Gabi narrando
Domingo - 22:35
10/09/2023
O dia tinha sido longo e pesado. A guerra mais cedo ainda rodava na minha cabeça, como se cada disparo ainda ecoasse no ar. Mesmo depois que tudo acalmou, a tensão continuava ali, presa no peito.
Passamos o dia no restaurante da Dona Rosa, ajudando como podíamos. Desde cedo, o combinado era transformar aquele espaço em um ponto de acolhimento. Pk já tinha avisado a comunidade pra evitar circular, porque numa situação dessas, quem não tem nada a ver sempre acaba pagando o preço.
Dona Rosa tinha feito daquele lugar mais do que um restaurante. Ali, era um refúgio. Mulheres, mães e crianças que não tinham pra onde ir ou que só precisavam de um canto seguro vinham pra cá. Era mais do que comida quente e teto, era acolhimento de verdade.
Malu disse que quando a guerra estourava, Pk sempre alertava o pessoal. Ele podia ser muita coisa, mas não deixava a quebrada desprotegida. E hoje não tinha sido diferente. Enquanto o morro pegava fogo, a gente se juntou pra ajudar quem precisava.
A invasão deixava todo mundo tenso. Mesmo com a conversa no restaurante girando em torno do que podia acontecer, eu tentava manter a calma e ajudar da melhor forma possível. Mas, por mais que meu corpo estivesse ali, minha mente estava completamente em outro lugar.
Eu não conseguia parar de pensar na noite anterior, na conversa com Pk no mirante, no jeito como ele apareceu, no que disse sobre mudança... Tudo isso bagunçava minha cabeça de um jeito que eu não sabia explicar. Eu não tinha certeza do que sentia por ele, mas uma coisa era certa: a presença dele me afetava, sempre.
E, como se já não bastasse a confusão na minha mente, ainda tinha a questão com Thierry. Ele continuava sem responder minhas mensagens, sem atender minhas ligações, e isso me corroía por dentro. Nunca fui de lidar bem com incertezas, com pontas soltas... E essa situação mal resolvida só tornava tudo ainda pior.
Depois de um dia tão tumultuado, finalmente estava em casa. A guerra já tinha terminado fazia algumas horas e, graças a Deus, tudo correu bem. A noite caiu, e o silêncio dentro de casa parecia mais pesado do que o normal. Eu estava sozinha. Sem Bifão, que foi dormir na casa do Bigu – coisa que já estava virando costume – e sem Malu, que resolveu ir pra casa passar um tempo com o irmão, depois de dias fugindo dele.
Enquanto minha mente girava com esses pensamentos, a campainha tocou. Franzi a testa, estranhando. Quem viria até aqui a essa hora?
Levantei sem muita hesitação e fui até o portão. Ao abrir, dei de cara com Th, parado ali, me encarando com uma expressão difícil de decifrar. Havia algo diferente nele, um peso no olhar, uma preocupação que me fez ficar imediatamente em alerta.
Aqui está a reformulação mantendo o tom e o cenário da história:
Th: Oi, Gabi. Posso entrar? — A voz dele veio carregada de algo que eu não esperava, um peso que me fez travar por um segundo.
Eu: Claro, entra. — Respondi, me afastando para abrir passagem.
Assim que ele cruzou a porta e eu a fechei atrás de nós, o ambiente pareceu mudar. A tensão no ar era quase palpável. Ele parecia inquieto, com algo preso na garganta, e eu já imaginava que essa conversa não seria fácil.
Nos sentamos na sala, e por um instante tudo ficou em silêncio. Mas não era um silêncio qualquer. Era pesado, carregado de coisas não ditas, de uma amizade que já não parecia mais a mesma e de sentimentos confusos que pairavam entre nós.
Th: A gente precisa conversar. — Ele finalmente quebrou o silêncio, mas não me olhou de imediato. Seu olhar ficou preso no chão, e a hesitação em sua voz só deixou claro o quão difícil aquilo era pra ele. — Eu não consegui parar de pensar em você nesses últimos dias... — A confissão veio baixa, quase como se ele estivesse falando mais pra si mesmo do que pra mim.
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No Complexo do Alemão
FanficDois destinos entrelaçados, um morro, e uma cidade que nunca dorme. Gabriela Rippi, 24 anos, tem uma história marcada por perdas e superações. Moradora de São Paulo, ela acaba de perder a mãe e, com a dor ainda fresca, decide deixar tudo para trás...
