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Gabi Narrando

Segunda-Feira 19:52
09/10/2023

O relógio na parede marcava pouco mais de 19h, e a casa ainda parecia um formigueiro. Vapores entrando e saindo a todo momento, cochichando pelos cantos, trazendo informações, distribuindo tarefas. O cheiro de cigarro e suor misturado com o calor abafado deixava o ar pesado. Ninguém ali queria descanso, não agora. André tinha sido enterrado, mas a guerra... a guerra ainda tava longe de acabar.

Eu tava largada no sofá da sala, celular na mão, confirmando os detalhes das passagens. Nem sei dizer se minha cabeça tava ali de verdade. Era estranho, tudo aquilo ali, a forma como querendo ou não todos agiam normalmente...

Do meu lado, Bifão brincava com um elástico entre os dedos, perdida nos próprios pensamentos. A mulher era durona, mas eu sabia que tava sentindo tanto quanto eu. Lara ainda tava no quarto, separando as poucas coisas que queria levar.

Foi quando Itin apareceu, saindo da cozinha com um copo de uísque na mão. O olhar dele tava pesado. Não lembro de ter visto o cara assim alguma vez. Ele se jogou na poltrona de frente pra mim e suspirou fundo antes de falar.

Itin: A grana tá separada. Quando cês chegarem no Rio, me passa a conta que eu faço o depósito.

Gabi: Já falei que não precisa, Itin. — Levantei os olhos pra ele, já impaciente.

Itin: Precisa, sim... Tu tá assumindo a responsa da Lara. Sei que tá fazendo de coração, mas isso não muda o fato de que ela é minha família tanto quanto a sua... — Ele deu uma risada seca, sem humor, e balançou a cabeça.

Gabi: Tá bom, depois eu te passo. — Suspirei. Eu entendia o lado dele, mas dinheiro nunca tinha sido um problema pra mim, até mesmo quando eu não tinha

Ficamos um tempo em silêncio, cada um preso nos próprios pensamentos. A casa, o morro, tudo aquilo que os meninos contraíram juntos... Agora era passado.

Itin: Isso aqui nunca mais vai ser o mesmo sem ele. — Não consegui responder. Só balancei a cabeça, sentindo um aperto no peito.

Minutos depois, Lara desceu as escadas carregando uma mochila pequena nas costas. Os olhos vermelhos ainda denunciavam o tanto que ela tinha chorado nas ultimas horas, mas a expressão no rosto era de quem já tinha tomado sua decisão.

Lara: Pronto.

Gabi: Tem certeza que não quer levar mais nada? — Me levantei, indo até ela.

Lara: O que eu quero levar, tá aqui. O resto... não importa mais. — Ela respirou fundo e balançou a cabeça.

A voz dela falhou no final, e Bifão segurou seu ombro de leve, num gesto de apoio.

Itin: Então é isso. — Ele se levantou e encarou nós três por um longo momento. — Pela primeira vez desde o enterro do André, vi os olhos dele marejando. — Vem cá. — O abraço que ele nos deu foi apertado, forte, como se quisesse segurar a gente ali por mais um tempo.—  Eu amo vocês, tá?

Gabi: Também te amo meu magrelo favorito. — Engoli em seco, me afundando mais no abraço.

Itin: Cuida dela, Gabi. — Quando ele se afastou, me encarou com seriedade.

Gabi: Com toda minha vida. — Segurei o olhar dele, deixando claro que ele podia confiar em mim.

Ele assentiu e beijou o topo da minha cabeça. Nesse momento, um dos vapores apareceu na porta da sala, coçando a nuca, claramente sem graça de interromper.

Vapor: Koe, chef. Já tá na hora de levar as mina.

Itin: Então é hora de ir. — Itin passou a mão no rosto, afastando qualquer vestígio de emoção, e se recompôs.

No Complexo do AlemãoOnde histórias criam vida. Descubra agora