Pk Narrando
02:15 da madrugada
Levantei pra mijar e aproveitei a deixa pra descer até a cozinha, a sede tinha batido forte. No caminho, dei uma conferida no quarto da Malu — tava largadona, apagada do mesmo jeitinho que deixei mais cedo. A cena me aliviou um pouco. Mas o sono? Já era. Tava no grau, corpo aceso e mente mil por hora.
Voltei pro quarto, joguei o lençol de lado e fui direto pra minha gaveta. Bolei um baseado no automático, com a prática de quem já fez isso mil vezes. Em poucos minutos, tava na varanda, puxando o primeiro trago e sentindo a onda subir de leve. A fumaça dançava no ar, enquanto meus pensamentos rodavam em espiral. Paz... por cinco minutos.
O susto veio seco quando o rádio em cima do criado-mudo chiou, cortando o silêncio da madrugada.
Vapor: Patrão tá na ativa? — A voz do vapor soou firme, mas com aquele respeito que só o comando impõe.
Me aproximei devagar, já sentindo que vinha merda.
Eu: Fala. Qual foi o B.O.?
Vapor: Pegamos um mano roubando morador aqui na quebrada, chefe. Qual o proceder?
Cerrei os dentes. Só de ouvir, minha paciência já foi pro caralho.
Eu: 2T, tô colando. Arrasta o comédia pro forninho que tô chegando.
Vapor: Demorô, chefe.
Abaixei o rádio com calma. Mas por dentro, o sangue já tava fervendo. Essas ideia de vacilão fazendo zona no meu morro me deixava transtornado. Todo mundo no movimento já sabia: comigo não tem caô. Regra é regra, e se tem uma coisa que eu não tolero é desrespeito com morador.
Vesti uma bermuda preta, joguei a peita do Flamengo no peito, calcei o chinelo e enfiei o cano na cintura, por baixo da camisa. Peguei o rádio e desci na maldade. Em menos de dois minutos, eu já tava no grau, acelerando a moto rumo à boca.
Quando cheguei, a visão era aquela de sempre: seis vapores espalhados, cada um em sua função. Um menorzinho veio na minha direção, apressado, e bateu continência.
Vapor: Patrão, fui eu que dei o toque. O comédia tá lá no forninho.
Eu: Qual teu vulgo, menor? — Perguntei, me aproximando dele com olhar firme.
PP: Pepe, chefe.
Eu: Drm, PP. Me acompanha. O resto vai caçar um serviço, porra! Tem droga pra empacotar e vocês aí moscando!
Falei alto, pra geral ouvir. Não gosto de ver nego parado, ainda mais com perreco rolando.
Seguimos rumo ao forninho, uma salinha nos fundos da boca. Espaço pequeno, úmido, com cheiro de mofo e medo. Quando entrei, a cena já tava armada: Um cara jogado no chão, nariz sangrando, olhar perdido. A cara de "inocente" dele me irritou de primeira. Falsidade tem cheiro, e o desse aí fedia.
Arrastei a cadeira e me sentei de frente pro otário. Tirei o ferro da cintura e deixei em cima da mesinha, fazendo questão de não dizer nada. Só encarei. O silêncio, às vezes, fala mais que qualquer grito.
Eu: E aí, camarada... vai me dar o papo ou vai continuar nessa encenação ridícula? — Falei travando o maxilar.
— Não aconteceu nada, chefe... foi tudo um engano. — Ele disse gaguejando, a voz trêmula.
Ri de deboche, aquela risadinha seca que precede o caos. Passei a mão pelo rosto, respirando fundo. Já tava com ódio.
Eu: Teu nome, comédia?
VOCÊ ESTÁ LENDO
No Complexo do Alemão
FanfictionDois destinos entrelaçados, um morro, e uma cidade que nunca dorme. Gabriela Rippi, 24 anos, tem uma história marcada por perdas e superações. Moradora de São Paulo, ela acaba de perder a mãe e, com a dor ainda fresca, decide deixar tudo para trás...
