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Gabi Narrando

Sexta-feira 13:07

Entramos no restaurante e, mano... parecia que eu e Bifão éramos duas et's entrando. O povo nem tentava disfarçar, encarando sem o menor pudor. A gente foi direto pro balcão, e quem veio atender foi uma guria novinha, devia ter uns 17 no máximo.

Gisele: Boa tarde, meu nome é Gisele, o que desejam? — Disse com um sorriso forçado, claramente curiosa.

Eu: Boa tarde, queria falar com a Rosa. — Respondi firme.

Ela saiu apressada, entrou ali pros fundos — cozinha, imagino — e voltou acompanhada de uma mulher de presença. Tia Rosa. Nem velha, nem nova... cara de quem já viveu muita coisa e ainda segura a onda no olhar.

D. Rosa: Olha só quem tá aqui! Minha menina... como você cresceu. Tá ainda mais linda. — Falou abrindo um sorrisão.

Eu: Oi, tia Rosa. — Falei meio sem jeito, não esperava tanto carinho de cara assim.

D. Rosa: E essa lindona aí do seu lado? — Perguntou olhando pra Bifão.

Eu: Essa é a Beatriz, tia. Minha melhor amiga. Trouxe ela comigo de Sampa. — Apresentei.

D. Rosa: Que coisa boa! — Respondeu animada. — Senta numa das mesas que eu mesma vou trazer a comida de vocês. Vou caprichar na especialidade da casa.

Bifão quase brilhou o olho. Tava mais animada que criança em véspera de Natal.

Eu: Tia... a casa fica muito longe daqui? — Perguntei, antes dela virar as costas.

D. Rosa: Que nada, minha filha. É logo ali. — Disse tirando um molho de chaves do bolso. — Aqui ó, as chaves. Se quiser, pede pro Neto te mostrar. Ele tá ali, naquela mesa. — Apontou pra uma galera mais pra frente.

Fiz que sim com a cabeça e fomos sentar perto da janela, umas três mesas de distância do Neto. Conversamos uns dez minutos até a Rosa voltar com a porra do banquete: porção de batata frita, dois pratões com arroz, feijão, bife à milanesa e salpicão. Ainda meteu uma Coca gelada no meio.

D. Rosa:  Aqui tá, minhas queridas. Espero que gostem. — Disse toda sorridente.

Eu: Tia... cê arrasou, sério. Tudo que é comida, a gente ama. — Falei, já vendo a Bifão atacando como se tivesse jejuado 3 dias.

Tia Rosa deu uma risada, mas antes de voltar pra cozinha, chamou:

D. Rosa: Neto! Vem cá rapidinho. — Olhei pra trás e vi ele vindo com mais três pessoas, entre elas uma mina de cara fechada, com um ranço que dava pra sentir do outro lado da mesa.

Neto: Fala comigo, rainha. — Disse ele, tirando onda.

D. Rosa: Gabi se mudou hoje, mostra pra ela onde fica a casa. É a número 723 da rua sem saída. Faz esse favor pra sua mãe. — Disse, e só aí eu juntei as peças. Neto era filho da Tia Rosa. Caralho. Tamo falando de primo?

Neto: Aih sim marrentinha... Vai ficar num ponto bom e protegido, não é pra qualquer um ser vizinho do dono do morro. — Falou rindo, e eu só continuei comendo meu almoço sem dar muita moral.

Neto: Pode deixar, mãe que mostro sim. Marrenta, quando terminar aí, só colar lá fora que eu te levo. — E saiu. 

Terminamos de comer, trocamos mais ideia, e fui até o balcão.

Eu: Tia, tua comida é dos deuses. Obrigada de verdade. — Falei com sinceridade.

D. Rosa: Que isso, menina! Fico feliz demais que cê gostou. — Disse toda boba.

Eu: E quanto deu?

D. Rosa: Por conta da casa, oras! — Respondeu.

Eu: Ah para, tia! Fala logo quanto deu, vamo parar com essa palhaçada. — Ela riu sem graça.

D. Rosa: Ficou 48,60.

Dei uma nota de 50 e nem quis o troco.

Eu: Obrigada mesmo. Agora partiu, que tenho uma casa inteira pra ajeitar.

Fui saindo com a Bifão, e lá fora tava o Neto... com a mina azeda do lado. Cara amarrada ainda. Dei um sorrisinho maroto.

Eu: Então quer dizer que o famoso Neto é meu priminho caçula? — Soltei rindo, vendo Bifão rir junto.

Neto: Que isso, novinha... Tô entendendo mais nada! — Ele riu — Mas vamo lá, a casa de vocês é ali mesmo. Vou na frente andando, segue com o carro atrás.

Deixamos ele ir na frente com a emburrada, e fui até o carro.

Bifão: Vamo, chatinha. Tem muita coisa pra organizar ainda. — Disse Bifão com cara de preguiça.

Eu: Ai que saco... — Resmunguei enquanto entrava no carro.

Seguimos por uma rua nem tão estreita. Tinham só duas casas: grandes, bonitas. Neto já tava lá, parado na frente da nossa nova casa. A mina do ranço entrou na casa ao lado.

Estacionei, saímos.

Bifão: A casa parece grandinha, hein. — Falou Bifão.

Neto: Ela é sim, a galera mais antiga da quebrada diz que ela foi construída junto com a do lado, sem divisa, sem muro sem nada, tipo uma grande família... Mas parece que com o tempo o dono foi embora e dividiram  — disse Neto, e eu continuei na minha, só observando.

Eles ficaram trocando umas ideias, ele se despediu, e aí... a nova fase da nossa vida começava.

No Complexo do AlemãoOnde histórias criam vida. Descubra agora