Gabi Narrando
Quinta-Feira 02:23
12/10/2023
A porta fechou atrás de mim com aquele estalo seco, como se fosse um aviso. Um tapa na alma.
Desci as escadas da casa do PK sem olhar pra trás, o coração batendo tão alto que parecia que chegava a dar falta de ar.
O frio da madrugada bateu na pele úmida. O short grudava na minha coxa, a blusa — que eu ainda vestia a dele — estava exalando seu cheiro.
Cruzei a rua devagar, o chinelo fazendo um barulho idiota no asfalto. A porra da quebrada estava em silêncio e minha cabeça gritando para ficar.
As palavras dele ainda ecoava baixa na mente. Carregada e sincera.
E eu fugi.
Destranquei o portão de casa tentando não fazer barulho. O breu da sala me envolveu, mas eu já conhecia cada canto de cor.
Dei uma leve observada por ali e vi as meninas largadas no sofá. Malu com a perna por cima da Bifão, Lara abraçada numa almofada besta. Todas dormindo pesado, em paz.
E eu ali... Com a guerra explodindo dentro de mim.
Subi devagar pro meu quarto. Cada degrau fazia eco nos meus pensamentos.
Abri a porta, entrei e fechei com cuidado.
Me encostei por um segundo ali e respirei fundo tentando voltar ao eixo.
Meu corpo ainda doía nos lugares que ele tocou e marcou.
Os dedos dele. Os beijos. As estocadas, tudo naquele milésimos de segundo me lembrava ele.
A porra do jeito que ele me tocou, o cuidado, a olhava e por fim a frase que ele disse;
"Fica aí hoje."
Caralho. Aquilo me desmontou.
Deitei na cama, com o lençol completamente esticado e intocado. Fechei os olhos, mas só conseguia ver ele.
Aquele olhar firme. A raiva contida. A decepção disfarçada.
A porra do silêncio dele.
No fundo eu sabia que tinha estragado tudo... Eu me entreguei, falei, senti e assumi tudo.
E quando ele pediu pra mim ficar... Eu recuei.
Porque no fundo... Eu ainda tinha duvidas e medo.
Medo daquele maldito tapa, medo daquele Pk, do odio que o cercava e dominava quando ficava cego.
Medo daquele PK que sumiu por um mês sem explicação.
Medo de sentir tudo sozinha de novo.
Medo de me afundar num amor que talvez só existisse na minha cabeça.
Mas porra... eu senti.
Ele me olhava como se eu fosse dele, como se não tivesse mais nada fora daquele quarto que importasse. (E no fundo eu gostava daquilo)
E eu fui lá, com a porra da coragem na mão... Para no final eu deixar ela fugir entre os dedos.
Agora tô aqui, deitada, o corpo ainda quente, mas a mente em combustão.
Bipolar do caralho.
Hora sentindo saudade, hora querendo fingir que nada aconteceu.
Eu: Tu é burra, Gabriela... — Sussurrei pro teto, com a voz baixa.
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No Complexo do Alemão
FanfictionDois destinos entrelaçados, um morro, e uma cidade que nunca dorme. Gabriela Rippi, 24 anos, tem uma história marcada por perdas e superações. Moradora de São Paulo, ela acaba de perder a mãe e, com a dor ainda fresca, decide deixar tudo para trás...
