Algumas semanas depois
Gabi Narrando
Quarta-Feira 14:20
13/12/2023
Já fazia algumas semanas desde aquele dia na praia com o Neto. Desde então, tudo andava mais calmo... Ou pelo menos eu tentava acreditar nisso.
Tinha conseguido marcar a segunda consulta do pré-natal, e como sempre, a Bifão tava fechadona comigo. Ela e o Neto eram os únicos que sabiam. O resto... seguia as cegas.
Pela manha quando fui ao pré natal, a médica confirmou que eu tava exatamente com dois meses e poucos dias... e o coraçãozinho do sementinha batendo forte de novo me desmontou por dentro. Neto segurou minha mão o tempo inteiro, e quando aquele som preencheu a sala, ele travou. O bicho arregalou os olhos, ficou ali com um sorriso besta, emocionado... e eu? Me controlei como pude, mas umas lágrimas teimosas escaparam. Ele apertou minha mão de leve e me olhou com aquele jeitinho dele, meio bobo, meio sincero.
A médica, por outro lado, já não era tão fofa assim. Falou que o começo ainda era delicado, que minha anemia tinha melhorado um pouco, mas que ainda estava lá então eu precisava continuar o repouso, manter a calma, e nada de estresse. Fácil né? Tava grávida do Pk, vivendo no meio do Complexo, e mantendo tudo em segredo...
Desde então, eu tava deitada direto, me sentindo uma planta decorativa mas por outro lado a cabeça não desligava. Layla ainda era um fantasma me rondando. Aquela conversa estranha na farmácia me corroía por dentro, e quanto mais eu fuçava, menos eu achava. Sem nome todo, sem sobrenome, só aquele rostinho batido que não saía da minha mente. Eu stalkeei até a alma da menina, mas não consegui puxar nada concreto. Só aumentava minha desconfiança.
Estava no quarto, deitada de lado, encarando o teto e vagando sei la por onde em meus pensamentos. Meu celular em cima da barriga, Spotify tocando baixinho uma playlist de rapzin que o Neto tinha feito pra mim (segundo ele: "pra me deixar mais calminha").
A porta escancarou do nada com um estrondo.
Neto: E AÍ MINHA GATA CRIMINOSA PREFERIDA! CHEGUEI COM O MELHOR PRESENTE DA SEMANA! — Neto invadiu o quarto como um furacão de alegria e barulho.
Eu: Caralho, Neto! Tu vai me matar do coração qualquer dia desses! — Falei, rindo e ajeitando o travesseiro nas costas.
Ele nem se importou. Se jogou na cama, se esparramando do meu lado, com aquele jeitão largado e leve. Meteu a mão no bolso da bermuda e tirou uma coisinha num plástico, colocando na minha mão com orgulho.
Neto: Falei que ia conseguir, porra. Tá aí ó, a bosta do doce de abóbora, nojento pra caralho que tu gosta... Tu falou ontem com uma vontade que parecia até uma picanha.
Eu: AAAAAAH NÃO, TU É PERFEITO! — Agarrei ele com força, dando uns tapas carinhosos no ombro dele. — Você é o melhor primo do mundo, sem zoeira.
Neto: E o mais gostoso também, mas isso ninguém fala. — Ele debochou, rindo alto.
Eu: Ah vá à merda! — Gargalhei, me ajeitando de novo, colocando o doce na boca com gosto. — Hmmm... Eu tava sonhando com isso.
Ele me olhou de canto, com aquele olhar que misturava zoeira e preocupação. Ficou em silêncio por uns segundos, me observando comer aquele doce com uma alegria quase infantil.
Neto: Sabe que eu tô orgulhoso de você, né? — Ele soltou do nada, sério agora. — Tá sendo forte pra caralho... mesmo com tudo isso, segurando nas costas, sendo grandona.
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No Complexo do Alemão
FanfictionDois destinos entrelaçados, um morro, e uma cidade que nunca dorme. Gabriela Rippi, 24 anos, tem uma história marcada por perdas e superações. Moradora de São Paulo, ela acaba de perder a mãe e, com a dor ainda fresca, decide deixar tudo para trás...
