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Neto Narrando

Quarta-feira 16:05
20/12/2023

É foda...
Dizem que o tempo ajuda. Mas nesses últimos três dias, o tempo só tem me feito sangrar em silêncio.

Desde o acidente da Gabi e a perda do sementinha, eu virei uma sombra do que era. Aquele moleque risonho, zoeiro, que falava besteira até pra dentro da boca... Sumiu. Foi engolido pela dor, pela revolta e pela impotência de ver a pessoa que eu mais amo nesse mundo, entre a vida e a morte, ligada num monte de fio frio.

Eu não consegui mais rir.
Não consegui mais parar.
Porque se eu parar... eu caio. E se eu cair, eu vou ser so mais uma falha.

Então me afundei de vez nos corres. Me joguei com tudo na boca. Tô organizando as rotas, fechando as cargas, cuidando da contabilidade e até da segurança das bases. Acordo cedo e não paro nem pra comer direito. Porque quanto mais eu me ocupo... menos espaço sobra na cabeça pra imaginar a Gabi naquela cama, imóvel, frágil, sem aquela luz que sempre brilhou nos olhos dela.

Pra me manter de pé, virei o gerente mais frio e focado do morro.
Comandei fechamento de malote com o PP, montei novas rotas pro Esperança, negociei com fornecedor, convoquei tropa nova e reposicionei fuzil em duas frentes. Ninguém pergunta como eu tô — e talvez eu nem queira que perguntem. Porque se alguém ousar olhar no meu olho e me perguntar "tá tudo bem?", eu desabo.

A Marrenta sempre foi minha base. A irmã que a  vida me dei do nada. Minha cúmplice.

A falta dela aqui é como perder o ar do próprio pulmão. Tá tudo mudo... estranho... vazio.

E o mais louco de tudo é que, mesmo com toda essa correria, mesmo com o barulho das operações, dos rádios, das contagens, das armas sendo engatilhadas...
A única coisa que ecoa dentro de mim é o silêncio daquela CTI.

Eu tentei voltar pro foco. Mas nem tudo dá pra fingir que não tá quebrado.

Peguei o caderno velho de anotações e comecei a rabiscar as próximas rotas. A mão tremia de leve. Tinha dormido pouco, comido qualquer coisa, e o coração... bom, o coração tava pesado pra caralho.

Eu: Os muleque que vão descer essa carga tão em qual base? — Perguntei pro PP.

PP: Tão no barraco do Reco. Cê quer que eu fique no rádio com eles durante a descida?

Eu: Quero. E avisa que qualquer movimento estranho, aborta. Não quero mais sangue derramado essa semana. Já bastou o da minha prima.

PP assentiu, mas ficou me olhando. Aquele olhar que incomoda, tá ligado? Aquele que parece que lê teu pensamento.

Eu: Fala, PP. Cê tá me encarando por quê?

PP: Porque cê tá guardando tudo, irmão. Vai explodir. Cê é só um moleque de vinte e um, Neto. E tá tentando carregar o mundo nas costas. A cunhada te segurava... agora, quem segura você?

Pisquei devagar. Mordi o canto do lábio. O peito apertou como se tivesse uma âncora pendurada ali dentro.

Eu: Ninguém. — Falei, seco. — Quem segurava, tá lutando pela própria vida. E eu... tô tentando segurar a minha por ela.

Ficamos em silêncio por uns minutos. Só o barulho dos plásticos sendo fechados, dos pinos caindo na sacola, da impressora térmica cuspindo etiqueta. Era esse o som da minha rotina agora. Fria. Mecânica.

Eu: Hoje... hoje era dia de risada, de zoeira. — Soltei do nada, com a voz embargada. — Quarta-feira era o dia que a Gabi ia lá no Delux ver como tava a obra. Ficava enchendo o saco dos pedreiro, mandando trocar a cor do banheiro, perguntando se o espelho ia ser aquele mesmo. E depois passava aqui só pra me chamar de cabeça de vento.

No Complexo do AlemãoOnde histórias criam vida. Descubra agora