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Gabi Narrando

Sexta-Feira 06:30

Acabei de sair do morro, com a estrada à nossa frente e a Bifão lá, já mexendo no som, como sempre, escolhendo uma música. Sabia que ia ser um bom momento. Quando ela escolhe "Calma na Alma" do ConeCrewDiretoria, eu dei um sorriso de canto de boca. A música é bem antiga, mas marcante, então comecei a cantar junto com ela, e claro, a Bia me acompanhou no coro. Foi risada atrás de risada.

(ConeCrewDiretoria - Calma na Alma).

...

Bifão: Amiga, quanto tempo é até o Rio? — Ela me perguntou, com a cara de quem está tentando se localizar no próprio pensamento.

Eu: São seis horas, amiga. — Falei, pegando a direção com firmeza. — Eu dirijo por três horas, e você assume o volante nas outras três.— Ela concordou com um aceno, sem pestanejar.

Bifão: Tá, tá, mas vamos parar pra comer no meio do caminho, né? — Ela me olhou com aquela cara de quem já tá planejando a próxima refeição.

Eu: Como assim? Tá loucona, né? Você acabou de comer e já tá pensando em comida? — Soltei uma risada de desdém. Bifão simplesmente deu de ombros, sem se preocupar com nada.

Bifão: Óbvio, comer é vida! — Ela riu, e eu não pude deixar de concordar com o argumento, embora meu estômago estivesse quase implorando por mais uma parada.

A estrada foi passando rápido, com a gente trocando ideias, fofocas e risadas. O tempo parecia até voar com o som das músicas tocando e a conversa que não parava. No meio do caminho, paramos em um posto de gasolina para abastecer, e como não poderia faltar, aproveitamos pra dar uma olhada na conveniência.

Eu: Vou querer um café e um pastel de queijo. E tu? — Perguntei, já imaginando o que Bifão ia pedir.

Bifão: Um café também, mas com enrolado. — Ela respondeu, com aquele sorriso de quem tem um segredo guardado.

Pedi pra moça, e logo nos entregaram os pedidos, mas a gente não parou por aí. Pegamos também dois energéticos, um pacote de chips e uns chocolates pra viagem. Já sabíamos que ia ser uma longa jornada.

Moça do caixa: Deu 53,00. — Ela falou, sem emoção alguma. — Mais alguma coisa?

Eu: Sim, vou querer também dois Trident e um maço de Porto Faria. — Cigarro de palha, o que é bem estranho, mas não vivo sem.

Moça do caixa: Total 78,00. — Ela me olhou, como se fosse um absurdo, e eu apenas paguei sem questionar. Sabia que, no posto, as coisas eram sempre mais caras, mas não tinha muito o que fazer.

Voltamos pro carro, e depois de muito papo, resolvi que ia dirigir o resto do caminho. O tempo foi passando tão rápido que eu mal percebi quando chegamos no Rio. O mar já estava ali, maravilhoso, com suas ondas batendo, e o clima quente no ar, me dando aquela sensação de novo começo. A ideia era até parar na praia, mas o estômago já estava pedindo socorro, então decidimos seguir direto pro morro.

Ao chegarmos na entrada do morro, vi quatro garotos, que a essa altura já identificava como vapores, com fuzis nas costas. Eles estavam de olho no nosso carro. Eu já sabia que os fuzis iriam ser apontados pra gente. Não é novidade. O olhar desconfiado dos caras já me indicava que a situação ia esquentar. E, como de costume, a abordagem foi inevitável.

Chegamos perto da entrada e, como já esperava, todos os vapores estavam com as armas apontadas pra gente.

Carro:

Abaixei o vidro e vi a surpresa nos olhos deles ao nos ver

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Abaixei o vidro e vi a surpresa nos olhos deles ao nos ver. Eles relaxaram e abaixaram as armas quase imediatamente.

Vapor 1: O que as novinhas querem? Perderam o rumo de casa? — Ele falou com um sorriso irônico, e os outros riram da situação.

Bifão: Nem perdemos, somos novas moradoras.— Ela disse, com aquele tom de desaforo, causando uma pausa.

Vapor 2: Ah, tá. Tá, tá... Mas e aí, o que vamos fazer? — Ele hesitou, claramente não sabendo se estava lidando com alguém mais perigoso ou apenas com novas caras.

Bifão: Bate o radinho na chefia de vocês aí que vão saber.— Ela falou, já com uma autoconfiança que não dava espaço pra ninguém duvidar.

Vapor 2: Patrão, tá podendo falar. — Ele perguntou, com um tom de respeito que logo se desfez quando a resposta veio.

Pk: Que foi menor, fala logo. — Voz firme, do outro lado

Vapor 2: Tem duas novinhas aqui embaixo querendo subir.— Ele fez uma pausa e, com a voz mais baixa, completou — Estão falando que são novas moradoras.

PK: Ah, tá. Pode liberar. Dona Rosa me falou mesmo — Com a voz agora mais relaxada

O silêncio que seguiu foi quebrado apenas pelo som do rádio desligando. Quando o Vapor  abaixou a arma e fez um gesto para liberarmos a entrada, o caminho estava claro. A tensão se dissipou, mas eu sabia que não era todo o caminho que estava tranquilo.

Subimos com o carro, e, como eu não fazia a menor ideia de onde ir, virei para um carinha que estava subindo o morro com o fuzil nas costas. O fuzil parecia até ser uma extensão do corpo dele, mas eu sabia que ele tinha mais do que um simples olhar de quem faz o corre.


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