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Gabi Narrando

Quinta-Feira 11:27
12/10/2023

A fumaça do cigarro já tinha se perdido no ar fazia tempo, e o silêncio ali em cima do mirante já não pesava como antes. O Neto ficou quieto, respeitando meu tempo, como sempre fez, e eu, por mais confusa que ainda estivesse, sentia o coração um pouco mais leve.

Talvez não fosse alívio, talvez fosse só aquela sensação de quando a gente divide o peso com alguém de verdade. Levantei primeiro, bati a cinza na pedra e joguei a bituca do cigarro no chão. Neto se levantou logo depois e a gente desceu em silêncio, sem precisar dizer nada. O caminho era conhecido, o ritual também. A moto esperava onde Neto deixou, e a descida foi tranquila, o vento batendo no rosto e levando embora, pelo menos por enquanto, parte do turbilhão que ainda morava em mim.

Ele me deixou na porta de casa e tirou o capacete, me olhando com aquele jeito que misturava zoação com preocupação.

Neto: Vai sobreviver sem mim por hoje, Marrenta? — Ele falou me provocando

Eu: Você se acha ne garoto!? — Retruquei na mesma intensidade, mas no fim assenti com um meio sorriso cansado

Neto- Qualquer coisa, me chama. Agora vou lá na boca que tem uns malucos querendo tretar por causa de rádio trocado. Como se já não bastasse o PK com esse baile na cabeça... — Falou passando a mão na nuca e bufando. Eu ri.

Eu: Vai lá, gerente da paz. Cuida das tuas crias. — Zoei

Neto: E tu cuida da tua cabeça, que é mais perigosa do que qualquer fuzil. — Ele respondeu dando partida na moto

Por fim deu um aceno com a cabeça e acelerou, sumindo na próxima esquina. Respirei fundo antes de abrir o portão. Assim que entrei, a mudança de energia foi automática. A casa tava um caos — no melhor dos sentidos. — Música alta rolando, as caixas das compras da Lara espalhadas pela sala, papelão no chão, plástico bolha já estourados. As meninas subindo e descendo com sacolas, rindo, cantando, dançando enquanto tentavam montar o quebra-cabeça do quarto novo.

Malu: Lara! Tua cadeira veio com pé a mais ou cê encomendou um balanço pra duas? — Gritou la de cima

Lara: Se tiver espaço pra duas, melhor ainda, que aí eu e a Marrenta sentamos juntas e ficamos futricando a vida dos vizinhos — Ela respondeu alto no meio da escada

Eu subi já rindo, esquecendo por uns instantes o peso que tava no meu peito. As vozes delas me puxavam de volta pra vida.

Soltei uma risada ao pensar isso. Entrei no quarto no meio da confusão e me joguei na cama de Lara, que ainda tava com o colchão no chão, sem estrado.

Eu: Tô vendo que cês tão se divertindo, hein?

Bifão: Não só estamos, como já jogamos a missão de parafusar e montar no colo do Bigu. Cadeira suspensa, prateleiras, penteadeira... ele que lute. — A loira disse rindo enquanto organizava algumas coisas no guarda-roupa

E sem perceber, eu já tava ajudando a carregar um espelho enorme pro quarto da Lara, equilibrando entre a moldura e as caixas organizadoras.

Passamos um bom tempo ali, cantando todas as musicas possíveis, dançamos como se fosse baile, zoamos até não conseguir mais. Em um momento, Malu botou um batidão e Bifão gritou "JOGA NO CHÃO, MARENTA!" e eu fui mesmo. Rebolei, gritei, fui até o chão enquanto elas me empurravam de volta rindo. A alegria era tanta que por um tempo, esqueci de tudo. Do PK, da porra do "fica", do texto frio da mensagem no grupo.

Depois de um bom tempo, com quase tudo em seus lugares, a gente se jogou no colchão de Lara que ainda tava no chão, ofegantes, rindo e reclamando da bagunça. A cadeira suspensa ainda tava desmontada.

No Complexo do AlemãoOnde histórias criam vida. Descubra agora