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Gabi Narrando

Terça-Feira 14:12
14/11/2023

Eu tava sentada no banco branco daquele hospital, ainda com a pulseira de identificação no pulso e o encaminhamento da obstetrícia nas mãos, como se fosse um papel qualquer... Mas que pesava como uma tonelada. Bifão tava do meu lado, firme como sempre, me encarando com aquele olhar de quem queria puxar tudo de mim sem precisar de palavra.

Mas nem eu sabia o que puxar de dentro de mim agora. Era como se eu tivesse travada, num lugar onde só minha respiração e os batimentos do meu coração – agora não mais só meus – faziam algum som.

Grávida. Eu tava grávida.

E o nome que martelava na minha mente era um só: Pedro Henrique. O PK.

A última vez que eu tinha visto ele foi naquele baile maldito. Depois disso, eu me tranquei em mim mesma e fiz de tudo pra não cruzar mais com ele. Evitava os lugares, os horários, os olhares. Me escondia no asfalto, me afundava nos projetos do Delux, me agarrava em cada coisa que pudesse ocupar a cabeça e não deixar espaço pra sentir. Porque sentir era perigoso demais. Principalmente quando se tratava dele.

E agora... um filho dele. Um filho nosso.

Bifão: Gabi, tá pronta? — Bifão me cutucou de leve, tirando do transe.

Assenti com a cabeça e levantei, caminhando com as pernas meio bambas até a porta da triagem. Entreguei o papel à enfermeira, que me chamou pelo nome e me guiou pra dentro. Respondi tudo que ela perguntava, mas era como se fosse no automático. Idade, última menstruação, histórico familiar... tudo era só ruído no fundo da minha mente que só conseguia repetir: "eu tô grávida, eu tô grávida, eu tô grávida..."

Saí da salinha e voltei pro lado da Bia. Ela segurou minha mão com força, como se dissesse "tô aqui", sem precisar dizer.

Eu: Eu tô com medo, Bia... — Soltei, finalmente, depois de tanto calar.

Ela me olhou, surpresa por eu ter falado. Porque eu quase nunca falo. Porque eu aguento tudo no peito e jogo pro fundo. Mas dessa vez era diferente. Dessa vez... era maior que eu.

Eu: Tô com medo de não conseguir ser mãe... de dar ruim, de perder esse bebê por estar tão fodida emocionalmente. Tô com medo de contar pra alguém, porque nem eu acredito ainda nisso. Tô com medo de contar pra ele, Bia. Pro PK. Como eu vou contar isso pra ele? Eu nem consigo encarar o cara! Porra eu to muito fudida.

As lágrimas escorreram com força, meu corpo cedeu, e eu apoiei a cabeça no ombro dela. E, como sempre, ela tava lá. Me acolhendo no silêncio, fazendo carinho no meu cabelo, segurando minha mão.

Bifão:  Marrenta... Tu não tá sozinha, tá? Respira. Chora o que tiver que chorar, mas não deixa esse medo te paralisar, agora cê carrega uma vida. Cê é forte, mas não precisa ser sozinha. Tamo junto nisso. E tu não pode se entregar ao emocional, o médico falou. Vamos passar por isso de boa. Cada etapa, uma por vez.

Respirei fundo, tentando engolir o choro, e sem nem pensar passei a mão bem de leve sobre a minha barriga. Ainda reta, ainda invisível... mas ali dentro tinha alguém.

Enfermeira: Gabriela Rippi? — A enfermeira chamou do outro lado.

Eu: Sou eu — Respondi, levantando com as pernas ainda meio fracas.

Entramos na sala da médica, uma mulher morena, de cabelos cacheados presos num coque, com óculos na ponta do nariz e um sorriso acolhedor no rosto.

Dra. Ana: Boa tarde Gabriela, muito prazer sou a Dra. Ana a obstetra responsável. — Ela se apresentou gentilmente — Podem se sentar e ficar a vontade. E você é...?

No Complexo do AlemãoOnde histórias criam vida. Descubra agora