66

109 2 1
                                        

Alguns dias depois

Gabi Narrando

Sábado 19:30
16/12/2023

Era um sábado à noite, daqueles que parecem com cara de domingo.

O céu tava cinza desde cedo, o friozinho tomava conta da casa, e o relógio marcava 19:30 quando percebi que a sala já tava tomada. O sofá tava lotado, o tapete também, e até a mesinha de centro tinha virado apoio de pé e balde de pipoca.

Tava todo mundo ali, como já era de costume. E, sinceramente? Eu amava essa rotina.
Mesmo que ultimamente eu não soubesse mais como me encaixar nela...

Bigu e Bifão tão daquele jeitinho meloso que os dois viraram depois que se assumiram. Um grude até que fofo de ver. Ela deitada no peito dele, rindo baixinho das bobeiras que ele cochichava no ouvido.
Neto tava esparramado em cima de mim igual um cachorro grande carente, como sempre. A mão dele fazia carinho distraído na minha perna, e vez ou outra ele soltava um comentário aleatório que fazia geral rir.
Malu e Lara tavam grudadas, claro. Essas duas criaram um laço forte demais, pareciam até irmãs.

Na TV passava algum filme tosco, tipo  as branquelas, ninguém prestava muita atenção, mas servia de fundo sonoro pras conversas bobas que iam surgindo ali no meio.

Neto: Mano, se vocês pudessem ir para qualquer lugar do mundo para morar um tempo, pra onde iriam?! as vezes fico brizando nessa ideia e sem duvidas eu iri pro Japão. Ficar lá um ano comendo miojo diferente todo dia — Neto soltou do nada, com a cara séria.

Bifão: Ah não, parceiro... Tu ia pra outro lado do mundo pra comer miojo? Pelo amor de Deus, cê é um desgosto gastronômico — Bifão retrucou, rindo alto.

Lara: Ah eu acho que iria pra Los Angelis... Muitos artista, gente rica e lojas de grife! — Lara se meteu. — Acho que eu me adaptaria bem.

Risos, zoeiras, piadinhas soltas.

Mas eu? Eu só observava.

Na real, minha mente tava longe dali. Na última noite eu tinha tido um sonho — ou melhor, um pesadelo — tão real que até agora mexia comigo.

Tava no morro mesmo, e tinha rolado uma emboscada para Pk, gritaria, tiro, desespero. Eu via tudo em câmera lenta. E no desespero, eu me jogava na frente dele e levava um tiro..  E antes de tudo escurecer, eu confessava que amava ele. O detalhe mais cruel? No sonho... eu perdia o bebê.

Acordei ofegante, chorando. Com a mão na barriga e o coração apertado. Desde então, nada conseguia me distrair.

Malu: Tu tá estranha, Gabi. — A voz da Malu quebrou minha bolha.

Levantei os olhos e ela me encarava com aquela expressão que misturava carinho e cobrança.

Eu: Desculpa... Tô meio aérea hoje. — Murmurei, tentando forçar um sorriso.

Malu: Eu sei... é que, sei lá, as vezes sinto tua falta.— Ela falou sem rodeios, sem se importar que todo mundo ouvia. — Já tem dois meses desde a última merda com o meu irmão, e cê tá cada vez mais distante, e eu entendo, de verdade. Mas antes de qualquer coisa entre vocês dois, antes desse rolo todo, a gente era amiga, Gabi. Eu tava com você pra tudo, e agora... é como se eu não tivesse mais espaço.

Senti o peso das palavras. Engoli seco.

Gabi: Você tá certa, de verdade, mas cê não é o problema, Malu. Sou eu, eu que me fechei nos últimos tempos... E tô lidando mal com tudo, mas cê é muito importante pra mim. — Falei com sinceridade, sentindo aquele nó no peito se apertar.

No Complexo do AlemãoOnde histórias criam vida. Descubra agora