Pk Narrando
Domingo 17:49
17/12/2023
A tensão dentro da salinha era como gás acumulado num botijão vazando há horas... Bastava uma faísca e tudo ia pros ares. Eu ainda tava de pé, respirando fundo, com o coração latejando no peito. As palavras do Neto ainda ecoavam na minha mente, batendo igual porrada no meu orgulho. O envelope no chão, os papéis espalhados, e minha cabeça girando mais do que giroflex na porta de favela.
Ninguém falava. Bubu andava de um lado pro outro puxando o beck com força, Bigu tava sentado de braços cruzados, com a cara fechada encarando o nada. Neto... tava encostado na parede, em silêncio, mas com o punho cerrado e a respiração pesada. Eu sentia que ele ainda queria gritar mais, mas tava segurando. A verdade já tinha sido jogada, e agora a gente precisava decidir o que fazer com ela — com a desgraçada da Layla.
Eu: Assim que eu souber o rastro dessa desgraçada eu mato ela — Falei de repente, quebrando o silêncio, a voz mais rouca do que nunca. — Essa filha da puta não sabe com quem ela jogou sujo...
Bigu: Cê acha mesmo que ela vai aparecer por agora!? — Bigu resmungou, com a cara fechada. — Essa porra vai sumir, irmão... Vai demorar a botar a cara de novo.
Neto: Uma hora ela vai deixar rastro... E quando deixar, hun, ela não sabe do que eu sou capaz — Neto falou, sem nem olhar pra ninguém. Só disse, frio, com a raiva transbordando.
Mas antes que alguém dissesse mais alguma coisa... a porta da salinha escancarou de uma vez, batendo na parede com um estalo que fez todo mundo se assustar. Meu coração deu um pulo, e a mão já foi pro ferro na cintura, pronto pra qualquer merda.
Lara: PK!!! — Era a voz da Lara, esbaforida, os olhos arregalados, o peito subindo e descendo com pressa. Do lado dela, uma mina de cabelo escuro e enrolados, preso num coque bagunçado, calça jeans, camisa do restaurante da Dona Rosa... Parecia tensa também. Eu conhecia de vista.
Bigu: Que porra foi essa?! — Bigu se levantou de vez, já indo na direção das duas. — Que correria é essa, caralho?!
Lara: Essa aqui é a Gisele, porra! — Lara começou a falar rápido, quase gaguejando de tanta adrenalina. — E ela viu... ela viu tudo o que aconteceu no segundo andar hoje, viu a porra toda! Ela tava lá em cima, viu aquela filha da puta da Layla ameaçando a Gabi! Eu trouxe ela aqui direto, para contar direto pra vocês.
O silêncio caiu de novo. Todos os olhares se voltaram pra Gisele, que parou na porta meio sem jeito. A mina tava visivelmente desconfortável — Os olhos baixos, a voz presa, como se sentisse que não devia estar ali. Eu me aproximei devagar, o peito ainda arfando, e falei com firmeza:
Eu: Cê viu o quê, exatamente? Pode falar, sem medo. Tu tá no lado certo...
Gisele olhou pra Lara, que assentiu com a cabeça, incentivando. Respirou fundo e começou a falar, com a voz baixa, mas firme:
Gisele: Eu... eu tava trampando pro almoço, né? A Dona Rosa me chamou pra ajudar porque não ia poder estar lá hoje... tava com o pessoal do restaurante. Tava tudo certo, tava suave...
Ela engoliu em seco, e eu cruzei os braços esperando ela continuar. A sala toda em silêncio, só os sons de respiração pesada e coração disparado.
Gisele: Teve uma hora que eu precisei ir no banheiro... Fui no de baixo primeiro, mas tava trancado. Aí fui procurar outro e... o de cima também tava ocupado. Tava apertada demais, e acabei indo no quarto da Malu, que eu já conheço desde menor...
Bigu assentiu, sério. Gisele continuou:
Gisele: Quando eu tava saindo do quarto... eu ouvi vozes. Altas, tipo uma briga. Eu fiquei travada, entende? Me escondi atrás da porta, com ela entreaberta, só de leve... E aí vi pela greta. Era a namorada do PK... a Layla. Ela tava discutindo com uma mina tatuada, a morena...
Eu: A Gabi — Eu confirmei, sentindo o sangue gelar por dentro.
Gisele engoliu em seco.
Gisele: Ela tava ameaçando a Gabi. Falando umas parada pesada... tipo... tipo... "e se sua amiga loira sumisse, tipo um acidente bobo... uma bala perdida... Ou talvez a Lara... você sabe como é fácil abordar uma garota distraída na saída da padaria."
A tensão foi imediata.
Eu: FILHA DA PUTA! — Eu gritei, batendo com força na parede, o coração disparando, a veia do pescoço saltada.
Bigu: EU VOU MATAR ESSA DESGRAÇADA! — Bigu falou ao meu lado, os olhos vermelhos de raiva, o maxilar travado. — FALOU DA MINHA MULHER, PORRA! A BIA, MANO! A BIA!!
Neto nem se mexeu. Só fechou os olhos devagar, a testa contraída, os punhos cerrados com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.
Gisele parou de falar por um instante, nervosa, engolindo seco, mas foi Bubu quem incentivou:
Bubu: Continua, Gisele... Por favor. O que mais tu viu?
Ela respirou fundo e retomou, a voz agora ainda mais baixa, mas firme.
Gisele: A morena... a Gabi, ela não deixou baixo. Foi pra cima da Layla, começou a discutir, dedo na cara, chamando ela de doente, de psicopata... Foi aí que a treta ficou feia. Tava um clima pesado, parecia que ia sair tapa ali mesmo. As duas trocando ameaça. A Gabi falando que sabia do passado dela, que ia acabar com o joguinho... E a Layla dizendo que ia acabar com todo mundo, que o plano dela já tava rodando.
Bigu andava de um lado pro outro agora, igual leão engaiolado.
Gisele: Eu... eu fiquei com medo de sair. Fiquei ali, quietinha, sem nem respirar. Mas teve uma hora que... que a Layla ameaçou a Gabi de novo. Tipo, foi pra cima, sabe? Com um olhar maluco. E a Gabi... ela deu um passo pra trás assustada, mas colocou a mão na barriga. De um jeito protetor, tipo reflexo mesmo. Eu fiquei parada. Só observando.
Gisele deu uma pausa. Engoliu em seco, e os olhos se voltaram devagar pro meu rosto.
Gisele: Layla... ela percebeu. Parecia que ligou os pontos na hora. Os olhos dela mudaram. Ela começou a rir, um riso frio, doente, e falou baixo, com a voz cínica... "Ahá... então é isso... Cê tá grávida, né? Que bonitinho... um monstrinho em formação..."
A sala ficou muda.
Gisele: Depois ela chegou mais perto e disse: "O Pedro já sabe? Ele vai adorar saber que a vagabunda que ele meteu o pau agora vem com essa história de que carrega um filho dele... Mas eu vou fazer ele acreditar que não é dele. Não vou deixar esse bebe maldito estragar meu plano. Esse neném nem vai nascer."
Ninguém respirava. Gisele fechou os olhos por um segundo, como se tentasse apagar a cena da memória.
Gisele: Foi nessa hora... Que ela a empurrou, do nada... A Gabi virou pra sair, e a Layla empurrou ela com força nas costas. Ela caiu com tudo... degrau por degrau. Eu ouvi o barulho, o corpo dela batendo, e... e o grito abafado. Depois o silêncio.
Todos se entreolharam. A raiva, o ódio, o medo. Tudo no ar. E eu... eu não consegui falar nada de imediato. O coração disparado, o peito travado, e a mente em curto.
Eu: Bebe?... Grávida?... — Minha voz saiu num sussurro, como se nem fosse minha. — A Marrenta... grávida? Como assim? MEU FILHO? A Marrenta tá grávida?!
O mundo ao redor pareceu girar. Eu levei as mãos à cabeça, sem saber oque fazer...
Eu: Eu não sabia... — Minha voz tremia. — Eu não sabia, caralho...
E ali, no meio da salinha cheia de fumaça, raiva e verdades, eu soube que tudo tinha mudado.
A Marrenta... minha Marrenta... carregava o meu filho. E agora era guerra!
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No Complexo do Alemão
Hayran KurguDois destinos entrelaçados, um morro, e uma cidade que nunca dorme. Gabriela Rippi, 24 anos, tem uma história marcada por perdas e superações. Moradora de São Paulo, ela acaba de perder a mãe e, com a dor ainda fresca, decide deixar tudo para trás...
