Alguns dias depois
Pk Narrando
Quinta-feira 11:50
17/08/2023
A semana tava insana. O tráfico no morro explodiu — 57% de aumento só de uma semana pra outra. A boca fervendo dia e noite, cria rodando turno dobrado e a responsa batendo direto no meu peito. Só essa semana eu já tinha injetado mais de 700 mil em mercadoria e armamento novo. E o que vinha aí... era a cereja do bolo. Uma carga pesada, cocaína importada, gringa das mais puras, vinda direto dos bolivianos. Se esse bagulho girar como a gente tá esperando, o lucro vai ser surreal. Bigu tá até cogitando fechar entrega mensal dessa parada.
Neto ficou com a responsa dos armamentos — e não foi pouca coisa. Chegaram na madrugada de ontem:
121 fuzis.
80 pistolas.
23 submetralhadoras.
21 espingardas.
18 revólveres.
16 metralhadoras.
E ainda umas granadas pra reforçar.
Mês passado a PM tentou invadir umas quatro vezes, e mesmo com a pressão em cima, conseguimos segurar a linha. A estrutura tá forte, os becos estão blindados, e a confiança da rapaziada em mim só aumenta. A boca tá pulsando.
Com o corre acelerado, eu nem tava conseguindo dar atenção pra Malu. Mesmo ela estando mais próxima das amigas, parecia que a gente tava se afastando. E isso me corroía por dentro. Eu não conseguia ser só o irmão dela, nem só o dono do morro — viver no meio disso era uma batalha interna. Mas eu prometi pra mim mesmo: depois que essa carga entrar e tudo se estabilizar, vou dedicar tempo pra ela. Ela merece isso de mim.
Já fazia três dias que eu, Bigu e Neto távamos virados no plantão. A carga era importante demais pra correr risco. Estudamos rota por rota, esquema por esquema, e agora — finalmente — parecia que tudo tava no lugar.
Joguei meu corpo na cadeira, respirei fundo e comecei a bolar um verdão. Bigu tava largado no sofá com Neto, como se o mundo estivesse leve. Terminei, sentei perto deles, botei fogo no balão e puxei.
Eu: Ih, Bigu... passa aí mais uma vez quem vai tá na linha de frente desse carregamento de hoje — Falei soltando a fumaça, já sentindo a mente relaxar um pouco.
Ele soltou um sorriso de canto, rindo do meu grilo.
Bigu: Pô, viado... já te falei isso umas seis vezes só hoje — Disse se espreguiçando — Mas relaxa, chefe. Tá tudo redondo. Tu tá noiado demais com essa fita.
Passei a mão nos cabelos e balancei a cabeça, ainda com aquele peso no pensamento.
Eu: Tô mesmo. Essa porra não pode dar errado, Bigu. Repassa aí, caralho. Última vez.
Ele passou o beck pro Neto e começou.
Bigu: Quem vai pilotar o caminhão é o Sr. Izac, o mesmo de sempre. O cara é antigo no corre, sangue frio e carro discreto. No banco do carona vai o Luizin, filho dele, o da 08. Na frente vai um carro de escolta com o Paulão e o menor que você exigiu na responsa...
Eu: PP — Completei de imediato, assentindo com a cabeça. — Esse menor tem futuro. Coração no lugar. Se não vacilar, vai crescer bonito.
Bigu: Esse mesmo. Atrás, outro carro de escolta com o Igão e aquele menor lá do beco leste, casa 456. O caminhão vai direto pro galpão 006, descarrega tudo lá e os cria descem a mercadoria pra boca. Até amanhã às seis da manhã, tudo vai tá nas tuas mãos.
Antes mesmo de eu responder, Neto já entrou na ideia:
Neto: Já deixei 12 menor selecionado pra linha de frente na distribuição. Quando a carga chegar, eles já vão tá na sala empacotando e pesando. Até as 18h tudo vai tá separado e espalhado pelo morro.
Sorri, satisfeito.
Eu: É disso que eu tô falando, porra! — Bati palma e fiz um toque com os manos. — Assim que essa carga estiver aqui, vai rolar churrascão. Os cria tudo vai tá presente. Vagabunda à vontade, bebida, churras e fumaça. Hoje é dia de comemorar, caralho.
Eles riram comigo. Bigu e Neto tavam do meu lado desde os tempos em que tudo era mato — ou melhor, poeira. Era bom ver esses dois firmes, leal, focados.
QUEBRA DE TEMPO
Sexta-feira, 05h50
O barulho do radinho me tirou do transe. Ele tava largado na mesa, mas aquele estalo me botou no modo alerta na hora. Peguei e respondi:
Eu: Fala, PP. Tô na escuta. Qual foi?
PP: Carregamento finalizado, patrão. Caminhão tá subindo pro morro. Tudo certo.
Fechei os olhos por um segundo, respirei fundo e levantei num pulo da cadeira.
Eu: AÍ, RAPAZIADA! A ESTRANGEIRA TÁ NO MORRO, PORRA! — Gritei na boca com a voz estourando de empolgação.
O efeito foi imediato. Cria comemorando, assoviando, uns três vapores correndo pra fora dar tiro pro alto, fogueteiro metendo foguete no céu pra anunciar. O bagulho tava selado.
Neto: DEMOROU, RAPAZIADA! — Neto gritou logo depois — OS 12 QUE EU SEPAREI, BORA PRA SALA DE DISTRIBUIÇÃO! MÁSCARA, LUVAS, FOCO! ATÉ O ALMOÇO QUERO MAIS DA METADE PESADA! ORGANIZAÇÃO TOTAL!
Vi os menor correrem, prontos pro serviço. Aquilo ali era o coração do morro pulsando forte, e eu era o sangue correndo dentro dele.
Bigu colou do meu lado rindo.
Bigu: Tu tá parecendo o tio Patinhas, viado. Tirando onda e cheio da grana.
Soltei uma gargalhada forte, daquela que vem do peito.
Eu: Sempre tive inveja daquele pato filha da puta.
E a risada do Bigu veio junto. Porque ali, naquele momento, o morro tava vivo. E era nosso.
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No Complexo do Alemão
FanfictionDois destinos entrelaçados, um morro, e uma cidade que nunca dorme. Gabriela Rippi, 24 anos, tem uma história marcada por perdas e superações. Moradora de São Paulo, ela acaba de perder a mãe e, com a dor ainda fresca, decide deixar tudo para trás...
