73

131 5 1
                                        

Pk Narrando

Domingo 18:15
17/12/2023

Eu tava parado no meio da salinha, as paredes se fechando ao meu redor. O ar parecia rarefeito, pesado, difícil de puxar. Minha mão latejava por causa do soco que dei na parede, mas a dor física era pequena perto do que tava acontecendo aqui dentro.

Eu: Grávida... — murmurei, como se essa palavra pudesse ganhar outro significado se eu repetisse mais uma vez. — Mas... como assim? Há quanto tempo? Ela sabia? Por que ela não me contou?

Olhei em volta, perdido, igual moleque no meio de um tiroteio sem saber de onde vinha o disparo. Meus olhos foram até o Neto, que me encarava com aquele mesmo olhar de quem carrega dor demais e escolhe calar. Mas eu não consegui segurar:

Eu: Cês sabiam disso? Alguém aqui sabia que a Marrenta tava esperando um filho meu?

O Neto suspirou e abaixou os olhos por um segundo, depois ergueu o olhar de novo.

Neto: Uhm... A gente sabia... — Ele deu de ombros, o maxilar trincado. — Mas... Quem tinha que te fala é ela parceiro.

Eu ia perguntar mais, questionar tudo, quando o celular do Bigu tocou alto, rasgando o clima da sala igual sirene. Todo mundo congelou. Ele tirou o aparelho do bolso, olhou o visor e seu rosto já mudou de imediato. Ficou branco. O olhar pesado.

Bigu: É a Bifão — ele disse, e a voz dele já vinha embargada. — Vou colocar no viva voz.

O som foi ativado e, na mesma hora, a voz da loira invadiu a sala.

Bifão: Amor... — A voz dela tava embargada, baixa, mas dava pra perceber o esforço que fazia pra se manter firme. — A médica acabou de vir aqui... e eu... eu não sabia se ligava... mas...

Ficamos todos em silêncio. Eu não sabia nem onde enfiar as mãos. Meu peito já doía de novo. Olhei pro Bubu, que tava travado, e depois pro chão. A voz da Bifão voltou, agora com mais clareza, mas embargada pela emoção:

Bifão: Ela... A Gabi... Ela teve uma hemorragia interna muito grave. Perdeu muito sangue... entrou num tipo de choque estranho, e precisaram operar às pressas. Foi tudo muito rápido.

Meu estômago revirou. Olhei pro chão como se aquilo fosse me segurar, me manter de pé. Mas o mundo já começava a girar. A respiração ficou presa na garganta.

Eu: Ela... tá viva, né? — Sussurrei, sem saber se eu mesmo me ouvia.

A voz da Bifão veio depois de segundos de silêncio:

Bifão: Fizeram a cirurgia... Conseguiram conter o sangramento. Mas... devido ao tempo que ela ficou perdendo sangue, e todo o processo... aconteceu uma parada no cérebro... tipo falta de oxigênio.

Meu corpo gelou.

Bifão: Ela tá em coma. Tá na UTI... — A voz dela fraquejou. — A médica disse que pode durar dias, ou semanas. Ninguém sabe ao certo. E tem mais... infelizmente...

Ela engasgou. Um soluço saiu do outro lado da linha. O Bigu baixou os olhos, segurando o aparelho com força. A voz da Bifão veio num sussurro entrecortado por choro:

Bifão: A gente perdeu o sementinha... O bebê não resistiu à queda. Aconteceu um descolamento da placenta. Foi... foi um aborto.

Silêncio.
Um silêncio ensurdecedor.

Naquela sala, o ar sumiu. Ninguém respirava. Ninguém se mexia. Só existia aquele momento. Aquele anúncio. E a porra daquele luto que entrou como granada jogada no meio do peito.

No Complexo do AlemãoOnde histórias criam vida. Descubra agora