/2023

A quebrada tava daquele jeitão, barulho de radinho pipocando nos becos, cheiro do bom queimado no ar e as vozes dos moleques ecoando nos barrancos. Quando cheguei na frente da boca, estacionei a moto ali, tirei o capacete e joguei por cima do banco.

Bati o olho pra frente e já saquei a movimentação acelerada. A principal tava fervendo: os vapores iam e vinham, alguns com sacola, outros com os radinhos colados no ouvido, todos no corre do dia. Olhares nervosos, atenção redobrada... do jeitinho que eu gosto.

Adentrei o barraco principal com o a expressão fechada. Bigu tava ali, no canto da mesa, já no pique da linha de frente. Tava com a prancheta na mão, celular no bolso e o radinho preso no peito, passando pente fino em tudo: lista de vapor, quantidade de pino, quem ia render quem, onde ia cada bagulho...

Bigu: Aí, caralho... Gira essa porra aí direito. Não quero ver radinho fora do lugar, não. — Ele falava firme com uns vapores, contando os pacotes na prateleira.

Fui passando por cada canto da boca, conferindo os detalhe, reparando no rosto de cada um. Quando vi dois vapores encostados no canto rindo de bobeira, parei seco.

Eu: Ô, ô, ô! — Levantei a voz. Os dois já ficaram tensos. — Que porra é essa? Dia de baile não é dia de fazer graça, não. É atenção redobrada. Vacilou hoje, pode custar caro.

Vapor: Foi mal, PK, a gente só tava... — um deles tentou explicar.

Eu: Só tava o caralho. Quero postura, disciplina. Tu acha que os polícia não sabe que vai ter baile hoje? Eles tão só esperando a gente dar mole. Bora trabalhar.

Os dois assentiram com a cabeça e saíram na missão.

Continuei andando entre os cômodos apertados, conferindo os malotes, os rádios, os celulares de emergência. Peguei o radinho de um dos vapores ali na beira da porta e já chamei:

Eu: PP, me copia. Vem na contenção aqui rapidão, visão?

PP: Tô na escuta, chefia. Chego em dois — a voz firme dele soou pelo rádio.

Virei de volta pra frente da mesa, onde Bigu já tinha se aproximado com as folhas nas mãos. Ele largou a prancheta no tampo e puxou conversa:

Bigu: Já organizei onde cada vapor vai tá no baile. Posição estratégica, os mais novos ficam fora, só observando. Os antigos nos pontos de entrada e dentro do baile, de olho em tudo.

Eu: Boa. E os aliados? Confirmaram presença? — Perguntei, pegando uma das folhas pra dar uma olhada.

Bigu: Confirmaram. Os do Juramento, da Serrinha e uns lá da Baixa. Mas é só curtição mesmo, sem cobrança.

Assenti, jogando o papel de volta na mesa.

Eu: Fechamento total então... Mas visão: quero geral ligado, Bigu. O baile vai lotar. Vai ter gente de fora, playboy querendo pagar de malandro, mina de quebrada e muito olho grande. PP vai ficar no meio rodando direto, mas preciso de você organizando a retaguarda.

Bigu: Pode deixar. Já passei a visão nos moleque. Qualquer movimentação estranha, é pra travar na hora. Sem conversa.

Eu: Isso aí. — Dei um toque nele. — Hoje vai ser baile de respeito. Mas qualquer passo em falso, vai ter resposta. Não quero briga, não quero confusão, mas se tiver... Vai descer geral.

Bigu balançou a cabeça afirmando, já ligando pro próximo da lista pra passar a visão. Nesse momento, PP entrou pelo fundo do barraco com o radinho na mão, arma na cintura e o semblante fechado.

No Complexo do AlemãoOnde histórias criam vida. Descubra agora